UOL Notícias Internacional
 

23/03/2007

Escondida em plena vista, poligamia acompanha imigrantes da África

The New York Times
Nina Bernstein
Ela trabalhava no Red Lobster em Times Square e vivia com seu marido perto do Yankee Stadium. Mas certa noite, ao voltar para casa de seu trabalho, Odine D. descobriu que o costume africano, e não a lei americana, prevaleceu em seu casamento. Uma mulher estranha estava sentada na sala de estar e o marido de D., um segurança nascido em Gana, a apresentou como sendo sua outra esposa.

Transtornada, D., uma imigrante guineana que insistiu que seu sobrenome não fosse revelado, disse que protestou: "Eu não posso viver com a mulher na minha casa - nós só temos dois quartos". O marido dela citou preceitos islâmicos que permitem que um homem tenha até quatro esposas e lhe disse para se acostumar com aquilo. E ela tentou obedecer.

A poligamia nos Estados Unidos, proibida em todo Estado, mas raramente processada, há muito está associada a subgrupos de mórmons no Oeste, mas não a imigrantes em Nova York. Mas um incêndio fatal em uma casa no Bronx, em 7 de março, revelou sua presença aqui, em um mundo muito diferente do cenário suburbano de Utah de "Big Love", uma série da HBO sobre polígamos.

O pesar da cidade pelos mortos -uma mulher e nove crianças em duas famílias de Mali- foi seguido pela surpresa abafada diante do arranjo doméstico descrito por parentes: Moussa Magassa, um cidadão americano nascido em Mali que era dono da casa e pai de cinco das crianças que faleceram, tinha duas esposas em casa, em andares diferentes. Ambas sobreviveram.

Ninguém sabe qual é a incidência de poligamia em Nova York. Aqueles que a praticam têm motivos para mantê-la em segredo: segundo a lei de imigração, poligamia serve como motivo para deportação dos Estados Unidos. Segundo a lei estadual, a bigamia pode ser punida com até quatro anos de prisão.

Nenhuma agência coleta dados sobre uniões polígamas, que geralmente levam tempo para serem formadas, freqüentemente com cerimônias religiosas no exterior e visto de turista para a esposa, arranjado por outros parentes. Alguns homens têm uma esposa nos Estados Unidos e outras no exterior.

Mas os Magassas claramente não são um caso isolado. Aumentou a imigração para Nova York e outras cidades americanas de lugares onde a poligamia é legal e disseminada - especialmente de países do oeste africano como Mali, onde pesquisas demográficas mostram que 43% das mulheres estão em casamentos polígamos.

E o quadro que surge de dezenas de entrevistas com imigrantes africanos, autoridades e estudiosos da poligamia é a de uma prática clandestina que provavelmente envolve milhares de nova-iorquinos.

"É difícil, mas é preciso aceitar que se deve à nossa religião", disse Doussou Traore, 52 anos, a presidente de uma associação de mulheres malinesas em Nova York, que se casou com um homem mais velho com duas outras esposas que permaneceram em Mali. "Nossas mães aceitaram. Nossas avós aceitaram. Por não aceitaríamos?"

Outras mulheres falaram amargamente da poligamia. Elas disseram que sua participação foi ditada por uma cultura africana de subjugação da mulher e associaram a poligamia à mutilação genital feminina e à violência doméstica. Tal ponto de vista é apoiado pela maioria das pesquisas sobre casamentos polígamos, incluindo estudos de imigrantes do oeste da África na França, onde o governo estima que 120 mil pessoas vivem em 20 mil famílias polígamas.

"A mulher é na prática uma escrava do homem", disse uma empresária guineana na faixa dos 40 anos, assim como muitas mulheres entrevistadas no Harlem e no Bronx, que falaram sob a condição de anonimato. "Se você protesta, seu marido baterá em você, e se você chamar a polícia, ele se divorciará de você e toda a comunidade lhe desprezará."

"Mesmo eu", ela acrescentou. "Meu marido foi procurar outra esposa na África e ele tem o direito de fazer isto. Eles não falam nada, até que certa tarde lhe dizem: 'Ok, sua co-esposa chegará hoje à noite'."

Os homens, por sua vez, tendem a minimizar a existência da poligamia, isto se estiverem dispostos a discuti-la. O Islã é freqüentemente citado como a autoridade que permite a poligamia. Mas na África, a prática é uma tradição cultural que cruza divisões religiosas, enquanto alguns territórios muçulmanos em outras regiões restringem severamente a prática. O Alcorão diz que um homem não deve tomar mais de uma esposa se não for capaz de tratá-las igualmente - um padrão bem alto, dizem muitos muçulmanos.

Mas Traore, do grupo de mulheres malinesas, citou dois lares prósperos em Bergen County, Nova Jersey, que parecem passar no teste. "Elas se dão muito bem", ela disse sobre as esposas em um lar, que se casaram ao mesmo tempo com seu marido na África. "É extraordinário. Quando elas vêm às nossas celebrações, elas se vestem igual, a mesma roupa, as mesmas jóias. O marido é completamente justo."

Tais histórias de poligamia, ao estilo Nova York, costumam ser compartilhadas por mulheres apenas em conversas sussurradas em lavanderias e salões de beleza. Sem status legal de imigração e sem direito de asilo por poligamia, muitas temem expor seus maridos à prisão ou deportação, o que poderia desonrar e empobrecer suas famílias aqui e na África.

Mas Aminata Kante, uma imigrante da Costa do Marfim que encontrou ajuda para si mesma e para D. na Sanctuary for Families, uma agência para mulheres vítimas de violência, usa sua própria história para incitar a rebelião.

Kante, que aos 15 anos se casou na Costa do Marfim por telefone com um taxista de Nova York, a 9.600 km de distância, foi entregue ao seu noivo com um passaporte falso. Ela disse que suportou os abusos dele por anos, criou três filhos, lhe entregava seu salário como auxiliar de saúde e tentou arduamente dissuadi-lo quando ele enviou dois dos filhos para a África.

Mas algo ocorreu quando ele anunciou que tinha arrumado uma segunda esposa adolescente, que também se casou por telefone - um casamento válido na Costa do Marfim. Kante o deixou. Os parentes a pressionaram a voltar. Tios alertaram que ela seria rotulada de mulher ruim e que tal estigma perseguiria seus filhos na África. Sem documentos, vulnerável à deportação, ela acabou em um abrigo para moradores de rua.

Agora, aos 30 anos, ela conta sua história sob a luz de sua própria sala de estar, com seus filhos de volta para ela e com um "green card" (o visto de residência permanente) garantido, por meio de esforços legais incomuns dos advogados da Sanctuary.

"Eu conheço uma senhora que vive com seu marido, outra mulher e 11 filhos em uma sala e dois quartos", ela disse. "Eu digo a ela para se mudar - aquilo não é vida."

E seu marido? Sua segunda esposa tem atualmente 23 anos e três filhos. Há poucas semanas, disse Kante, ele se casou com uma terceira. George El Khouri Andolfato

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