UOL Notícias Internacional
 

21/03/2007

Empresa que desenvolveu o sudoku busca próxima febre

The New York Times
Martin Fackler

em Tóquio
Haverá outra febre de quebra-cabeça após o sudoku?

Talvez o kakuro? Que tal o nurikabe?

Se for o caso, são grandes as chances de que virá de uma empresa japonesa chamada Nikoli, dirigida pelo autoproclamado padrinho do sudoku, Maki Kaji.

Poucos americanos pensariam no Japão como fonte de quebra-cabeças até pouco mais de dois anos atrás, quando o sudoku repentinamente arrebatou a nação, inundando lojas de presentes em aeroportos e até rivalizando em popularidade com as palavras cruzadas. Agora a Nikoli, que publica revistas e livros de quebra-cabeças, é amplamente considerada como a fonte mundial mais prolífica de jogos de raciocínio e lógica.

Ko Sasaki/The New York Times 
Maki Kaji passa os fins de semana apostando em cavalos e pensando em quebra-cabeças

Kaji e a empresa tiveram participação na criação e promoção de mais de meia dúzia de quebra-cabeças que decolaram após o sudoku. Mas Kaji disse que a Nikoli tem pelo menos 250 outros quebra-cabeças como o sudoku, a maioria deles desconhecido fora do Japão.

O segredo da Nikoli, disse Kaji, se encontra em uma espécie de democratização da invenção de quebra-cabeças. A empresa em si não cria de fato muitos jogos novos - um americano inventou uma versão anterior do sudoku, por exemplo. Em vez disso, a Nikoli fornece um fórum para testá-los e aperfeiçoá-los. Cerca de 50 mil leitores de sua revista principal submetem idéias; as mais promissoras então são publicadas pela Nikoli para buscar aprovação e comentários de outros leitores.

Tal processo permite à Nikoli explorar o desejo insaciável dos solucionadores japoneses de quebra-cabeças para ajustá-los e melhorá-los, esforços que seus leitores aplicam aos jogos com a mesma intensidade com que os engenheiros da Toyota tentam superar as montadoras de Detroit. A maioria dos jogos da Nikoli é original, disse Kaji, mas alguns poucos, como o sudoku e o kakuro, são versões melhoradas de jogos mais antigos inventados em outros lugares.

Kaji acredita que o mundo está ávido por mais quebra-cabeças da Nikoli. Ele conta que quando visitou Nova York, em dezembro, os editores o cercaram em busca de novos jogos na esperança de criar a próxima febre. "Eu quero tornar a Nikoli a fonte mundial de quebra-cabeças", disse Kaji, 55 anos, que abandonou a faculdade e passa seus fins de semana apostando em cavalos. "Nós temos muito mais quebra-cabeças de onde veio o sudoku."

Foi um longo caminho desde uma década atrás, quando Kaji disse que editores em Nova York e Londres lhe deram as costas quando primeiro tentou interessá-los no sudoku. Kaji fundou a Nikoli em 1980 com dois amigos, quando percebeu que gostava de jogos de números quase tanto quanto calcular as chances em corridas de cavalos. Ele até mesmo batizou a empresa com o nome de um cavalo que venceu uma corrida em 1980 na Irlanda.

Kaji disse que atualmente está negociando com editoras americanas o lançamento de vários novos quebra-cabeças nos Estados Unidos, incluindo o hashiwokakero e o slitherlink, um jogo popular no Japão onde linhas são ligadas em forma de serpente ao redor de números.

Ele disse que também deseja promover mais fortemente a cerca de meia dúzia de quebra-cabeças da Nikoli que já foram lançados no exterior após o sudoku. O mais conhecido é o kakuro, uma versão matemática de um jogo de palavras cruzadas que usa somas em vez de soletração.

Ainda assim, nenhum dos outros jogos da Nikoli se aproximou da popularidade do sudoku, que é publicado em mais de 600 jornais em 66 países. Ele também é assunto de mais de 200 livros, que já venderam 20 milhões de cópias em todo mundo, segundo os autores do quebra-cabeça e editoras.

Apesar de ninguém saber quanta receita é gerada pelo negócio global de sudoku, a maioria concorda que ele facilmente ultrapassou US$ 250 milhões ao longo dos últimos dois anos, com estimados 80 milhões de jogadores. O "The New York Times" fornece uma variedade de jogos de lógica, incluindo sudoku, kakuro e outros para jornais e sites de Internet em todo mundo.

A Nikoli recebeu apenas uma parcela de tal dinheiro. Kaji disse que sua empresa privada, com apenas 20 funcionários, apresentou vendas anuais de cerca de US$ 4 milhões.

A popularidade do sudoku nos Estados Unidos pegou Kaji de surpresa, de tal forma que não tentou obter a marca registrada até ser tarde demais. Como resultado, a Nikoli não recebe royalties de vendas de sudoku no exterior por outras editoras.

Mas olhando para trás, ele agora acha que o descuido foi um erro brilhante. O fato de ninguém controlar os direitos de propriedade intelectual do sudoku permitiu que a popularidade do jogo crescesse desenfreada, disse Kaji. A Nikoli também não planeja obter a marca registrada de outros jogos novos, na esperança de que isto também os ajude a decolar.

"Esta abertura é mais de acordo com a cultura aberta da Nikoli", disse Kaji, que estava sentado em um sofá em seu escritório em Tóquio, entre almofadas adornadas com desenhos de focinhos de cavalos de corrida. "Nós somos prolíficos porque fazemos isto pelo amor aos jogos, não pelo dinheiro."

Mesmo assim, ele disse que deseja buscar uma fatia maior do mercado mundial de sudoku vendendo livros do quebra-cabeça de autoria da Nikoli. Nos Estados Unidos, a Nikoli co-publica livros de bolso e calendários com sudoku que juntos já venderam mais de um 1 milhão de cópias.

Os editores de jogos dizem que devido à sua simplicidade zen, o sudoku será algo difícil de igualar. Mas eles dizem que se alguém inventar a próxima febre, provavelmente será a Nikoli. "Ninguém é tão inventivo quanto a Nikoli", disse Andrew Stuart, co-autor e colaborador em mais de 20 livros sobre jogos de lógica, incluindo "Extreme Sudoku for Dummies". "Se o sudoku tiver um sucessor, ele virá de lá."

Ou mais precisamente de leitores da Nikoli como Nobuyuki Sakamoto. Um programador de software de 30 anos com Ph.D. em matemática, Sakamoto disse que a revista da Nikoli o inspirou a começar a inventar jogos matemáticos como um hobby no colegial.

De lá para cá, ele já contribuiu com mais de 15 idéias de quebra-cabeças para a Nikoli, incluindo um recente, sonhado enquanto olhava para linhas de trem em um mapa do metrô de Tóquio. "A Nikoli criou uma subcultura de quebra-cabeça envolvendo os leitores", disse Sakamoto.

Estes leitores oferecem para a revista trimestral da Nikoli até 10 idéias para novos quebra-cabeças em cada edição, que são publicados acompanhados dos nomes de seus criadores. A Nikoli mantém aqueles que são recebidos positivamente por outros leitores, o que resulta em 15 a 20 quebra-cabeças novos a cada ano, disse Kaji.

A Nikoli também publica uma revista apenas de sudoku, juntamente com vários outros livros de quebra-cabeças a cada ano.

Matemáticos e fãs de quebra-cabeças dizem que a criatividade incomum da Nikoli e seus leitores japoneses têm profundas raízes históricas e culturais. Jogos de números são um entretenimento popular aqui há séculos por causa das escolas que tradicionalmente estimulam o aprendizado de matemática. O primeiro livro de tais jogos surgiu em 1634, disse Tsuneharu Okabe, vice-presidente da Sociedade de Matemática do Japão.

Ao mesmo tempo, disse Okabe, palavras cruzadas e outros jogos de palavras fracassaram em emplacar no Japão por causa da complexidade da língua, que possui três sistemas de escrita que são usados simultaneamente. O sudoku tem suas origens em um jogo chamado Number Place que apareceu pela primeira vez na revista americana de quebra-cabeças "Dell Pencil Puzzles and Word Games", em 1979. Kaji disse que o jogo original era complexo demais até que os leitores da Nikoli chegaram a uma versão mais envolvente, na qual cada número se torna uma pista para descobrir o próximo, prendendo a atenção dos jogadores.

Kaji publicou pela primeira vez a versão modificada em 1984 e lhe deu o nome de sudoku, que significa "números solteiros" em japonês, em referência ao uso pelo jogo de apenas números de um único dígito.

Treze anos depois, Wayne Gould, um neozelandês e juiz aposentado de Hong Kong, descobriu o jogo em uma livraria de Tóquio. O sudoku decolou no Ocidente depois que Gould, que agora dirige sua própria editora de quebra-cabeças sudoku, persuadiu o "Times" de Londres a publicá-lo em 2004. No ano seguinte ele se disseminou pelos Estados Unidos, onde foi primeiro publicado pelo "The New York Post".

Gould disse que espera que o mercado mundial para jogos de lógica continuará crescendo. "Estes quebra-cabeças podem se espalhar por vários países", disse Gould, "porque não há restrições culturais ou de linguagem para bloqueá-los". George El Khouri Andolfato

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