UOL Notícias Internacional
 

13/03/2007

Formando a oposição a Putin, uma casa por vez

The New York Times
Steven Lee Myers

em Moscou
Garry Kasparov, o ex-campeão mundial de xadrez, pegou uma caneta, um bloco de notas e diagramou a marcha de protesto por São Petersburgo em 3 de março. Como um general revivendo uma batalha ou um jogador analisando uma combinação vencedora, ele esboçou a Praça da Revolução e mostrou onde a polícia reuniu suas forças, bloqueando a rua que levava ao gabinete do governador. Um erro tático! "Isto é típico deste governo", ele explicou. "Eles se protegem."

Joseph Sywenkyj/The new York Times 
Kasparov pede por liberdade em um momento em Putin tem índice de aprovação de 80%

Como resultado, apenas poucos policiais protegiam a rua comercial principal de São Petersburgo, Nevsky Prospekt. E foi onde Kasparov e milhares de outros - até 5 mil, segundo algumas estimativas - atravessaram uma barricada e marcharam até o centro histórico da cidade, desafiando a proibição do evento pelo governo e a recente história de apatia política do país.

A coisa toda durou apenas duas horas, encerrando com breves confrontos com a polícia e mais de 130 prisões, incluindo a de vários líderes da oposição, mas não Kasparov. Ainda assim, foi um dos maiores protestos contra o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin.

E para Kasparov, foi a primeira rachadura no sistema político autoritário criado por Putin, um que ele se comprometeu a desmontar à medida que se aproximam as eleições presidenciais, em março próximo. "Nós nunca vimos tal protesto", disse. "Todos o reconhecem como uma nova página."

Kasparov, 43 anos, não é o único crítico de Putin, mas ele pode ser o mais proeminente. E trouxe para a oposição política a mesma energia e agressividade que caracterizou seu estilo de xadrez, atacando Putin e o Kremlin - ou o regime, como repetidamente o chama - com uma linguagem raramente falada tão abertamente na Rússia. "Este regime está perdendo o contato com o mundo real", disse ele. "É uma combinação mortal de dinheiro, poder e sangue - e impunidade."

Tais ataques chamaram a atenção das autoridades, apesar de nada pior ter acontecido até o momento; o máximo foi alguém - que parecia irado com o fato de Kasparov ter trocado o xadrez pela política - tê-lo atacado com um tabuleiro em 2005. ("Eu tenho sorte", ele disse na época, "pelo esporte popular na União Soviética ser o xadrez e não o beisebol").

Ele viaja com guarda-costas que contratou por preocupação contra hooligans, ele disse, e não porque outros críticos do Kremlin foram mortos, como a jornalista Anna Politkovskaya, que foi baleada em Moscou em outubro passado. "Se o Estado perseguir você", disse, "não há como detê-lo".

Este não é o lugar onde Kasparov esperava estar quando renunciou ao mundo do xadrez profissional, há dois anos, abandonando o esporte enquanto ainda era o jogador na posição mais alta do ranking, mesmo não sendo mais o campeão do mundo. Ele é um homem famoso e rico, autor de vários livros sobre xadrez e suas lições de vida, que agora está liderando atos de desobediência civil em uma batalha colina acima contra as políticas de Putin."Eu sou absolutamente objetivo", disse Kasparov. "Acho que podemos perder seriamente, porque o regime ainda é muito poderoso, mas a única beleza de nossa situação é que não temos muita escolha."

Kasparov é o presidente da Frente Civil Unida, uma organização que ele formou em 2005 para promover o ativismo em um país no qual ele vem desaparecendo progressivamente, apesar dos motivos ainda serem fortemente debatidos. Ele também é o principal estrategista por trás da Outra Rússia, uma coleção de grupos de todo o espectro político, unidos por sua marginalização pelas autoridades leais a Putin.

A Outra Rússia realiza conferências, incluindo uma às vésperas do encontro do último ano dos países do Grupo dos 8, e promove comícios como o de São Petersburgo. "Não era um protesto contra uma medida concreta", explica. "Não era 'nos dê mais dinheiro, salários' ou 'detenha o aumento dos preços'. Era um protesto contra o regime."

Kasparov sempre foi uma espécie de forasteiro. Ele é meio judeu e meio armênio, nascido em Baku, a capital do Azerbaijão de maioria muçulmana. Ele se mudou para Moscou em 1990 quando as tensões entre armênios e azeris se intensificaram.

Naquela época, ele já era o campeão mundial, um título que conquistou em 1985 como um jovem ousado contra Anatoly Karpov, um campeão e favorito do establishment soviético. Kasparov se tornou um forte defensor da glasnost e perestroika, as políticas de Mikhail Gorbachev para abertura da União Soviética nos anos 80.

Quando um golpe contra Gorbachev fracassou, em agosto de 1991, Kasparov deu seu apoio a Boris Yeltsin e os outros novos democratas. Na época, ele era um líder do Partido Democrático russo. Ele rompeu com Yeltsin para apoiar um adversário, Aleksandr Lebed, nas eleições de 1996.

Uma crítica contra ele é sua inconstância política: a de vaguear de um projeto a outro, mesmo enquanto continuava a competir, principalmente no exterior. Mas uma constante é sua oposição a Putin. Após um período de graça inicial, ele começou a atacar o novo presidente, atingindo um grande público internacional como colaborador do "The Wall Street Journal". Uma coluna, publicada em janeiro de 2001, pouco mais de um ano após Putin se tornar presidente, foi intitulada "Eu estava errado sobre Putin".

"Infelizmente, minha previsão, baseada na suposição de que um jovem líder pragmático fortaleceria a democracia dentro da Rússia, combateria a corrupção e endireitaria as curvas da política externa de Yeltsin, foi um sonho", ele escreveu.

E ele não parou desde então. Kasparov ataca a política externa de Putin, acusando o presidente de intimidar as antigas repúblicas soviéticas que deveriam ser fortes aliadas, enquanto promove laços com o Irã, Coréia do Norte e China. Ele acusa Putin de ter neutralizado a imprensa, amarrado os adversários políticos e os empresários independentes, e de ter minado a instituição essencial da democracia: eleições livres e justas.

Seu maior desafio é o fato de ser ignorado. O controle da televisão pelo Estado garante que suas opiniões nunca chegarão às massas. As notícias da marcha em São Petersburgo nos canais nacionais descreveram os manifestantes de forma geral, não Kasparov especificamente, como "toda sorte de radicais, de fascistas a esquerdistas".

Sua disposição de incluir todos os críticos do Kremlin na Outra Rússia, incluindo os radicais, como os filiados ao Partido Nacional Bolchevique, o deixou vulnerável à culpa por associação. Em dezembro, policiais de contraterrorismo invadiram o escritório da Frente Civil Unida, apreendendo livros e materiais impressos que anunciavam a marcha de protesto que ocorreria alguns dias depois.

Uma pergunta que paira sobre ele é se ele concorrerá contra a pessoa que despontar como o sucessor escolhido por Putin. Ele faz objeção, mas não nega a possibilidade. Diz que há outros candidatos potenciais, incluindo o ex-primeiro-ministro, Mikhail Kasyanov, acrescentando que uma questão mais urgente é formar e manter uma oposição unida.

Kasparov pede por liberdade política em um momento em que o índice de aprovação de Putin paira em torno de estratosféricos 80%. A economia, alimentada pelos altos preços da energia, está crescendo. Uma febre de consumo está em andamento, especialmente em Moscou e até mesmo fora dela.

Mas ele argumenta que o controle por Putin de todas as alavancas do poder ofuscou a fraqueza fundamental do sistema: a corrupção, a grande desigualdade entre ricos e pobres e a queda nos padrões de atendimento de saúde, educação e condições de vida. "No final do dia", disse Kasparov, referindo-se à sua campanha antes das eleições de 2008, "dependerá do fato de as pessoas se importarem ou não. Você não pode inventar um protesto público. Ou ele existe ou não". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host