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26/03/2007

Naomi Campbell prova que a beleza dita as suas próprias regras

The New York Times
Guy Trebay, em Nova York
The New York Times
Foi mais ou menos quando Naomi Campbell quis arrancar os meus olhos com as unhas (pelo menos assim fui informado por uma revista de fofocas) que ficou claro para mim que ela não era uma modelo comum. Isso ocorreu em 1996, e eu havia escrito um artigo para a "New York Times Magazine" a respeito da modelo nascida na Inglaterra, de ascendência jamaicana e chinesa, enumerando as suas excentricidades e narrando algumas das aparentemente inumeráveis histórias sobre o comportamento maluco dessa jovem maravilhosa, magnética e quase que patologicamente petulante, que tem problemas para administrar a sua raiva.

EFE 
Seria difícil encontrar alguém que fosse, mais do que Naomi, uma criação genuína da moda


Àquela época, Campbell ainda não tinha começado a arremessar rotineiramente aparelhos telefônicos e tampouco a cumprir penas de cinco dias varrendo o depósito de um Departamento de Saneamento devido aos seus delitos, conforme aconteceu na semana passada. Mas um colunista da revista "Vanity Fair" já havia chamado-a de "a maior transviada do setor da moda", e ela foi despedida de uma agência sob a alegação de que "nenhum dinheiro ou prestígio poderia justificar ainda mais o abuso" a que foram submetidos a sua equipe e clientes, e que ela havia sido informada de que a agência jamais voltaria a contratá-la, mesmo que Naomi fosse "a última modelo no planeta".

É claro que eles voltaram a contratá-la, apenas seis meses depois. E dez anos depois o motivo para isso é óbvio. A tempestuosa Naomi Campbell pode muito bem ser instável, voluntariosa (ela certa vez recusou iradamente um sanduíche especial pedido em um restaurante francês de quatro estrelas, aparentemente porque a crosta do pão estava arranhando as suas gengivas), ostentosa e, evidentemente, imune a algumas lições de civilidade bastante básicas.

Mas existe algo mais a respeito de Campbell que passa desapercebido e que está claramente no centro do seu fascínio duradouro. Ao contrário da maioria das modelos (um nome inapropriado para a profissão, se é que há um nome apropriado para esta atividade), ela tem um vínculo nítido com as famosas beldades das eras, tipos exuberantes como Georgina Cavendish, a sedutora, perdulária e viciada em jogatina Duquesa de Devonshire, do século 18; ou Lady Diana Cooper, a atriz e mulher do diplomata Duff Cooper, famosa pelas suas porcelanas sofisticadas e pelos seu vício em componentes de morfina e em homens; ou a atriz de cinema Louise Brooks, que tinha convicção de que uma mulher seria uma idiota caso não tirasse proveito das vantagens genéticas que obteve por obra do destino.

E foi por isso que foi tão divertido observar na semana passada Campbell pagando a sua dívida para com a sociedade, comparecendo todos os dias para prestar serviços à comunidade usando casacos de pele, botas, chapéus, bolsas e óculos variados, além de exibir penteados modificados constantemente pelo seu cabeleireiro de vários anos, Amoy Pitters, para as suas aparições públicas.

É claro que houve muita opinião de cunho moralista na imprensa, especialmente quando colunas de fofocas divulgaram o boato de que a MTV estaria filmando um reality show sobre ela (isso não é verdade, segundo o agente publicitário de Campbell, Jeff Raymond) e que o fotógrafo de moda Steven Klein também estaria fazendo um trabalho fotográfico sobre a experiência da modelo para a revista "W" ("Eles são amigos, e trabalham juntos em vários projetos", disse Raymond. "Steven tem fotografado Campbell, mas não se sabe no que isso resultará").

Nada disso foi muito convincente porque, é claro, as pessoas gostam falar de mal de quem está no pico da moda. E parece que sempre foi assim. "Os mais bem vestidos de todas as épocas sempre foram os piores homens e mulheres", afirma um texto de 1859 chamado "The Habits of Society" ("Os Hábitos da Sociedade"), citado no livro de 2002 de Joseph Epstein, "Snobbery"
("Esnobismo").

Seria difícil encontrar alguém que fosse, mais do que Naomi Campbell, uma criação genuína da moda, que cresceu nesse setor e que ganha a vida com a sua aparência desde os 21 anos, desde que estreou em um vídeo para uma banda criada por Boy George, um outro exibicionista que desde então sumiu, varrido do cenário pelos seus atos impróprios.

Não apareceu ninguém para carregar a bolsa de Boy George quando ele surgiu para prestar contas. E, se ele exibiu uma aparência terrível - gordo, careca, patético e perdido -, Campbell não só transmitiu a sensação de que toda essa história de prestação de serviços à comunidade foi idéia sua, como também a de que o show não pára quando se sai da passarela. O glamour é algo para a vida toda.

"Ela é como uma pessoa dos sonhos", diz a estilista Anna Sui, cuja relação de trabalho com a modelo já dura mais de uma década. "Alguns acham que a sua personalidade é mágica, porque ela parece encarnar tudo aquilo que uma pessoa glamourosa deveria ser, alguém que conhece todo mundo, que conquista os aplausos mais altos quando passa por uma porta".

Naturalmente a pessoa teria uma opinião diferente caso Campbell tivesse arremessado um telefone contra a sua cabeça ou protagonizado uma das suas lendárias explosões de raiva, ocasiões em que a voz de bebê da modelo se transforma no ronco demoníaco comparável ao da personagem do filme "O Exorcista".

Você poderá não achá-la assim tão encantadora caso tenha tido que esperar por ela sentado durante oito horas em um estúdio fotográfico. E a pessoa não tem que ficar necessariamente seduzida pelos charmes da mulher que já foi chamada de uma Brigitte Bardot branca, ou de uma Marilyn Monroe africana, ou uma Josephine Baker da nossa era. Mas em tal caso você seria parte de uma minoria.

"A verdade é que Naomi realmente representa a moda", diz Bethann Hardison, que já foi modelo e agente, e que durante anos atuou como conselheira de Campbell. Na verdade, Campbell representa algo mais potente que isso, tendo uma qualidade que nunca parece sair de moda. Ela tem coragem. Uma coragem que é característica exclusiva de pessoas cujas moléculas têm um arranjo tão perfeito quanto as de Campbell. A beleza funciona segundo as suas próprias regras. Todos sabem disso.

E é por isso que, quando muita gente poderia, como observou Hardison, "correr, se esconder e colocar o rabo entre as pernas caso fosse vaiada" e sofresse uma grande humilhação pública, Campbell seguiu uma outra rota, "passando a mão nos ombros e caminhando com estilo". UOL

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