UOL Notícias Internacional
 

14/03/2007

Uma nova "talebanização" toma conta do norte do Paquistão

The New York Times
Carlotta Gall

em Peshawar, no Paquistão
Ao longo da fronteira afegã, em um local que não fica distante desta cidade no noroeste do Paquistão, militantes muçulmanos utilizaram uma base estabelecida no decorrer dos últimos 12 meses para treinar e despachar homens-bomba contra forças dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão.

Mas nas últimas semanas esses suicidas passaram a atuar no próprio Paquistão, desfechando seis ataques e matando 35 pessoas. Os líderes militantes ameaçaram realizar vários outros ataques, e com isso abriram de fato uma nova frente na sua guerra.

Diplomatas e moradores preocupados vêem os atentados a bomba como prova do alastramento da "talebanização", conforme o presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, se refere a esse fenômeno que se infiltrou em um número maior de distritos habitados do Paquistão a partir das áreas fronteiriças tribais, nas quais o Taleban e a Al Qaeda estabeleceram as suas moradias.

Em Peshawar e em outras partes da Província da Fronteira Noroeste, que faz divisa com as áreas tribais, os moradores contam que as escolas de inglês foram ameaçadas, as alunas das escolas foram aconselhadas a usar véus, a música foi banida e os homens foram orientados a não fazerem a barba.

Além disso, há o número crescente de atentados suicidas a bomba. Um dos mais letais matou 15 pessoas em Peshawar, a maioria delas policiais, incluindo o popular chefe de polícia.

A polícia, na linha de frente da violência, foi quem mais sofreu com vários dos ataques suicidas, afirmam os diplomatas e outras autoridades. Essas autoridades estão cada vez mais desmoralizadas e acuadas, o que permite que a militância se dissemine ainda mais.

Os atentados a bomba não são um fato novo no Paquistão. Houve vários casos graves envolvendo a Al Qaeda, nos quais homens-bomba tentaram matar Musharraf e o primeiro-ministro Shaukat Aziz, além de terem visado alvos estrangeiros, engenheiros franceses e o Consulado dos Estados Unidos em Karachi.

Mas o terrorismo indiscriminado, semeado por homens-bombas solitários que trazem explosivos amarrados ao peito e que vagam pelas multidões, se constitui em uma nova experiência para os paquistaneses, e o fenômeno chocou e enfureceu muita gente por aqui.

"Esses ataques são incidentes isolados de ira fanática, ou são uma espécie de esforço coordenado generalizado para intimidar o próprio Estado?", questionou o "The Nation", um jornal diário de circulação nacional em um editorial logo após o último atentado contra um juiz antiterrorista, em Multan. "Esforço coordenado ou não, esta é uma época perigosa para que alguém seja considerado um representante do Estado. Os militantes estão enviando uma mensagem ao campo doméstico".

Todos os ataques são originários da área tribal do Waziristão, segundo uma autoridade graduada do governo, que pediu que o seu nome não fosse divulgado já que as investigações estão em andamento. Segundo ele, lá os movimentos que apóiam a jihad na Caxemira e no Afeganistão, grupos sectários e células de militantes, se fundiram em uma espécie de hidra.

"Todos eles estão na região de Wana, no sul do Waziristão", disse a autoridade. "Não se trata mais de um problema apenas afegão. Isso se tornou também um problema paquistanês".

Mesmo assim, não se sabe ao certo se existe uma estratégia única por trás dos ataques suicidas. Alguns foram aparentemente de natureza sectarista, parte de um problema que perdura há décadas no Paquistão, entre grupos extremistas xiitas e sunitas.

Mas os militantes aliados ao Taleban e à Al Qaeda parecem estar por detrás de quatro dos seis ataques mais recentes, tendo agido em retaliação a ações militares por parte das forças paquistanesas contra os grupos das regiões tribais.

Desses, os últimos três ataques podem ser atribuídos a Baitullah Mehsud, um líder militante que reside no sul do Waziristão, e que é conhecido por ter enviado homens-bomba a partir do seu reduto nas montanhas para o Afeganistão, segundo a versão policial.
Ex-combatente do Taleban, Mehsud disse que o seu principal desejo é lutar contra a coalizão liderada pelos Estados Unidos e as forças da Otan no Afeganistão. Ele firmou um acordo de paz com o governo paquistanês em 2005, concordando em não atacar as forças paquistanesas contanto que contasse com a permissão para dar continuidade à sua jihad do outro lado da fronteira.

Mas devido às pressões crescentes dos Estados Unidos, e agindo com base em informações fornecidas pela inteligência norte-americana, as autoridades paquistanesas enviaram helicópteros para atacar o suposto esconderijo dos seus seguidores em 6 de janeiro último, tendo matado oito pessoas. Mehsud jurou vingança, e acredita-se que vários dos recentes ataques suicidas tenham sido retaliações.

Um ataque suicida a bomba contra um comboio militar em 22 de janeiro foi perpetrado por homens de Mehsud. Um outro ataque desfechado por um homem-bomba contra o Hotel Marriott, em Islamabad, em 26 de janeiro, que matou um policial, também foi atribuído a Mehsud. E ele também foi responsabilizado por um ataque que matou um policial em Dera Ismail Khan, em 29 de janeiro.

Durante uma entrevista coletiva à imprensa no último dia 2 de fevereiro, Musharraf jurou que perseguirá Mehsud. Mas o governador da Província da Fronteira Noroeste, Ali Muhammad Jan Aurakzai, preferiu enviar uma delegação de anciões para dialogar com o militante. Mais tarde o comandante militante negou qualquer envolvimento, mas os atentados a bomba diminuíram.

No entanto, uma outra autoridade da área de segurança afirma que outras pistas apontam para mais um grupo militante, o Tehreek Nifaz-e-Shariat Mohammadi, cujo objetivo é estabelecer a shariah, a lei islâmica. O grupo é ativo nas áreas tribais ao norte de Peshawar.

O movimento apóia intensamente o Taleban, e é vinculado à Al Qaeda. É quase certo que ele tenha sido o responsável pelo ataque suicida a bomba que matou 44 cadetes em novembro em Dargai, em retaliação a um ataque aéreo contra uma escola religiosa administrada por um dos seus membros na área tribal de Bajaur.

O grupo continua ativo e pode ser o responsável por alguns outros ataques na região fronteiriça, segundo disse um diplomata ocidental no Paquistão. Eles e outros militantes também estão tentando, com um efeito cada vez maior, intimidar as populações que vivem além das áreas tribais.

Uma escola de segundo grau para meninas em Mardan recebeu recentemente a advertência de que as garotas devem usar véus ou permanecer em suas casas, em uma tática típica de grupos como o Tehreek Nifaz-e-Shariat Mohammadi. Quatro escolas de inglês foram fechadas durante quatro dias no mês passado, depois que a polícia foi informada sobre uma outra possível ameaça a essas instituições.

"Esses são atos de terror para derrotar psicologicamente o povo a fim de que este aceite a força e os métodos do Taleban", afirma Latif Afridi, político de oposição e membro da ordem provincial dos advogados em Peshawar. UOL

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