UOL Notícias Internacional
 

27/03/2007

Dama de ferro luta por sua "casa prego"

The New York Times
Howard W. French

Em Chongqing, China
Por semanas o confronto chamou a atenção das pessoas por toda a China como sendo o de uma simples proprietária de imóvel desconcertando as forças do 'redesenvolvimento' em grande escala que estão varrendo este país, bloqueando os preparativos para uma área de construção gigantesca com simples força de vontade.

Ariana Lindquist/The New York Times 
A casa de Wu Ping resiste à construção de um prédio, mas ela já não tem acesso ao imóvel

Blogueiros chineses foram os primeiros a espalhar a notícia de uma casa empoleirada no topo de um pedaço elevado de terra, em forma de dedal, como o Mont-Saint-Michel no norte da França, no meio de uma vasta escavação.

Os jornais vieram em seguida, seguidos pela televisão nacional. Então, de uma forma que é comum na China sempre que um evento começa a adquirir tons políticos, a história virtualmente desapareceu da imprensa após o governo, disseram os blogueiros daqui, ter decretado repentinamente que o assunto estava fora dos limites.

Ainda assim, a "casa prego", como muitos aqui a chamaram devido à tenacidade de sua proprietária - como um prego que não pode ser arrancado - permanece o assunto mais popular no momento entre os blogueiros chineses.

Ele tem ressonância universal em um país onde empreendedores imobiliários ricos são vistos como mancomunados com os políticos, com ambos desfrutando de controle incontestado. Anualmente a China é perturbada por dezenas de milhares de protestos e tumultos, mas poucos contam com tanta força emocional quanto o descontentamento das pessoas que são repentinamente despejadas de seus lares, avisadas de que devem abrir caminho para um novo arranha-céu, campo de golfe ou zona industrial.

O que atrai interesse no caso de Chongqing é a capacidade notável da proprietária de resistir por tanto tempo. São muitas na China as histórias de prisões ou mesmo espancamento de pessoas que protestam vigorosamente contra seu despejo e relocação. Como ocorre com freqüência, aqueles que resistem são convocados até o posto policial local e voltam para casa apenas para descobrir que ela já foi demolida. Milhões se perguntam: como esta proprietária, ainda mais uma mulher, conseguiu?

Parte da resposta, que basta apenas um momento para se descobrir em um encontro com ela, é que Wu Ping está longe de ser uma mulher comum. Com seu cabelo precisamente penteado e preso na nuca, um casaco vermelho que valoriza as formas, malares altos e olhos grandes e brilhantes, a dona de restaurante de 49 anos sabe como chamar a atenção - uma arma potente na nova era de mídia da China, na qual as pessoas influenciam a opinião pública.

"Há mais de dois anos eles não me permitem acesso à minha propriedade", disse Wu, balançando os braços enquanto guiava uma rápida caminhada pelo bairro de Yangjiaping. É uma área que sofre as dores de um 'redesenvolvimento' em grande escala, com avenidas largas, grandes shopping centers e uma recém-construída linha elevada de monotrilho, de cuja plataforma quase todos param para se embasbacar com a casa prego.

Poucos instantes após a chegada dela ao portão trancado da área de construção, uma multidão começa a se formar. As pessoas, muitas delas trabalhadores com malares encovados e trajando roupas sujas, saudavam Wu com expressões de assombro. Algumas delas trocaram histórias sobre como foram forçadas a se relocar e confortaram uns aos outros com comentários sobre como nada poderia ser feito.

Do lado de dentro dos portões uma equipe de televisão do governo começou a filmar.

"Se fosse uma pessoa comum, elas teriam contratados capangas para espancá-la", murmurou uma mulher que vestia um suéter verde e que foi atraída pela multidão. "Pessoas comuns não ousam enfrentar os empreendedores imobiliários. Eles são fortes demais."

No início deste mês, o Congresso Nacional Popular aprovou uma lei histórica garantindo direitos de propriedade privada para as crescentes fileiras de proprietários de imóveis urbanos de classe média da China, entre outros. Alguns aqui atribuem a isto o sucesso de Wu, assim como seu talento para gerar publicidade.

"No passado eles simplesmente teriam demolido", disse uma mulher de 80 anos que disse que era vizinha de Wu. "Agora isto é proibido porque Pequim avisou que estas coisas devem ser feitas de forma razoável."

Em meio a telefonemas frenéticos para repórteres e autoridades municipais, Wu - em pé no centro da multidão acompanhada de seu irmão, um vendedor de pedras ornamentais de 1,90 metro com cabelos castanhos encaracolados - apresentou seu caso de um modo ligeiramente diferente.

"Eu tenho mais fé do que os outros", ela começou. "Eu acredito que esta é minha propriedade legal e se não posso proteger meus próprios direitos, isto zombaria a lei de propriedade recém-aprovada. Em uma sociedade democrática e que segue a regra da lei, uma pessoa tem o direito legal de administrar sua propriedade."

Tian Yihang, um estudante universitário local, falou de forma empolgada sobre ela em uma entrevista na estação do monotrilho. "Esta é uma situação peculiar", ele disse, com um pouco de atenuação. "Eu admiro a proprietária por ser tão persistente em seus princípios. Na China tais coisas chocam as mentes comuns."

Wu provavelmente perderá sua batalha. De fato, os empreendedores impetraram recentemente ações administrativas para conseguir autorização para demolir sua casa solitária. As autoridades locais certamente estão ansiosas para se livrarem dela.

"Durante o processo de demolição, 280 lares ficaram satisfeitos com sua compensação e se mudaram", disse Ren Zhongping, uma autoridade municipal de habitação. "A de Wu foi a única que tivemos que demolir à força. Ela guarda o valor de sua casa em seu coração, mas o que ela tem em mente não é prático. Está muito além dos padrões de compensação decididos pelos proprietários de imóveis e pelo órgão profissional de avaliação."

Quando a rua ficou tão cheia de curiosos que o tráfego começou a parar, o irmão de Wu, Wu Jian, começou a acenar com um jornal por sobre a multidão, apontando para fotos do marido de Wu, um campeão local de artes marciais, que apareceria em um torneio altamente divulgado naquela noite. "Ele entrará em nossa casa e plantará uma bandeira lá", anunciou Wu Jian.

Momentos depois, enquanto a multidão começava a se dispersar, uma bandeira chinesa apareceu no telhado com uma faixa pintada à mão que dizia: "A propriedade legal de um cidadão não deve ser usurpada".

Ao ser perguntado sobre como seu cunhado conseguiu entrar no local fechado e escalar o escarpado onde a casa se encontra empoleirada, ele disse com uma piscadela: "Mágica". George El Khouri Andolfato

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