UOL Notícias Internacional
 

14/03/2007

Em viagem à América Latina, Bush descobre que região está novamente em jogo

The New York Times
Jim Rutenberg e Larry Rohter*

em Mérida, México
Nas favelas do Brasil, nas aldeias empobrecidas da Guatemala e finalmente aqui, no México, o presidente Bush prometeu nesta semana propiciar "justiça social" aos pobres e aos latino-americanos em dificuldades, deixados para trás pela economia global.

O uso chamativo por Bush de linguagem revolucionária da esquerda refletiu uma tentativa urgente do presidente de afastar a crescente influência regional de líderes populistas como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que têm usado o descontentamento dos pobres para promover uma agenda antiamericana.

A viagem de Bush, disseram analistas latino-americanos, representa uma nova fase em um luta pós-Guerra Fria pela fidelidade da América do Sul e Central - regiões que saíram da atenção de Washington enquanto Bush buscava duas guerras e uma campanha mais ampla contra o terrorismo.

"Com a queda do Muro de Berlim parecia que a América Latina estava fora dos limites para os inimigos dos Estados Unidos", disse Álvaro Vargas Llosa, diretor do Centro para Prosperidade Global no Independent Institute, um grupo com sede em Washington que promove o livre comércio. "Agora, se a América Latina seguir em peso pelo caminho de Chávez, ela claramente estará em jogo novamente."

Ao longo de toda a viagem, Bush e seus assessores se eriçaram diante do que descreveram como uma atenção indevida dada a Chávez pela imprensa enquanto o líder venezuelano - cujo nome Bush se recusa a proferir - promovia uma viagem concorrente pela região nesta semana.

Bush se mostrou claramente incomodado com as sugestões de que deu as costas à região, que ele disse ignorar os aumentos da ajuda destinada a ela durante seu mandato e os vários esforços humanitários americanos.

Mas assessores reconheceram que o sentimento antiamericano disseminado era difícil de ignorar - no final da tarde de terça-feira, cerca de 2 mil manifestantes tentaram invadir a embaixada americana na Cidade do México.

Mesmo o anfitrião de Bush aqui, o presidente Felipe Calderón - que ganhou a eleição por margem apertada no ano passado contra um esquerdista nos moldes de Chávez - disse em uma cerimônia de boas-vindas que apesar da promessa de Bush de tornar o relacionamento com o México uma prioridade, "infelizmente, os terríveis acontecimentos contra o povo dos Estados Unidos, de forma compreensível, mudaram as prioridades".

Quase todo passo de Bush nesta semana parecia visar rebater a mensagem de Chávez de nacionalização da indústria e rompimento dos laços econômicos com os Estados Unidos.

Por toda sua viagem, Bush fez paradas acentuando as tentativas americanas de aliviar as condições dos pobres em países amigos - Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México - que foram escolhidos para ilustrar como fizeram o que as autoridades do governo consideraram "as escolhas certas", ao buscarem a democracia e o comércio com os Estados Unidos.

Apontando para os esforços americanos de fornecer tratamento médico para aqueles que não podem pagar por ele, Bush visitou na segunda-feira um posto médico militar improvisado que atende os aldeões pobres guatemaltecas. Ele posteriormente passou algum tempo carregando um caminhão com alface em uma cooperativa agrícola guatemalteca construída com a ajuda da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional. Em todas suas paradas, ele argumentou que o livre comércio com os Estados Unidos, caso seja dada uma chance, melhoraria a condição para todos e aliviaria a pobreza.

Mas a questão, disseram analistas latino-americanos, é se o esforço será grande o bastante, ou sustentado o bastante, para fazer a diferença, à medida que a frustração dos pobres continua crescendo enquanto assistem seus vizinhos ricos, que se beneficiaram do livre comércio, comprarem casas luxuosas e concessionárias da Land Rover aparecerem ao lado de suas favelas.

Chávez continuou aumentando a aposta contra Bush nesta semana, falando, por exemplo, de investir US$ 2,5 bilhões na construção de uma refinaria de petróleo na Nicarágua, enquanto aparecia ali com o presidente Daniel Ortega - o líder sandinista que recentemente retornou ao poder e cuja aparição com Chávez, em um comício nesta semana, foi um sinal de sua provável fidelidade.

A assistência americana empalidece diante de tais somas. Em uma entrevista aqui na terça-feira (13/3), Rossana Fuentes-Berain, a editora da página de opinião do jornal "El Universal", comparou os US$ 1,6 bilhão que os Estados Unidos dão anualmente em ajuda aqui ao custo da guerra no Iraque - e às somas que Chávez está gastando. "Carregar caixas de alface em um casaco guatemalteca colorido não é minha definição de mostrar que está disposto a aliviar a pobreza", disse Fuentes-Berain sobre a parada de Bush na cooperativa agrícola na Guatemala.

Ela disse que Bush talvez seja uma "figura polarizadora" demais para transmitir uma mensagem poderosa aqui devido à guerra no Iraque - que aqui traz lembranças das antigas intervenções dos Estados Unidos na América do Sul e Central. Além disso, a assinatura de Bush do projeto de lei criando muros e cercas ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos também provocou protestos aqui.

*Reportagem de Jim Rutenberg, em Mérida, e Larry Rohter, em Buenos Aires, Argentina. James C. McKinley Jr., em Mérida, e Simon Romero, em Caracas, Venezuela, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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