UOL Notícias Internacional
 

13/03/2007

Fim da migração humana

The New York Times
Nicholas Wade
O corpo humano não é apenas um organismo individual, como supõe seu orgulhoso proprietário, mas sim um zoológico ambulante de micróbios e parasitas, cada um explorando um nicho ecológico especial em seu veículo confortável, de temperatura regulada. Alguns desses colegas viajantes vivem em tamanha intimidade com seus hospedeiros que os acompanham não só no espaço, mas também no tempo, passando de geração em geração por milhares de anos, segundo os biólogos.

O mais recente organismo a ser identificado como membro antigo do clube humano é o Streptococcus mutans, a bactéria que causa o decaimento dos dentes. Com amostras coletadas em torno do mundo, Dr. Page W. Caufield e colegas da Universidade de Nova York descobriram que podiam classificar as bactérias em linhagens distintas pelo DNA. Uma é encontrada nos africanos, outra em asiáticos e uma terceira em caucasianos (os povos na Europa, Oriente Médio e Índia), conforme publicaram em artigo no Journal of Bacteriology.

A distribuição geográfica dessas linhagens reflete o padrão de migração humana fora da terra natal ancestral na África. Se a bactéria do decaimento dental fosse facilmente transmitida entre as pessoas, os padrões geográficos logo seriam borrados. Mas a Streptococcus mutans é transmitida quase inteiramente de mãe para filho, preservando suas linhagens em milhares de anos. A bactéria aparentemente infecta a criança durante o nascimento, iniciando o trabalho que dá aos dentistas seu ganha-pão. "Nunca vimos transmissão de pai para filho", disse Caulfield. Valeu, mãe.

Outro membro fiel da estrada humana é a Helicobacter pylori, bactéria que habita metade dos estômagos do mundo. Em geral, é um hóspede bem comportado, mas dá aos hospedeiros úlceras quando se irrita. Seu padrão de distribuição geográfica se encaixa com as migrações de seus hospedeiros, segundo artigo na revista Nature do mês passado pelo Dr. Mark Achtman, do Instituto Max Planck em Berlim, e colaboradores.

Há cinco populações ancestrais de H. pylori - duas na África, duas na Europa e uma na África Oriental. Todas, entretanto, tiveram uma origem comum, disse Achtman: uma bactéria que começou a se disseminar fora da África Oriental há 58.000 anos, com um erro de mais ou menos 3.000 anos. Este é o mesmo período no qual os humanos modernos teriam começado sua migração para fora da África. A coincidência das datas implica "que H. pylori estava presente na África antes das migrações, e que a África é a fonte tanto das H. pylori quanto dos humanos", concluem Achtman e colegas imparcialmente.

H. pylori parece ser transmitida dentro das famílias, mas a rota exata não está clara - talvez pelo vômito. "É surpreendente que a distribuição geográfica de um micróbio seja tão paralela à dos humanos como no caso da pylori", diz Achtman. "Em geral pensamos que os micróbios são facilmente transmissíveis e carregados por todo o mundo em navios e aviões, mas ainda assim alguns não perderam esses sinais das migrações antigas."

A análise de DNA também trouxe luz à origem da tênia, um dos aproximadamente 400 parasitas não microbiais que vêem o corpo humano como lar. O ciclo de vida da Taenia asiática alterna-se entre pessoas e porcos, um animal que autoridades religiosas do judaísmo e do islamismo concordam ser impuro. Seria de interesse saber quando esses animais sujos infectaram as pessoas com seus parasitas. Mas a resposta não é tão fácil quanto se esperava.

Eric P. Hoberg, do Serviço de Pesquisa em Agricultura, parte do Departamento de Agricultura dos EUA, em Beltsville, Maryland, concluiu em 2001 que as pessoas contraíram as tênias milhões de anos atrás na África, muito antes da emergência da agricultura e dos animais domésticos. Foram os humanos que infectaram os porcos com os vermes, não ao contrário, segundo Hoberg e colaboradores. De fato, as pessoas infectaram os porcos não só com Taenia asiática, mas também com uma segunda espécie de platelminto, Taenia solium, que os humanos parecem ter adquirido comendo outros humanos ou cães.

Se os porcos tivessem religião, seria fácil adivinhar qual espécie designariam como impura. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host