UOL Notícias Internacional
 

18/03/2007

A forma do cinema, transformada pelo clique de um mouse

The New York Times
A.O. Scott
Há algum tempo já é possível imaginar um momento em que você —sim, você, a pessoa do ano, o árbitro final da relevância cultural— será capaz de assistir ao que quiser, quando quiser, no local de sua escolha. Um punhado de sites que atualmente oferece filmes em "streaming" ou para baixar, assim como o vídeo por demanda por meio de TV a cabo ou satélite, proporcionam um vislumbre do que está por vir.

Talvez a promessa mais intrigante que esses sites reservam, pelo menos para aqueles cujo interesse em cinema vai além dos filmes novos, recentes e agressivamente badalados, é um tipo de cinemateca virtual. A restauração e a preservação da história do cinema é um projeto de muitas décadas acelerado e democratizado pela ascensão do DVD, que colocou versões integrais, esteticamente críveis, de antigos filmes a um fácil alcance das multidões.

Não que o esforço seja sistemático ou completo: ainda há outras centenas de títulos aguardando transferência para a mídia digital. Mas a Internet, mesmo estando atualmente atrás do mercado de DVD em termos do que está disponível, amplia a promessa de abrangência e acessibilidade universal. Agora é possível imaginar —e esperar— que em breve toda a história sobrevivente do cinema estará aberta para ser escolhida e assistida ao clique de um mouse por alguns poucos dólares pagos por PayPal.

Esse aspecto da experiência cinematográfica online não é, por si só, particularmente revolucionário. Ele torna os hábitos estabelecidos de assistir a filmes em casa um pouco mais indulgentes. O que parece potencialmente mais relevante é a ascensão do vídeo por demanda como forma de distribuição inicial, uma forma não apenas de antigos filmes serem preservados, mas também de novos serem descobertos.

"Direto para vídeo" atualmente é mais ou menos sinônimo de baixa qualidade. Mas os custos de cópias para cinema e propaganda, juntamente com o pequeno tamanho do público para filmes de arte e estrangeiros, tornou o caminho direto para vídeo, seja online ou em disco, uma opção mais atraente tanto para as pessoas sérias quanto para as preguiçosas.

Mais e mais filmes que recebem um pouco de exposição no circuito de festivais —quando ganham comentários em publicações baseadas em Internet e blogs, principalmente— encontrarão seu público não nos complexos de salas ou no circuito de filmes de arte, mas em casa.

Essa é a possibilidade proporcionada por sites como GreenCine, Jaman, EZTakes e outros como eles, assim como pelo Google Video, por meio do qual você pode comprar ou "alugar" uma grande variedade de filmes. Se você olhar para a extensa oferta de documentários do Google, poderá se surpreender não apenas com a diversidade de assuntos, mas também com a variedade da duração dos filmes.

Uma coisa que a distribuição online parece realizar é a destruição da tirania do longa-metragem. É quase impossível para um filme com menos de 70 minutos de duração ser exibido comercialmente em cinema, ou um filme de 67 ou 17 minutos receber um bloco na programação de TV. Mas, por demanda, o tempo de duração é mais flexível e pode recompensar os cineastas pela concisão ou ao menos pela economia de expressão.

Mas os cineastas cujo trabalho circula principalmente pelos vários aplicativos de Internet ou por demanda entrarão em um mercado já abarrotado.

O número de filmes lançados em cinema em Manhattan —isto é, os filmes que mereceram uma crítica no "The New York Times"— praticamente dobrou desde o início da década, para cerca de 600 por ano. Acrescente a isso os filmes que são exibidos apenas em festivais, e o número chega a milhares; inclua os filmes direto para vídeo, seja pela Internet ou DVD, e potencialmente há dezenas de milhares de filmes competindo pela atenção sobrecarregada dos espectadores.

Como eles serão selecionados? Como você saberá quais poderá ter interesse em assistir? Eu não faço tal pergunta defensivamente, como um portal cultural se queixando da perda da minha autoridade —chega de você! Tem gente aqui tentando ganhar a vida&mdas; mas por genuína curiosidade. Tornou-se uma espécie de truísmo que a cultura na Internet é movida não pelas formas tradicionais, de cima para baixo, de formação de opinião como o julgamento de críticos profissionais ou de estratégias de profissionais de marketing corporativos, mas sim das operações laterais de redes sociais. Nichos e círculos se formam organicamente, à medida que pessoas de mentalidade semelhante se associam no ciberespaço em torno de interesses compartilhados.

E isso, por sua vez, encoraja uma abordagem faça você mesmo de produção e distribuição. Como uma banda, pelo menos em teoria, não precisa mais de uma gravadora para ser ouvida, da mesma forma um cineasta pode descartar a mediação intrometida de um estúdio. Rode seu filme na sala de estar com seus amigos, o edite no seu laptop e eu o assistirei no meu, na minha sala de estar com meus amigos.

Ou algo assim. Certamente nunca haverá filmes demais. Ou, colocando de outra forma, sempre haverá filmes demais, mais do que qualquer um será capaz de acompanhar. O fato de que mais serão feitos e que mais terão a chance de serem vistos não é motivo para queixa. Mas a esta altura já deveríamos ter aprendido a considerar previsões utópicas —ou apocalípticas— sobre o impacto da Internet com uma dose de ceticismo. Ainda precisa ser desenvolvida tecnologia capaz de aumentar o número de horas do dia, o que significa que, de alguma forma, ainda teremos que escolher entre os milhares de filmes à nossa disposição instantânea.

O que guiará tais escolhas? As redes sociais contornarão tanto o marketing implacável e a miopia dos críticos? Se a breve história da Internet ensina algo, é que qualquer resposta precoce e decisiva certamente está errada.

Eu duvido que, pelo menos no futuro próximo, um cineasta dispondo de opção recusará a distribuição nos cinemas em prol da Internet, ou que um filme distribuído pela Internet igualará a receita de mesmo um lançamento modesto no circuito de arte. Mas, ao mesmo tempo, parece provável que um novo cineasta importante em breve será descoberto em um site de filmes para download e terá uma chance de sucesso ao estilo tradicional de Hollywood, uma chance de fazer filmes para a tela grande. De qualquer forma, nós permaneceremos assistindo. George El Khouri Andolfato

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