UOL Notícias Internacional
 

21/03/2007

Inspetores de saúde observam: roedores podem ser uma iguaria

The New York Times
Simon Romero

Em San Fernando de Apure, Venezuela
Enquanto caía a noite nos pântanos tropicais cheios de iguanas e pequenos jacarés caimãos, Jose Ismael Jimenez apontava seu arpão para um roedor do tamanho de um Labrador. Com uma pontaria que vem com anos de prática, sua lança aterrissou na cabeça da presa. Mas ele não estava caçando para acabar com as pragas das planícies do Sul do país. Era o jantar.

O único objetivo do caçador era a carne da capivara, o maior roedor do mundo. Diferentemente de outros países da América do Sul, inclusive Argentina e Brasil, onde as capivaras são criadas apenas pelo couro, aqui a carne do roedor é uma iguaria muito apreciada, atingindo preços quase duas vezes superiores ao da carne de boi.

"Este trabalho é mais difícil que o gado", disse Jimenez em uma caça noturna por capivaras em Hato Santa Luisa, uma fazenda de mais de 160 km quadrados nas planícies da Venezuela. "Mas é igualmente recompensador."

Jimenez, um "llanero", como são conhecidos os caubóis das planícies desta parte da Venezuela, e sete outros caçadores armados com rifles de calibre 22 e lanças de aço, mataram 18 capivaras em sua caçada. Eles abriram os animais imediatamente, deixando as entranhas para dezenas de urubus que sobrevoavam o local.

A caçada anual acontece antes da Páscoa, quando a capivara tem posição na Venezuela similar à do peru durante o Dia de Ação de Graças. Como a Igreja Católica Romana geralmente proíbe o consumo da carne durante certos dias da quaresma, muitos venezuelanos insistem que a capivara é mais similar ao peixe do que ao boi.

Isso pode ter algo a ver com o gosto da capivara salgada, que parece uma mistura de sardinha com porco. Segundo a lenda, o consumo da capivara, chamada de "chiguire" aqui, recebeu um impulso no século 18, quando o clero local pediu ao Vaticano para dar status de peixe à carne do animal.

As afirmativas dos cientistas de que a capivara não é nem peixe nem ave não prejudicou sua popularidade na Venezuela. De fato, a carne é tão cobiçada durante o ano que os caçadores quase aniquilaram a população do roedor selvagem do país, até que as autoridades limitaram a caça a quantidades controladas em terras privadas.

"Nos EUA, estamos condicionados pobremente a pensar em roedores como ratos em esgotos e coisas assim", disse Rexford D. Lord, especialista em capivara da Universidade Indiana na Pensilvânia, cujo livro "Mammals of South America" (mamíferos da América do Sul), que fala da capivara, foi publicado neste ano pela Johns Hopkins University Press. "De fato, a carne da capivara é deliciosa, mais parecida com coelho do que com galinha, apesar de ter um sabor de peixe quando está seca e salgada na Venezuela", disse Lord em entrevista telefônica.

Os fãs da capivara incluem o presidente Hugo Chávez, que foi criado em Barinas, um Estado nas planícies úmidas da Venezuela onde as capivaras são comuns. Em seu programa de televisão, "Alô, Presidente", Chávez falou sobre o prazer de comer empanadas de capivara com um copo de suco de mamão.

O consumo de roedores não é incomum. Em Louisiana, a nútria, que parece uma pequena capivara -mas com rabo- chega às mesas de jantar. Testemunhe, por exemplo, o prazer com o qual se come no Equador e no Peru o porquinho-da-Índia. Em Caracas, os cozinheiros tentaram elevar a capivara à alta cozinha, preparando macarrões e saladas elaboradas com sua carne.

Não importa que as capivaras tenham alguns hábitos estranhos, como comer suas próprias fezes. Além disso, os cozinheiros admitem que os métodos usados para matar as capivaras, normalmente envolvendo uma marretada na cabeça, não são atraentes para alguns.

"Não estamos pedindo que as capivaras sejam mortas ao som de Vivaldi, mas algo poderia ser feito para tornar a prática menos brutal", disse Victor Moreno, cozinheiro chefe do Centro de Estudos Gastronômicos, uma escola de cozinha de Caracas. "É uma carne especial, que merece posição proeminente em nossa tradição culinária."

A iguaria continua mais popular no interior rural da Venezuela do que na capital. Apesar de encontrada do Panamá até a Argentina, os biólogos estimam que não haja mais do que algumas centenas de milhares de animais na Venezuela. A maior parte das capivaras está em grandes fazendas, onde cercas e guardas armados impediram a caça ilícita.

"É mais fácil roubar uma capivara do que uma vaca, então há casos em algumas fazendas", disse Reynaldo Alvarado, 46, responsável pela caça de capivara em Hato Santa Luisa, que lida principalmente com gado zebu e brahman. Ainda assim, disse ele, algumas capivaras podem pesar até 65 kg e medir 1,2 metros. "Essas são muito especiais", disse Alvarado.

As autoridades adiaram a concessão de licenças para a caça deste ano, estreitando o tempo disponível de um mês para 20 dias. Então a caça, geralmente um assunto apressado, foi ainda mais frenética neste ano. Como outras fazendas, a Hato Santa Luisa recebeu permissão de matar 20% de sua população de capivaras, ou cerca de 1.400 roedores.

A fazenda paga aos caçadores 17,000 bolívares por dia, cerca de R$ 16. A maior parte deles é mão de obra parada na fazenda, mas também há soldados. Eles usam camisetas velhas, calças cortadas, chapéus caindo e bonés rasgados.

Levados aos pântanos da fazenda ao pôr-do-sol por um trator John Deere, os caçadores usam lanternas para achar suas presas. Eles dizem que as capivaras fogem menos à noite. Apesar de o método preferido para caçá-las ser um pequeno rifle, algumas vezes isso não funciona, quando as capivaras, semi-aquáticas por natureza, escapam para os lagos ou riachos lamacentos.

Por isso os arpões de aço, que exigem melhor pontaria. A caça também impõe algum risco para os caçadores: piranhas e pequenos caimãos nadam nas mesmas águas que os roedores desejados. E capivaras adultas podem morder quando são ameaçadas, apesar de dóceis quando jovens.

"A perseguição é muito difícil", disse Abel Vargas, 42, caçador com lança que tinha uma máscara para mergulhar atrás das capivaras. Vargas disse que gostava especialmente do rim da capivara.

E rins são questão de gosto? "Não", disse ele. "De fome."

Ainda há muita sensibilidade na Venezuela em relação à caça ou ao consumo da capivara. Ativistas de direitos dos animais se concentraram mais em combater o "coleo", um tipo de rodeio no qual os participantes a cavalo tentam derrubar vacas puxando pelo rabo, freqüentemente ferindo os animais no processo.

De fato, algumas organizações independentes vêem as capivaras como oportunidade de desenvolvimento sustentável em partes do país. A Fudeci, uma fundação de ciências em Caracas, está pesquisando formas para a Guajiba, uma tribo amazonense no Sul da Venezuela, criar capivaras em suas terras.

"É um animal tropical de pouca gordura, e é orgânico, sem antibióticos", disse Omar Hernandez, diretor da Fudeci. "A capivara é um produto com um brilhante futuro a sua frente." Deborah Weinberg

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