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23/03/2007

Em meio a antigas tumbas egípcias, um impasse moderno quanto à questão da moradia

The New York Times
Michael Slackman*

Em Gurna, Egito
As autoridades egípcias expulsaram centenas de pessoas desta vila no sul do Egito porque as suas casas de tijolos, que ficaram durante séculos sobre as tumbas mais admiradas e antigas do mundo, deixavam vazar esgoto sobre as antiguidades inestimáveis.

As famílias foram transferidas para uma versão egípcia de Levittown, dotada de água encanada e telefones, uma nova cidade perto do local antigo. Mas 80 famílias estão resistindo, dizendo que querem receber mais de um governo que até o momento relutou em usar a força bruta.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Próximo do Vale dos Reis, ruínas de algumas das casas que foram desocupadas em Gurna

O impasse de Gurna, próxima do famoso Vale dos Reis, exemplifica os desafios enfrentados por um governo autoritário que durante décadas impôs a sua vontade ao povo, mantendo-o pobre, mas alimentado, sub-empregado, mas ainda assim empregado, e que agora procura ajustar o contrato social sem gerar uma convulsão generalizada. O governo impôs novamente uma solução - solução esta que modificará o modo de vida de centenas de famílias -, mas está negociando com aqueles que permaneceram até encontrar termos que sejam aceitáveis, ou pelo menos aceitos.

Os analistas políticos afirmam que a dinâmica aqui é similar ao que ocorre em todo o Egito no momento em que o governo tenta transformar uma economia centralizada. Nos últimos meses milhares de trabalhadores nas inchadas fábricas estatais ensaiaram greves de forma insegura, temendo que as privatizações acabem com os seus empregos e exigindo aumentos salariais.

Desde setembro houve dezenas de protestos vinculados às demandas econômicas. Em cada caso, o governo evitou as táticas truculentas que usa para silenciar a oposição política.

"O Estado disse aos cidadãos que esperassem tudo dele", explica Nawal Hassan, sociólogo que trabalhou durante anos junto ao povo de Gurna, referindo-se às promessas de educação gratuita, alimentação barata e garantia de emprego. "A economia era centralizada e as atividades controladas, e era o governo que fornecia ao povo aquilo que este necessitava. Agora não dá para dizer à população: 'Mantenham aquela mentalidade e se virem por conta própria'".

Em Gurna - que está situada sobre as tumbas dos Nobres entre o Vale dos Reis e o Vale das Rainhas, com as suas tumbas de cerca de 3.500 anos de idade -, grande parte da paisagem tradicional formada pelo kitsch turístico e a vida de aldeia foi reduzida a pilhas de escombros de tijolos de barro.

As autoridades egípcias dizem que concluirão a tarefa em Gurna porque a ciência e a decência estão do seu lado. Eles estão preservando antiguidades inestimáveis e transladando os moradores para uma comunidade que conta com água encanada, algo que eles não tinham em Gurna. As autoridades reclamam de que os moradores que resistem à mudança querem extorquir o governo. Segundo o plano, todo homem casado recebe uma casa de dois quartos naquela que é conhecida como Nova Gurna. Mas os moradores que resistem à mudança exigem uma casa para cada filho.

"Cada chefe de família está pedindo uma casa para si e uma para cada filho", diz Sabry Abdel Aziz, diretor do Setor de Antiguidades Egípcias. "Não estamos distribuindo milhões neste processo. O problema aqui é a ganância".

O governo pensou em fazer com que os moradores pagassem mensalidades muito baixas pelas novas moradias. Mas as autoridades acabaram decidindo doar as casas, como parte de um amplo esforço para manter a paz. "O presidente diz que não é permitido remover ninguém sem fornecer ao indivíduo uma alternativa com a qual ele concorde", diz Muhammad Tayeb, diretor do conselho local para o governo de Luxor. "Isso é impossível. É desumano expulsar as pessoas".

Ibrahim afirma que a estratégia do presidente Hosni Mubarak de tentar cooptar, em vez de confrontar, tem as suas raízes em dois grandes conflitos que sacudiram o país - um em 1977, quando o presidente Anwar el-Sadat tomou medidas para reduzir os subsídios ao pão e outros produtos, e o segundo em 1986, quando policiais se rebelaram devido a boatos de que o período de serviço compulsório na polícia seria aumentado de três para quatro anos. Dezenas de pessoas morreram durante os protestos dos policiais.

A lição aprendida foi que as pessoas podem não sair às ruas em grande número para pedir democracia, mas elas são capazes de criar problemas quanto a questões menores.

Em Gurna, qualquer sinal de distúrbio civil poderia prejudicar um grande centro da essencial indústria turística egípcia em Luxor, de forma que o governo agiu de forma mais gentil.

Gurna fica na entrada das famosas tumbas entalhadas a mão nas profundezas do solo do deserto, incluindo a de tumba de Tutankhamon. Casas de tijolos de dois e três andares se espalham pelas colinas repletas de becos que conduzem até o Novo Reino. Conta-se que a população daqui saqueou as tumbas e, quando a renda proveniente do subterrâneo secou, o povo se voltou para os turistas. Os moradores montaram quiosques onde eram vendidos artesanatos decorados com figuras caricaturais dos tempos dos faraós. Gurna era uma espécie de viagem no tempo e parque de diversões em um só conjunto.

A cidade, que fica mais de 1.100 quilômetros ao sul do Cairo, era o local perfeito para pessoas que ganham a vida com turismo ou agricultura. A maior reclamação quanto à mudança forçada é que esta acabará com o ganha-pão das pessoas. Para ajudar a solucionar esse problema, o governo construiu aquilo que chamou de um shopping-center para turistas. O prédio parece um grande armazém, com portões metálicos em frente a cubículos de um único aposento. O lugar está abandonado, e o portão frontal empenado é mantido fechado com grandes pedras.

Salah Muhammad Omar, 28, passou a vida inteira nestas colinas, correndo atrás dos turistas quando era criança, e depois vendendo aos visitantes estátuas de cerâmica que fazia com moldes em casa. Ele a e mulher, Howeida, moram em uma casa de dois quartos, da qual observam os funcionários do governo demolindo as residências vizinhas. Todos os seus bens estão empacotados em caixas que foram colocadas sobre uma única cama de solteiro. Eles garantem que só se mudarão quando receberem sete apartamentos - mas o governo só lhes oferece um. "Se ficarmos aqui será muito melhor", diz Omar. "Os turistas tiram fotos nossas e nos dão dinheiro".

No sopé da colina, ao longo de uma estrada pela qual circulam ônibus turísticos com ar-condicionado, Tayeh Muhammad Hassan, 67, e os seus quatro filhos adultos estão furiosos porque, segundo afirmam, os seus direitos têm sido violados. Eles contam que lhes foi oferecida apenas uma casa, e que o governo lhes disse que poderiam construir andares adicionais à medida que os filhos fossem se casando.

Mas Ahmed Hassan, 36, reconhece que não se trata apenas daquilo que a família enxerga como os seus direitos. Eles querem um preço melhor. "Se alguém quiser que eu me mude da minha casa, terá que me dar algo melhor", afirma Hassan.

*Nada Bakri, em Beirute, contribuiu para esta matéria UOL

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