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20/03/2007

Atualmente, Angola é o principal assunto no setor de petróleo

The New York Times
Jad Mouawad

Em Viena, Áustria
Angola, que dividiu o palco com os países produtores de petróleo mais poderosos do mundo em sua primeira participação de uma reunião da Opep realizada aqui, na quinta-feira (15/3), é uma candidata improvável para ser a queridinha da indústria mundial de petróleo.

Um país subdesenvolvido e cheio de cicatrizes de guerra que tropeça há décadas devido à sua liderança corrupta, Angola é uma das terras mais pobres no planeta. Mas pergunte atualmente a qualquer executivo de energia e surge outro quadro: um lugar de riquezas imensas, ávido por investidores estrangeiros e entre os três exportadores de petróleo que mais crescem no mundo.

Na capital, Luanda, quartos de hotel custam mais de US$ 200 por noite e são reservados com dois meses de antecedência pelas companhias de petróleo; três vezes por semana, vôos fretados diretos conhecidos como Houston Express transportam funcionários do Texas em ida e volta; em alto-mar, dezenas de campos de petróleo foram descobertos e receberam nomes como Cola e Canela.

Exxon Mobil, Chevron, BP e outras despejaram bilhões em Angola na última década para ter acesso aos recursos de petróleo em alto-mar do país, onde grande parte do petróleo se encontra e o retorno está finalmente aparecendo.

Nos últimos anos, Angola se tornou a fonte que mais cresce de exportações aos Estados Unidos e, juntamente com a Nigéria e países menores do oeste africano, está prestes a se tornar um componente importante da segurança de energia americana.

Em três anos, os países produtores de petróleo no oeste africano serão responsáveis por um de cada três novos barris produzidos mundialmente. Em 2015, a projeção é de que os Estados Unidos importarão um quarto de seu petróleo da África, em comparação aos 15% atuais.

A promessa de Angola vem de uma série de grandes descobertas a cerca de 160 km além da costa, o que aumentou a produção de petróleo do país em dez vezes desde meados dos anos 70, para 1,5 milhão de barris por dia em 2006. No próximo ano, Angola deverá atingir dois milhões de barris e 2,6 milhões de barris até 2011, o equivalente à produção do Kuwait.

Mas Angola se vê na encruzilhada da atual geopolítica de energia. Ela se tornou o mais recente cenário da rivalidade global entre companhias de petróleo ocidentais, russas e chinesas. Neste ano, ela ingressou na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que têm reduzido a oferta global para impedir que os preços caiam abaixo de US$ 50 o barril.

A China identificou este país como uma fonte promissora em sua corrida por fontes de energia, fornecendo bilhões em empréstimos e ajuda para desenvolvimento em troca de tratamento favorável aos seus interesses em petróleo. No ano passado, Angola superou a Arábia Saudita como a maior fornecedora de petróleo para os chineses. O país é atualmente o sexto maior exportador para os Estados Unidos.

O governo angolano parece encorajado pelo novo status como membro do pequeno clube de grandes produtores de petróleo. A decisão de ingressar na Opep surpreendeu os analistas de energia porque ela implica em Angola ter que desacelerar seu crescimento, em um momento em que parece estar atingindo o pote de ouro em petróleo.

Mas as autoridades angolanas não exibiram sinais de contenção quando apareceram em Viena para sua primeira reunião da Opep. "Nós queríamos isto há muito tempo", disse o ministro do petróleo, Desidério da Costa, um antigo tecnocrata que está envolvido no setor de energia do país desde 1976. Manuel Vicente, o presidente da Sonangol, a companhia nacional de petróleo, acrescentou: "Isto significa que agora somos um país exportador de verdade". Executivos ocidentais disseram que o ingresso na Opep dificilmente afetará seus investimentos.

"Angola está em fase de crescimento", disse Christophe de Margerie, executivo-chefe da Total, a gigante francesa de petróleo. "Eles precisam de desenvolvimento. Eles precisam de dinheiro. Eu não vejo motivo para se automutilarem."

As companhias de energia apostam alto na noção de que Angola, que tem quase duas vezes a área do Texas, possa ser uma das últimas grandes regiões inexploradas do mundo. A ENI da Itália fez uma oferta notável de US$ 902 milhões no ano passado para assegurar o direito de explorar petróleo em alto-mar, na época o valor mais alto já pago por uma companhia de petróleo.

"Na época parecia loucura", disse o executivo-chefe da ENI, Paolo Scaroni. "Mas na verdade nós sentíamos que não era loucura. Há grandes depósitos em Angola. É uma área da África onde a produção só pode crescer e queremos ter participação em tal crescimento."

Após a oferta da ENI, a Sinopec, a estatal chinesa, e a Sonangol fizeram uma oferta conjunta de US$ 2,2 bilhões por dois outros blocos em alto-mar. Apesar das companhias de petróleo falarem sobre quão receptivo o governo é aos investidores estrangeiros, elas são muito mais circunspetas quando se trata da falta de transparência do governo ou do histórico de corrupção entre seus líderes.

Não há garantia de que os produtores africanos serão fornecedores mais estáveis do que muitos do Oriente Médio. Considere a Nigéria, onde um quarto da produção, ou cerca de 600 mil barris por dia, foi cortada por quase dois anos devido à violência na região produtora de petróleo do Delta do Níger. A violência deriva de anos de negligência, má administração e corrupção por parte tanto das autoridades nacionais e regionais na Nigéria quanto pelas companhias de petróleo.

Para os consumidores, depender de tais partes voláteis do mundo onde as instituições democráticas são fracas e a supervisão da receita do petróleo é limitada pode significar problemas. Na próxima década, 70% da produção mundial de petróleo estará concentrada em 15 países, em comparação aos 55% atuais, segundo a Cambridge Energy Research Associates. E Ian Bremmer do Eurasia Group, uma consultoria de risco político de Nova York, disse: "As fontes de energia virão cada vez mais de regiões cada vez mais instáveis do mundo".

O Golfo da Guiné possui algumas das maiores reservas mundiais de petróleo não exploradas. De 1995 a 2005, a oeste da África foi responsável por 5% de todos os poços perfurados no mundo, mas 21% das descobertas. Metade delas ocorreu em Angola. A nova importância da África levou recentemente à criação de um Comando da África pelo Pentágono. "É uma boa história para os consumidores", disse George L. Kirkland, um alto executivo da Chevron. "Quanto maior a diversidade, menor o risco - não apenas político, mas também técnico e comercial."

Angola conta com cerca de 11,4 bilhões de barris de reservas comprovadas, segundo a Wood Mackenzie, uma firma de consultoria de energia de Edimburgo - quase o mesmo que o Brasil ou a Argélia, dois produtores de médio porte, apesar de dispor de muito menos reservas do que a região do Golfo Pérsico. Mas é mais que suficiente para grandes projetos.

A Total fez mais de 15 descobertas de petróleo no Bloco 17 de Angola, a cerca de 160 km da costa desde que começou a perfurar lá nos anos 90. Desde 2001, ela produz 250 mil barris por dia em um campo do Bloco 17 chamado Girassol e planeja aumentar sua produção para 500 mil barris por dia até a metade do ano, com um desenvolvimento de US$ 4 bilhões, chamado Dalia. Mais além, nas águas profundas do Bloco 32, a Total anunciou oito descobertas desde 2003, incluindo três até o momento neste ano - Manjericão, Caril e Salsa.

A Exxon Mobil e suas parceiras produzem mais de 550 mil barris por dia, após terem concluído dois projetos de US$ 7 bilhões em alto-mar, Kizomba A e Kizomba B, no Bloco 15. Em 2008, a empresa planeja inaugurar um terceiro campo, Kizomba C.

E a Chevron, que espera dobrar sua produção no oeste da África nos próximos quatro anos, planeja uma parceria ambiciosa de gás natural liquefeito em Angola com a Sonangol, cujo projeto visa oferecer gás aos Estados Unidos em poucos anos. George El Khouri Andolfato

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