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14/03/2007

Nenhum discurso pela cultura na eleição presidencial francesa

The New York Times
Alan Riding

em Paris
Será que a cultura está perdendo sua força política na França? Pode parecer um pouco de exagero, já que o governo ainda destina US$ 3,8 bilhões para as artes a cada ano - cerca de 30 vezes o orçamento do Fundo Nacional para as Artes nos Estados Unidos.

Mas na campanha para as eleições presidenciais deste ano, a palavra cultura mal foi mencionada. Nenhum candidato propôs cortar os subsídios para as artes, mas parece que a cultura não é considerada um tema conquistador de votos desta vez. Mesmo as celebridades do show business não estão sendo cortejadas pelos candidatos.

O mundo das artes está preocupado. Em uma recente cerimônia de premiação do César, o Oscar francês, Pascale Ferran, cujo filme mais recente, "Lady Chatterley", recebeu vários prêmios, foi ovacionado ao alertar sobre a atual e futura política cultural. E a soprano Natalie Dessay fez o mesmo na premiação de música clássica.

Mesmo o ministro da Cultura, Renaud Donnedieu de Vabres, expressou preocupação que, juntamente com o lugar da França na Europa, a cultura parece ter desaparecido da agenda eleitoral. E tal ausência dificilmente reflete a importância do próprio trabalho de Donnedieu de Vabres.

Tal vácuo pode, em parte, ser atribuído ao próprio mundo das artes. Em anos eleitorais passados, suas luzes guias eram visíveis, oferecendo apoio a candidatos que, felizes em serem salpicados de glamour, respondiam de forma tranqüilizadora.

Mas se os artistas costumam pender para a esquerda, neste ano eles parecem menos seduzidos pela candidata do Partido Socialista, Ségolène Royal, apesar de pelo menos Jeanne Moreau e Emmanuelle Beart terem comparecido a um dos encontros de campanha de Royal, na terça-feira.

Os vários intelectuais franceses que costumam ser ouvidos em assuntos nacionais e internacionais também parecem, se não silenciosos, certamente confusos, na maioria dos casos mantendo distância de Royal; do candidato de centro-direita, Nicolas Sarkozy; e do novo candidato centrista, François Bayrou.

E isto importa? Provavelmente não.

Ao longo dos últimos 25 anos, um extenso investimento do governo em infra-estrutura cultural levou à Ópera da Bastilha, à pirâmide de vidro no Louvre, a uma nova biblioteca nacional, à Cité de la Musique e ao recém-inaugurado Musée du Quai Branly.

Ao mesmo tempo, um vasto conjunto de subsídios tem apoiado os autores e artistas em toda forma de arte. E isto deverá continuar. Mas há uma pergunta mais relevante que nem a burocracia cultural nem seus dependentes artísticos ousam fazer: os contribuintes franceses estão recebendo um retorno à altura?

A cena de arte francesa tem muita badalação. A cultura do passado parece segura, com os museus de propriedade do governo, as casas de ópera e teatros, todos bastante freqüentados. Mas os criadores de hoje, de artistas visuais a escritores, freqüentemente parecem fora de contato com a sociedade. Em um país tomado pela incerteza diante de sua identidade, em uma campanha dominada pela palavra mudança, eles têm pouco a dizer.

Uma explicação pode ser que, como muitas pessoas na França, os artistas estão obcecados com a proteção de seus privilégios, que eles consideram um direito nato. Ao mesmo tempo, o Ministério da Cultura, que gasta um quarto de seu orçamento consigo mesmo, protege seu poder, vendo um maior envolvimento do setor privado como uma ameaça à sua independência e um convite à estupidificarão.

Mas a França só precisa olhar para o Reino Unido para ver um modelo cultural diferente em funcionamento - e bem-sucedido. Há uma década, após 18 anos de governo Tory, a cultura no Reino Unido estava estagnada. Mas desde a chegada do Novo Trabalhismo, a cena das artes desfruta de um renascimento notável. Na semana passada, buscando evidentemente um legado mais positivo do que o Iraque antes de deixar o cargo nos próximos meses, o primeiro-ministro Tony Blair até mesmo proclamou que as artes do Reino Unido estavam vivendo uma "era dourada".

Ele tem razão. Mais dinheiro - do orçamento do governo e dos lucros da loteria nacional - não apenas modernizou a infra-estrutura da cultura, de museus e óperas a salas de concerto, mas também estimulou as artes performáticas, reviveu o teatro regional há muito negligenciado e assegurou acesso gratuito aos museus nacionais.

Mas diferente dos subsídios franceses, os gastos britânicos foram acompanhados por uma explosão de criatividade no cinema, teatro, literatura e arte contemporânea. Com isto veio um aumento da empolgação do público com as artes: a visitação a museus, por exemplo, quase dobrou na última década. O setor privado também tem participação: os teatros de West End apresentaram públicos recordes no ano passado.

A arte contemporânea é outro exemplo: os museus de propriedade do governo - mas dirigidos de forma independente - têm trabalhado de mãos dadas com as galerias privadas e casas de leilão para colocar Londres no ápice do atual boom. Muitos YBAs, como os jovens artistas britânicos (young british artists) eram conhecidos nos anos 90, agora são nomes conhecidos na França, enquanto a participação de Londres no mercado global de arte no ano passado foi sete vezes maior do que a de Paris.

Mas quando os franceses lamentam o estado moroso da arte contemporânea aqui, eles culpam instintivamente o governo, como se artistas e galerias não compartilhassem da responsabilidade. E o governo, por sua vez, corre para dar uma satisfação, como fez no ano passado, quando encomendou uma exposição chamada "La Force de l'Art", no Grand Palais, expondo 200 artistas que são franceses ou residem na França.

Reforçando o status quo daqui se encontra o abismo entre a alta cultura subsidiada e a cultura popular comercial, um que separa os públicos assim como os autores e artistas. No Reino Unido, por exemplo, diretores e atores transitam livremente entre teatro sério e cinema, televisão e musicais - e o público os segue. Na França, tal flexibilidade é rara.

Estranhamente, mesmo o febril culto britânico à celebridade pode ajudar. Os tablóides o exploram absurdamente, mas ao transformarem os artistas em figuras da mídia, a obsessão por celebridades também faz as artes parecerem bacanas. Na França, por outro lado, os astros de cinema e semelhantes desfrutam de leis de privacidade mais rígidas e menos visibilidade.

Talvez tudo se resuma ao risco: a cena de artes britânica é mais arriscada, a cena francesa mais segura; os britânicos são autoconfiantes, os franceses inseguros.

Será que o próximo presidente francês trará muita mudança? Especificamente, será que qualquer ocupante do Palácio do Eliseu ousará começar a desmontar o sistema de bem-estar cultural para libertar o espírito criativo do país?

Mesmo Sarkozy, o candidato de centro-direita que alega que sacudirá a França, tem sido cauteloso. Mas ele parece ter notado o problema em uma recente crítica aos subsídios para filmes franceses inconseqüentes que rapidamente desaparecem dos cinemas. "O sucesso não deveria ser o único critério para oferecer ajuda", ele notou, "mas a exibição de filmes em cinemas vazios também não deveria ser a única exigência".

Talvez, apenas talvez, ele esteja sinalizando que chegou a hora dos artistas franceses começarem a oferecer mais. George El Khouri Andolfato

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