UOL Notícias Internacional
 

17/03/2007

Economias do Iraque e do Irã se tornam mais integradas

The New York Times
Edward Wong*

em Najaf, Iraque
Enquanto o governo Bush empenha-se em impedir que o Irã se envolva com as questões iraquianas, condicionadores de ar iranianos enchem as lojas de eletrodomésticos do Iraque, tomates iranianos amadurecem nos peitoris das janelas das cozinhas daqui e diversos Peugeot brancos, feitos no Irã, podem ser vistos estacionados nas ruas iraquianas.

Robert Nickelsberg/The New York Times 
Em Karrada, cidade vizinha a Bagdá, comerciante vende condicionadores de ar iranianos

Algumas cidades iraquianas, incluindo Basra, o centro petrolífero no sul do país, compram ou pretendem comprar eletricidade do Irã. O governo Iraquiano depende de companhias iranianas para o transporte da gasolina importada do Turcomenistão a fim de aliviar a grave carência desse combustível. As autoridades iraquianas estão reavaliando um pedido do Irã para a abertura de um banco iraniano em Bagdá, e o Irã se ofereceu para empestar ao Iraque US$ 1 bilhão.

As economias do Iraque e do Irã, os maiores países de maioria xiita do mundo, estão se tornando cada vez mais integradas. Os produtos iranianos invadem os mercados iraquianos e as cidades iraquianas buscam os serviços básicos oferecidos pelo Irã.

Depois que os dois países travaram uma guerra devastadora de 1980 a 1988, Saddam Hussein manteve um controle rígido sobre o comércio através da fronteira, mas tal comércio cresceu explosivamente desde a invasão norte-americana em 2003.

Porém, grande parte do dinheiro segue em uma direção única: o Iraque está se tornando dependente das importações porque as indústrias daqui foram devastadas pelas sanções econômicas da década de 1990, e também devido à atual violência sectarista.

A reconstrução e a segurança deixaram tanto a desejar em relação às expectativas dos iraquianos comuns que os produtos baratos do Irã e de outros países vizinhos muitas vezes se constituem nos únicos fatores de conforto presentes nas vidas dessas pessoas.
"O que está ocorrendo neste momento no Iraque é muito comércio, mas trata-se quase que exclusivamente de um comércio unilateral", afirma Barham Salih, o vice-primeiro-ministro iraquiano das Finanças, referindo-se aos laços econômicos do seu país com o Irã e outras nações vizinhas. "Se retirarmos o petróleo dessa equação, perceberemos a existência de um grande desequilíbrio".

Os líderes iraquianos do bloco xiita que está atualmente no poder dizem que os vínculos políticos e econômicos com o Irã, que é governado por persas xiitas, inevitavelmente se fortalecerão. Como fatores de estímulo para isso eles citam a hostilidade das nações árabes sunitas em relação a um Iraque governado por xiitas e a ambivalência da Casa Branca quanto aos partidos xiitas locais.

"Se os xiitas não se sentirem protegidos, se eles acharem que não conseguirão manter aquilo que obtiveram, grande parte da liderança terá que trabalhar em conjunto com o Irã", explica Sami al-Askari, legislador xiita que assessora o primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki, ele próprio um xiita religioso que tem fortes vínculos com o Irã. "Os árabes e os norte-americanos estão dizendo que o Irã é ruim, mas este é o único recurso de que dispomos".

Segundo uma estatística freqüentemente citada, o comércio entre o Iraque e o Irã aumentou 30% por ano desde a invasão de 2003. Mas as autoridades norte-americanas dizem que não há números precisos disponíveis porque o Irã se recusa a divulgar dados completos.

Estatísticas da seção econômica da Embaixada dos Estados Unidos revelam que a Síria respondeu por 22% das importações iraquianas em 2005, e a Turquia por 21%. O Irã, que possui a mais extensa fronteira com o Iraque, provavelmente também se enquadraria nesta faixa, segundo as autoridades norte-americanas. O Livro de Informações Mundiais da CIA estima que as importações totais do Iraque em 2006 chegaram a US$ 20,8 bilhões.

O Irã divulgou alguns números relativos ao comércio entre os dois países. Teerã informou ao governo da região curda no norte do Iraque que o comércio com aquela região chegou a mais de US$ 1 bilhão em 2006, disse Hassan Baqi, presidente da câmara de comércio na cidade curda de Sulaimaniya.

Hoshyar Zebari, o ministro das Relações Exteriores do Iraque, que é curdo, disse que os governos das províncias têm firmado os seus próprios acordos comerciais com os iranianos, mas informou que recentemente passou a ordenar a esses governos que façam tais negociações através do Ministério das Relações Exteriores. "Temos vários acordos com o Irã sobre energia, comércio, petróleo e visitantes - ou seja, peregrinos -, algo que é muito importante para eles", disse.

Aqui na região sul, o centro religioso da população xiita, os iraquianos têm se beneficiado bastante dos novos laços econômicos com o Irã. Isso é especialmente notável nas cidades sagradas de Najaf e Karbala, nas quais os templos religiosos atraem milhares de peregrinos iranianos todos os meses.

Os centros locais nos quais atuam os reverenciados clérigos xiitas como o grande aiatolá Ali al-Sistani coletam enormes doações de filiais no Irã. Esse dinheiro também vai parar na economia local.

O governo iraniano doa a Najaf US$ 20 milhões anualmente para a construção e melhorias de instalações turísticas para peregrinos, afirma Asaad Abu Galal, o governador de Najaf. Abu Galal, um membro do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, um partido político iraquiano influente fundado no Irã, disse que Karbala recebe cerca de US$ 3 milhões por ano. Além disso, cada peregrino iraniano gasta até US$ 1.000 com hotéis, alimentação e suvenires.

Autoridades do setor de turismo das províncias calculam que mais de 22 mil peregrinos iranianos visitam Najaf todos os meses e que pelo menos 10 mil viajam a Karbala. A maioria vem em pacotes turísticos.

As autoridades gostariam que esses números aumentassem, mas muitos dizem que isso não ocorre devido às restrições ao fornecimento de vistos e às preocupações relativas à segurança. "Nós precisamos aumentar o número de peregrinos", diz Abu Galal.

Segundo as autoridades iraquianas, os vínculos estreitos com o Irã no sul provocaram o escrutínio dos Estados Unidos. Em determinado momento, a província de Najaf estava a prestes a contratar uma companhia iraniana para a construção de um aeroporto, mas o negócio foi cancelado no último momento pelo Ministério dos Transportes, em Bagdá, segundo informaram funcionários do Conselho Supremo. Eles suspeitam que os Estados Unidos tenham exercido pressão sobre o ministério.

"Os norte-americanos não querem trazer iranianos para Najaf", explica Abu Galal. "Eles querem controlar tudo".

Um funcionário norte-americano graduado que trabalha em Bagdá se recusou a tecer comentários especificamente sobre o projeto do aeroporto de Najaf, mas disse que os norte-americanos de fato examinam cuidadosamente as vultuosas transações comerciais com o Irã. "Prestamos muita atenção", disse o funcionário. "Não queremos que pessoas que trabalhem para serviços de inteligência obtenham contratos para projetos aqui no Iraque".

As tensões entre os Estados Unidos e o Irã aumentaram tremendamente nos últimos meses. A Casa Branca, alegando que o Irã deseja desenvolver armamentos nucleares, pressionou a Organização das Nações Unidas (ONU) para que esta impusesse duras sanções sobre Teerã. Os Estados Unidos também acusaram o Irã de exportar explosivos mortíferos para as milícias xiitas no Iraque.

Mas o funcionário graduado norte-americano disse que o aumento do comércio entre Iraque e Irã é algo de forma geral positivo. "Eu não diria que há uma ligação entre o aumento do comércio com o Irã e a influência política iraniana", disse ele, que pediu que o seu nome não fosse divulgado, devido aos protocolos diplomáticos. "Enquanto isso consistir em uma atividade econômica normal que não tenha conseqüências na área de segurança, trata-se de um passo positivo".

*Damien Cave, Alissa J. Rubin e Wisam A. Habeeb, em Bagdá, e Yerevan Adaham, em Halabja, colaboraram para esta matéria UOL

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