UOL Notícias Internacional
 

27/03/2007

Traficante ou clínico? E quem é a vítima?

The New York Times
John Tierney

Em Alexandria, Virgínia
O caso dos EUA contra William Eliot Hurwitz, que começou em uma corte federal aqui nesta segunda-feira (26/3), versa sobre muito mais do que apenas um médico. É uma batalha sobre quem estabelece as regras para o tratamento de pacientes que estão com dor: agentes e fiscais de narcóticos ou médicos e pesquisadores.

Dependendo do lado que você ouve, Hurwitz, 62, é o mais infame traficante de drogas ou um médico piedoso sendo processado porque alguns pacientes o enganaram.

Quando foi enviado à prisão, em 2004, para 25 anos por tráfico de drogas e outras acusações, o promotor dos EUA para Virgínia do Leste, Paul J. McNulty, chamou a condenação de "grande conquista nos esforços do governo de livrar a comunidade da medicina da dor da minúscula percentagem de médicos que não seguem a lei e receitam para traficantes de drogas".

Siobhan Reynold, presidente do grupo Rede de Alívio da Dor, elogiou a dedicação singular de Hurwitz e comparou suas situação com a de Galileu. Alguns dos principais pesquisadores no tratamento de drogas e vícios do país defenderam seu pedido por um novo julgamento, que foi aceito porque o júri no primeiro caso foi instruído impropriamente a ignorar se Hurwitz tinha agido de "boa fé". Esses cientistas dizem que ficaram indignados ao ver como os promotores distorceram suas pesquisas e como o Departamento de Fiscalização de Drogas (DEA) em sua campanha contra o mau uso da OxyContin e de outros opiáceos analgésicos.

No primeiro julgamento, a promotoria acusou Hurwitz de ultrapassar o limite entre médico e traficante, receitando doses irresponsavelmente altas de analgésicos a seus pacientes nos subúrbios de Washington, em Virgínia. Ele foi acusado de ignorar evidentes "bandeiras vermelhas", sinais que alguns pacientes estavam fazendo mau uso ou vendendo as drogas. Esse é um argumento emocionalmente poderoso para o júri: os sinais de advertência parecem perfeitamente claros a posteriori.

Mas para os pesquisadores que estudam pacientes enganadores, não há bandeiras vermelhas evidentes. A mentira é notoriamente difícil de identificar, como documentou Beth F. Jung e Marcus M. Reindenberg, da Universidade de Cornell, em uma nova pesquisa da literatura. Eles observaram, para começar, um experimento mostrando que até policiais e juizes -especialistas em detectar a fraude- não conseguem detectar a mentira mais vezes do que detectariam pela sorte.

Os médicos são especialmente ingênuos porque são treinados a tratar pacientes acreditando no que dizem. Eles não conseguem detectar os mentirosos nem quando são advertidos, em experimentos, que serão visitados em certa altura por um ator fingindo ter alguma condição (como dor nas costas, artrite ou dores de cabeça). Em seis estudos avaliados pelos pesquisadores de Cornell, os médicos em geral detectaram o paciente falso não mais que 10%, e identificaram erroneamente pacientes reais como falsos.

Quando tratam pessoas com dores crônicas, os médicos têm que levar em conta o que os pacientes contam, porque não há forma provada de diagnosticar a dor ou medi-la. Também não há dose padrão na medicina: uma receita de opiáceo que incapacitaria ou mataria um paciente pode ser quase insuficiente para aliviar a dor de outro.

Durante o primeiro julgamento, a promotoria argumentou que estava além do "limite da medicina" de Hurwitz receitar mais de 195 miligramas de morfina por dia, mas dosagens maiores que 60 vezes esse nível são consideradas aceitáveis em um livro texto médico. O testemunho supostamente especialista da promotoria sobre níveis de dosagem e tratamento apropriado da dor para viciados em drogas foi chamado de "errado" e "sem fundamentação na literatura médica" em uma declaração conjunta de Russell K. Portenoy e cinco outros ex-presidentes da Sociedade Americana de Dor.

Portenoy, diretor do departamento de medicina da dor do Centro Médico Beth Israel, foi um dos pesquisadores que trabalhou com o DEA quatro anos atrás para traçar diretrizes de medicação de dor para médicos e agentes da lei. As diretrizes garantiam aos médicos que estariam seguros a não ser que receitassem drogas por razões ilegais "consciente e intencionalmente" e advertiam aos agentes de narcóticos que não investigassem os médicos só porque receitavam grandes quantidades.

O DEA publicou as diretrizes e depois abruptamente retirou-as, às vésperas do julgamento de Hurwitz, logo após a defesa indicar que planejava usar o documento no tribunal. O DEA, que disse que o documento não tinha sido propriamente avaliado, passou a repudiar algumas das diretrizes e advertiu que pretendia continuar fiscalizando médicos que parecessem suspeitos porque receitavam grandes quantidades e ignoravam certas bandeiras vermelhas.

Portenoy, que será testemunha para Hurwitz em seu segundo julgamento, foi um dos pioneiros em identificar os riscos de receitar opiáceos. Ele diz que os sinais de advertência que parecem óbvios para os promotores raramente oferecem orientação clara aos médicos. Quando um paciente continua pedindo mais comprimidos, isso significa que é traficante ou que não está recebendo medicação suficiente? Se um teste de urina mostra a presença de cocaína ou de outras drogas ilegais -como aconteceu com alguns dos pacientes de Hurwitz - o médico deve automaticamente cortá-lo? É isso que exigem alguns promotores e agentes de narcóticos, mas os médicos entendem que muitos usuários de drogas ilegais que também precisam de analgésicos.

"Metade dos pacientes de dor teriam que parar de tomar seus remédios se todo comportamento de bandeira vermelha exigisse a interrupção da receita", diz Portenoy. Ele e pesquisadores como Steven D. Passik, psicólogo do Centro de Câncer Memorial Sloan-Kettering, concluíram que metade dos pacientes de dor exibe ao menos dois dos sinais de advertência e que nem mesmo médicos veteranos concordam em quais sinais são os mais importantes. Em uma moção anterior ao julgamento, o advogado de Hurwitz, Richard A. Sauber, pediu à corte que proibisse as testemunhas especialistas da promotoria de usar o argumento da bandeira vermelha porque "desafia a lógica que algum especialista possa testemunhar" sobre algo que não tem "suporte científico". A moção foi negada, entretanto, então as bandeiras podem voltar ao julgamento.

Até os defensores de Hurwitz admitem que ele não é o médico ideal para representar a causa dos pacientes de dor. Apesar de sua especialidade em medicina da dor ser respeitada, alguns dizem que foi ingênuo e irresponsável ao ponto da incompetência. Mas as punições tradicionais para tais erros são acordos extrajudiciais de erro de prática médica e perda de licença médica estadual, não uma investigação federal e 25 anos de prisão.

"Os médicos são treinados para tratar pacientes, não para serem detetives", diz James N. Campbell, neurocirurgião da Universidade Johns Hopkins especializado em dor, que será outra testemunha de Hurwitz. Ele diz que médicos já reagiram ao aperto do DEA mudando a forma como lidam com muitos americanos que sofrem de dor crônica - ao menos 50 milhões, segundo várias estimativas.

"Os opiáceos foram uma revolução no tratamento da dor nos anos 90, mas os médicos agora relutam em usá-los", diz Campbell. "Se um médico perceber que existe uma chance em 5.000 que a receita provoque um inquérito pelo DEA - só um inquérito, não uma prisão - ele não vai correr esse risco. Então as vítimas são os pacientes." Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h49

    -0,60
    3,126
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h52

    0,06
    75.650,20
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host