UOL Notícias Internacional
 

19/03/2007

Do mais mimoso ao mais primordial: uma viagem pelo delta africano

The New York Times
Lydia Polgreen
É fácil detectar o momento exato em que eu me dei conta de que a África Ocidental estava pronta para transformar sua imagem de paraíso dos mochileiros e passar a atrair um novo tipo de viajante. Foi quando estava sentada numa praia na boca do rio Saloum, com uma ostra grelhada numa mão, brilhante em sua concha chamuscada, e uma taça de vinho moscatel na outra.

Candace Feit/The New York Times 
A piscina do Royal Lodge parece dar para o infinito, as suites estão espalhadas em bangalôs

Eu estava lá no delta do Sine Saloum, esplendoroso encontro de rio, terra e mar pouco ao norte da fronteira do Senegal com Gâmbia, aonde uma série de hotéis despontou nos últimos cinco anos, atraindo essa nova espécie de viajantes. A África Ocidental já por décadas tem sido a terra dos mochileiros - o lugar certo para ir quando se quer fazer daquelas viagens que transformam a vida, com hotéis a U$ 2 por noite, sacolejando em jornadas intermináveis na parte traseira de um táxi-lotação em estradas precárias, comendo granola no almoço e ensopado de carne misteriosa no jantar. Eu mesma fiz muitas viagens assim, como estudante do segundo grau vivendo em Gana no começo dos anos noventa. Enquanto isso, os turistas endinheirados iam em direção ao leste ou ao sul, em busca de safaris grandiosos e dos resorts luxuosos no Oceano Índico e no Cabo.

Mas na África Ocidental de hoje, em lugares como Gana, Benin, Mali e especialmente no Senegal, os viajantes estão procurando por uma outra África - mais para Wole Soyinka e Leopold Senghor do que para Isak Dinesen e Ernest Hemingway - e estão encontrando opções novas e surpreendentemente suntuosas.

A região do delta do Sine Saloum em Senegal representa talvez a melhor incorporação dessa tendência, principalmente ao redor da cidade de Palmarin, na série de aldeias que ocupam estreita faixa de terra entre o Oceano Atlântico e o rio Saloum.

Numa recente viagem ao delta, minha parceira, Candace Feit, e eu passamos alguns dias comparando dois resorts luxuosos muito diferentes entre si que surgiram entre o rio e o mar, navegando pelos afluentes cercados de manguezais em grandes botes de madeira, identificando pássaros e comendo ostras pescadas ali naquelas águas salobras.

Nossa primeira parada, o Royal Lodge, tinha uma série de suítes espalhadas pelo terreno em bangalôs com telhados de sapé, perto de uma praia bem grande. As suites cheias de cavernas estavam divididas em três espaços igualmente gigantescos - uma sala de estar, o dormitório e banheiro espetacular, com uma grande jacuzzi que parecia boa o bastante para uma família de quatro pessoas.

Com sua piscina que parece dar para o infinito, o bar que se alcança em algumas braçadas e de frente para o mar, o Royal Lodge é um resort praiano de última geração. Percebe-se que poucas pessoas vêm aqui só pelas praias, que são bastante agradáveis, mas que em nada são comparáveis ao sensacional panorama geral que se descortina.

O delta é um lugar de beleza etérea - tem igarapés serpenteantes e plácidos cercados de manguezais, habitados por garças, aves íbis e pelicanos; as enormes e assustadoras árvores baobás, esses poderosos símbolos da África com seus galhos torcidos que parecem dedos; os domínios esponjosos do pantanal perpassados pelo vôo súbito de um milhão de pássaros.

Levando tudo isso em conta, alugamos uma charrete e um guia conhecido no hotel como Simon Mbissane Ndiaye para nos conduzir num cruzeiro a bordo de uma piroga, colorido tipo de barco pesqueiro usado em todo o Senegal. Rapidamente nossa charrete saiu da estrada principal e entrou na reserva natural de Palmarin, vasta e rica região cheia de plantas e animais.

Nós tecemos nosso caminho pela incrível paisagem de salinas e grandes crateras escavadas por habitantes da região - na maior parte, mulheres - que colhem os cristais que vêm à terra quando a água evapora. Cada piscina da salina tem uma tonalidade diferente. Algumas têm cor de manteiga derretida, outras são profundamente ocres, algumas tem tonalidades de pistache e cor de pêssego, numa paleta bizarra e impressionante criada pelo solo, pelos minerais e por plantas microscópicas.

Passando por um bosque majestoso de baobás, nossa piroga demorou um pouco para entrar na ilha de Sangomar, na faixa de areia entre o rio e o mar. Antigamente era parte do continente, mas uma grande tempestade em 1987 dilacerou a costa e inundou a nesga de areia que conectava a cidade de Djifer com o que era a ponte de Sangomar, segundo nos disse Ndiaye.

O que restou da faixa de areia formou uma linda praia de areia lisa e branca no lado fluvial da ilha, sem falar nas ondas delicadas, perfeitas para a tranqüila arte de pegar jacaré. O surfe mais radical ocupa o outro lado da ilha, onde, no centro, existe um baobá sagrado, fonte de inspiração para feiticeiros e contadores de histórias do povo Serer, que domina esta região.

Quando voltamos da ilha, enfrentamos o por do sol e a maré vazante para chegarmos à cocheira onde estava a charrete. A água era rasa, e o barco mal pôde passar em alguns trechos. Na água límpida, víamos peixes prateados que escapavam dos pássaros na fresca atmosfera do crepúsculo. Íbis e uma espécie de beija-flor bailavam no ar, enquanto límpidos pesqueiros sondavam a água transparente, procurando peixes. Embora não tivéssemos a intenção de fazer um cruzeiro ao por do sol, visitar os manguezais ao alvorecer era um dos destaques da viagem.

Após duas noites no luxo do Royal Lodge, estávamos prontas para uma mudança de ritmo. Aí fomos para o resort Collines de Niassam, complexo ecológico situado estrategicamente num afluente do Saloum que é especialmente idílico.

Construído por um casal francês há aproximadamente cinco anos, o resort foi projetado para causar impacto mínimo sobre o frágil ecossistema, mas sem economizar em luxo e estilo. Os quartos do resort podem tanto estar incrustados nos baobás como podem ser palafitas sobre o rio ou então bangalôs de barro sobre os montes.

O estilo da decoração em muito deve a Bali, de onde vem boa parte da mobília e de onde foram importados vários tecidos. Mas por aqui a estrela principal é mesmo a paisagem deslumbrante. Cada quarto é projetado para se poder aproveitar ao máximo as vistas arrebatadoras, e nenhuma delas decepciona.

Já que por algumas vezes havíamos nos hospedado em quartos de frente para água corrente, dessa vez optamos por uma casa na árvore. Nós nos preparamos para nossa segunda expedição com barco, dessa vez com Lamine Doudou Diom, que trabalha no resort e que aprendeu sobre a fauna e flora locais com seu pai, que é um curandeiro. Enquanto ele desencalhava nossa piroga de um banco de areia, explicou que manguezais são o domínio das mulheres, que pescam peixes pequenos e coletam moluscos e ostras nas águas plácidas. "O mar é para homens, mas o manguezal é das mulheres", disse nosso novo guia.

A maré estava muito baixa, e as raízes nodosas dos manguezais ficaram expostas, com os galhos incrustados com ostras e minúsculos mexilhões. A Diom se agarrou num dos galhos e o arrancou, trazendo a bordo um tesouro coberto de algas. Aí o capitão do barco arrematou para um lugar distante e nós fomos para uma praia escondida, onde Diom armou uma fogueira para preparar as ostras na brasa. Algumas delas saíram da concha um tanto marrons e pegajosas, infusas com sabor amadeirado, outras brilhavam com uma sugestão de sabor defumado, cada uma tão fresca e deliciosa quanto a outra. A pilha de conchas vazias de ostras ia subindo, a garrafa de moscatel ia baixando, e logo já era hora de voltar.

No resort, relaxar é o que há de melhor para se fazer, e os espaços internos e ao ar livre são bem propícios para essa finalidade. Discretas cabanas ficam à beira da pequena piscina, e no deck algumas cadeiras e redes estrategicamente colocadas convidam à pacífica contemplação. Mas em vez disso decidimos fazer uma longa caminhada, andando em direção ao oeste e ao crepúsculo. Enquanto o sol mergulhava e o calor do dia ficava mais ameno, os pássaros se assanhavam, borboleteando dos velhos baobás em direção à vítrea superfície aquática. Eu tirei minhas sandálias de dedo e permiti o contato dos meus dedos do pé com esse limo tão primordial. A lama negra se insinuava entre meus dedos do pé, firmando a essência desse encanto, feito de sal, de terra e de céu. Marcelo Godoy

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