UOL Notícias Internacional
 

20/03/2007

Traçando o caminho do cigarro de sensual a mortal

The New York Times
Dr. Howard Markel*
Para muitos americanos, a dissimulação da indústria do tabaco se tornou um assunto de notoriedade pública durante uma audiência do Congresso em 14 de abril de 1994. Lá, sob o olhar intimidante do deputado Henry A. Waxman, democrata da Califórnia, compareceram os executivos-chefes das sete maiores empresas americanas de tabaco.

Cada executivo ergueu sua mão direita e jurou solenemente dizer toda a verdade sobre seus negócios. Em um depoimento seqüencial, cada um declarou não acreditar que o tabaco era um risco à saúde e que sua empresa não buscou manipular os níveis de nicotina em seus cigarros.

Trinta anos após o famoso relatório do cirurgião-geral (secretário de Estado para a saúde pública) declarando que fumar cigarro era um risco à saúde, os executivos do tabaco, ao que parece, estavam entre os poucos que acreditavam no contrário.

Mas nem sempre foi assim. Allan M. Brandt, um historiador médico em Harvard, insiste que o reconhecimento dos riscos do cigarro resultou de um processo intelectual que tomou grande parte do século 20. Ele descreve esta história fascinante em seu novo livro, "The Cigarette Century: The Rise, Fall and Deadly Persistence of the Product that Defined America" (o século do cigarro: a ascensão, queda e persistência mortal do produto que definiu a América, Basic Books).

Em contraste com o símbolo de morte e doença que é hoje, do início dos anos 1900 aos anos 60 o cigarro foi um ícone cultural de sofisticação, glamour e atração sexual - um produto altamente valorizado para um entre dois americanos.

Muitas campanhas publicitárias dos anos 30 aos anos 50 exaltavam as virtudes saudáveis dos cigarros. Anúncios coloridos em revistas mostravam médicos gentis trajando jalecos brancos e acendendo orgulhosamente um cigarro ou baforando, com slogans como "Mais médicos fumam Camels do que qualquer outro cigarro".

No início do século 20, a oposição aos cigarros assumiu um tom mais moral do que de conscientização de saúde, especialmente para as mulheres que queriam fumar, apesar de já naquela época muitos médicos se mostrarem preocupados com o fato do fumo ser um mal à saúde.

A década de 30 foi um período em que muitos americanos começaram a fumar e em que os efeitos mais significativos à saúde ainda não tinham se desenvolvido. Como resultado, os estudos científicos da época freqüentemente fracassavam em encontrar evidência clara de uma patologia séria e tiveram o efeito perverso de inocentar o cigarro.

Mas os anos pós-Segunda Guerra Mundial foram uma época de grandes avanços no pensamento epidemiológico. Em 1947, Richard Doll e A. Bradford Hill, do Conselho Britânico de Pesquisa Médica, criaram uma técnica sofisticada de estatística para documentar a ligação entre o aumento do número de casos de câncer de pulmão e o aumento do número de fumantes.

O proeminente cirurgião Evarts A. Graham e o estudante de medicina Ernst L. Wynder publicaram em 1950 um artigo que foi um marco, comparando a incidência de câncer de pulmão em seus pacientes fumantes e não-fumantes no Barnes Hospital, em Saint Louis. Eles concluíram que "fumar cigarro por um longo período era pelo menos um fator importante no aumento notável de câncer broncogênico".

Previsivelmente, as empresas de tabaco -e os especialistas que trabalhavam para elas- desdenharam tais e outros estudos como meros argumentos estatísticos em vez de definições de causa.

Brandt, que analisou exaustivamente os memorandos internos das empresas de tabaco e documentos de pesquisa, demonstra amplamente que as grandes empresas sabiam de muitos dos riscos que seus produtos causavam à saúde muito antes do relatório do cirurgião-geral em 1964.

Ele também descreve as campanhas orquestradas de desinformação que estas empresas realizaram por mais de meio século - ofuscando simultaneamente a evidência científica e disseminando a crença de que já que todos sabem de certa forma que cigarros são perigosos à saúde, fumar é basicamente uma questão de responsabilidade e escolha pessoal em vez de uma corporativa.

Nos anos 80, os cientistas estabeleceram o conceito revolucionário de que a nicotina é extremamente viciante. As empresas de tabaco rejeitaram publicamente tais alegações, mesmo enquanto tiravam proveito do potencial viciante do cigarro aumentando rotineiramente sua concentração de nicotina para dificultar que o hábito de fumar fosse abandonado. E seus memorandos de marketing documentam campanhas publicitárias voltados para os mais jovens, buscando fisgar toda uma nova geração de fumantes.

Em 2004, Brandt foi recrutado pelo Departamento de Justiça para servir como seu principal perito para depor no caso federal de extorsão contra as empresas de tabaco e para rebater o grupo barulhento de testemunhas recrutadas pela indústria. Segundo seu próprio depoimento, a maioria dos 29 historiadores que depuseram em prol das grandes empresas de tabaco nem mesmo consultou a pesquisa ou comunicações internas da indústria. Em vez disso, estes especialistas se concentraram basicamente em um pequeno grupo de céticos sobre os riscos dos cigarros durante os anos 50, muitos dos quais tinham ou viriam a ter laços com a indústria do tabaco.

"Eu fiquei atônito com o que os especialistas do tabaco escreveram em seus depoimentos", disse Brandt em uma recente entrevista. "Ao fazerem perguntas limitadas e as responderem com pesquisas limitadas, eles forneceram precisamente o acobertamento que a indústria buscava."

Aparentemente a juíza Gladys Kessler, do Tribunal Distrital Federal do Distrito de Colúmbia, concordou. Em agosto passado, ela concluiu que a indústria do tabaco se envolveu em uma conspiração por 40 anos para enganar os fumantes sobre os riscos do tabaco à saúde. Seu parecer citou o depoimento de Brandt mais de 100 vezes.

Brandt reconhece que há riscos em combinar erudição com a batalha contra a pandemia mortal do fumo, mas ele diz que vê pouca alternativa. "Se um de nós cruzar ocasionalmente a fronteira entre a análise e a defesa da causa, que assim seja", disse. "Há muito em jogo e há muito trabalho a ser feito."

*O dr. Howard Markel é um professor de pediatria, psiquiatria e história da medicina da Universidade de Michigan George El Khouri Andolfato

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