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14/03/2007

O que é tão engraçado? Bem, talvez nada

The New York Times
John Tierney
Dois bolinhos estão assando no forno. Um deles grita: "Puxa, está muito quente aqui!" e o outro bolinho responde: "Santo Deus! Um bolinho falante!" Essa piada fez você rir? Eu diria (e espero) que não. Mas em circunstâncias diferentes você poderia estar sorrindo, talvez rindo, talvez gargalhando.

Brian Rea/The New York Times 


Sei que é difícil acreditar, mas confie em mim. Acabam de sair os resultados de um teste de laboratório sobre a piada dos bolinhos. O riso, um tema que atrai os filósofos há 2 mil anos, está finalmente cedendo à ciência. Pesquisadores vasculharam cérebros e fizeram cócegas em bebês, chimpanzés e ratos. Eles rastrearam a evolução do riso até o que parece ter sido a piada primitiva - ou, para ser exato, o primeiro número cômico que matou de rir uma platéia de primatas.

Não foi mais engraçado do que a piada dos bolinhos, mas isso não é de surpreender, pelo menos não aos pesquisadores. Eles descobriram algo que escapou a Platão, Aristóteles, Hobbes, Kant, Schopenhauer, Freud e os muitos teóricos que tentaram explicar o riso com base na premissa errada de que estão explicando o humor.

De vez em quando somos surpreendidos rindo de alguma coisa engraçada, mas a maioria das risadas tem pouco a ver com humor. É uma ferramenta instintiva de sobrevivência para os animais sociais, e não uma reação intelectual ao humor. Não tem a ver com entender a piada. Tem a ver com interação social.

Quando Robert R. Provine tentou aplicar sua formação em neurociência ao riso, 20 anos atrás, ele começou ingenuamente levando pessoas para seu laboratório na Universidade de Maryland para assistir a episódios de "Saturday Night Live" e a um número de George Carlin. Elas não riram muito.

Foi o que um comediante chamaria de público chocho. Então ele foi para habitats naturais - calçadas da cidade, shopping centers - e observou cuidadosamente milhares de "episódios de riso". Descobriu que 80% a 90% deles ocorriam depois de frases simples como "Eu sei" ou "Até logo". As frases que provocavam risada raramente iam além do nível de "Você está cheirando como alguém que fez uma boa ginástica".

"A maioria dos diálogos pré-risadas", concluiu o professor Provine em seu livro "Laughter" [Riso], de 2000, "é parecida com o daquela interminável comédia de televisão escrita por um redator extremamente mal-dotado."

Ele descobriu que a maioria dos oradores, especialmente as mulheres, ria mais que seus ouvintes, usando o riso como pontuação em suas frases. É em grande parte um processo involuntário. As pessoas podem conscientemente reprimir o riso, mas poucas conseguem rir de maneira convincente. "O riso é um sinal social honesto, porque é difícil de fingir", diz Provine. "Estamos lidando com algo poderoso, antigo e cru. É uma espécie de fóssil comportamental que mostra as raízes que todos os seres humanos, talvez todos os mamíferos, têm em comum."

A risada humana evoluiu do som rítmico feito pelos primatas como chimpanzés quando tocam uns aos outros em brincadeiras. Jaak Panksepp, um neurocientista e psicólogo da Universidade Estadual de Washington, descobriu que os ratos emitem um chiado ultra-sônico (inaudível para os seres humanos sem equipamento especial) quando são coçados, e gostam tanto da sensação que continuam voltando para receber mais cócegas.

Ele e Provine imaginam que a primeira piada primata - isto é, o primeiro ato que produziu um riso sem contato físico - foi a cócega fingida, do mesmo tipo que emocionam os pais quando eles mexem os dedos diante do bebê.

Panksepp acredita que o cérebro tem antigas conexões que produzem riso para que os animais jovens aprendam a brincar entre si. O riso estimula os circuitos de euforia no cérebro e também tranqüiliza os outros animais de que eles estão brincando, e não lutando. "O riso primata evoluiu como um dispositivo de sinalização para salientar a disposição para a interação amigável", diz Panksepp. "Animais sociais sofisticados como os mamíferos precisam de um mecanismo emocionalmente positivo para ajudar a criar cérebros sociais e a inserir eficazmente os organismos no tecido social."

Os seres humanos já riem aos quatro meses e depois evoluem das cócegas para os Três Patetas e para gatilhos de riso mais sofisticados (ou, em alguns casos inexplicáveis, para filmes de Jim Carrey). O riso pode ser usado cruelmente para reforçar a solidariedade e o orgulho de um grupo ao zombar dos desviantes e insultar forasteiros, mas é principalmente um sutil lubrificante social. É uma maneira de fazer amigos e também de deixar claro onde cada um se encaixa na hierarquia.

O que nos leva de volta à piada dos bolinhos. Ela foi aplicada por psicólogos sociais na Universidade Estadual da Flórida a alunas do curso de graduação no ano passado, durante entrevista para o que era declaradamente um estudo de seus hábitos de consumo. Algumas das mulheres foram informadas de que o entrevistador daria um prêmio substancial em dinheiro para algumas das participantes, como um chefe decidindo qual subalterno merecia um prêmio.

As mulheres colocadas na posição de subalternas tinham muito maior probabilidade de rir da piada dos bolinhos (e outras quase tão sem graça) do que as mulheres do grupo de controle. Mas não era só porque as subalternas estivessem tentando manipular o chefe, como foi demonstrado em uma experiência de seguimento.

Desta vez cada uma das mulheres viu a piada dos bolinhos ser contada em videoteipe por uma pessoa que iria declaradamente trabalhar com ela em uma tarefa. Supostamente haveria um prêmio em dinheiro a ser distribuído depois por um chefe designado. Em alguns casos a mulher que assistia era designada chefe; em outros casos ela era a subalterna ou uma colega da pessoa no vídeo.

Quando a mulher que assistia era a chefe, ela não ria muito da piada dos bolinhos. Mas quando ela era a subalterna ou uma colega, ria muito mais, mesmo que o contador da piada não estivesse na sala para vê-la. Quando você está embaixo na hierarquia social, precisa de todos os aliados que conseguir, por isso aparentemente você é levado a rir de qualquer coisa, mesmo que não lhe cause um benefício imediato.

"O riso parece ser uma reação automática à sua situação, mais que uma estratégia consciente", disse Tyler F. Stillman, que fez os experimentos juntamente com Roy Baumeister e Nathan DeWall. "Quando eu conto a piada dos bolinhos para minhas classes de graduação, eles dão gargalhadas."

Stillman diz que ficou tão habituado aos risos que não estava preparado para a reação que teve em uma conferência em janeiro, apesar de perceber que deveria tê-la esperado. "Era uma pequena conferência com alguns dos pesquisadores mais importantes no campo", ele lembra. "Quando eles me escutaram, e eu era um estudante de graduação, contar a piada, houve um silêncio realmente desconfortável. Era possível escutar os grilos." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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