UOL Notícias Internacional
 

28/03/2007

Facilitando uma viagem à Índia

The New York Times
Jonathan Allen*
Para o visitante de primeira viagem a Índia, a impressionante vastidão do país - cerca de 2 milhões e 500 mil metros quadrados - desestimula a romântica idéia de conhecer tudo o que um país tem a oferecer dentro de um prazo normal de férias. Aposentados que não precisam ficar controlando o relógio, estudantes universitários que querem tirar uns semestres de folga, mochileiros numa volta ao mundo - são esses os típicos viajantes que parecem mais apropriados para uma viagem a Índia.

Tomas Munita/The New York Times 
A tumba de Humayun é uma peça em arenito dedicada ao 2º imperador da dinastia Mughal

Mas como ficamos nós, que estamos limitados a uma ou duas semanas de férias por ano? Estaria a Índia completamente fora do nosso alcance? Para resumir numa palavra: não. Explorar um cantinho da Índia, por menor que seja, num período de 7 a 10 dias pode se transformar numa satisfatória experiência de viagem.

É razoável que ninguém queira perder o Taj Mahal, especialmente numa primeira visita. É por isso que nosso roteiro sugerido fica em torno desse ideal platônico de atrações turísticas. Se você primeiro passar uns dois dias perto do monumento, na capital Nova Delhi - uma estranha mistura de monumentos imperiais Mughal, bairros urbanos efervescentes, avenidas frondosas em estilo britânico da era Raj e conjuntos habitacionais da classe média em expansão - terá uma boa noção da Índia urbana. Mas deve se levar em conta que cerca de dois terços dos indianos vivem fora das cidades. Considerando esse fato, o roteiro da região, depois de passar por Agra, sede do Taj, e pelas ruínas e palácios de Gwalior, culmina em Orchha, cidadezinha a beira do rio bem equipada com palácios, tumbas, templos hindus e com aquela típica vida de aldeia.

E o Rajastão? Bem, esse carrossel fascinante infestado de turistas foi omitido deliberadamente, embora seja um lugar que valha a pena explorar quando você tiver tempo de visitar seus bolsões menos desenvolvidos. E as trilhas para caminhadas no Himalaia e as praias de Goa? Deixe para a próxima vez.

Comece sua viagem por Nova Delhi. Assim como quem toma um banho a vapor, a cidade é mais bem aproveitada aos poucos, e há poucas visões tão apaziguantes como poder observar um praticante de ioga avançada sustentando sua posição nos exuberantes jardins Lodi Gardens tendo as assustadoras tumbas com abóbadas dos sultões Lodi do século 15 como pano de fundo. Os moradores das afluentes vizinhanças aparecem para piqueniques ou corridas, enquanto jovens casais comparecem para namoros furtivos, mantendo viva a histórica função do parque de esconderijo romântico a salvo dos olhos horrorizados de pais conservadores.

Os jardins são bem apropriados para monumentos como a Tumba de Humayun, serena e enorme peça em arenito vermelho dedicada ao segundo imperador hindu da dinastia Mughal, que perdeu um império para depois reconquistá-lo e morrer em 1556 ao despencar de uma escada. Enquanto observa a cúpula em branco-pérola, você poderá se perguntar: como o Taj Mahal poderá superar essa maravilha?

Outros velhos monumentos interessantes - como a tumba de Kalan Masjid e Khan-i-Khanan - estão espalhados pelos bairros da região, sendo que alguns chegam a ser utilizados como valiosas metas gigantes em peladas de críquete.

Da tumba de Humayun, uma louca travessia pela movimentada Mathura Road poderá levá-lo ao santuário Sufi dedicado ao santo Nizamuddin Auliya.

Como acontece em todos os locais de peregrinação sagrada na Índia, há um comércio fervilhante ao redor, o que neste caso significa muitos homens vendendo pétalas de rosas, do tipo que Nizamuddin gosta de receber se estiver considerando uma resposta aos seus pedidos. Um desativado detector de metal típico de aeroportos demarca os limites do território sagrado; é apenas aqui, e não antes como gritavam os vendedores de pétalas, que você deve ficar descalço (aqui e onde quer que você vá descalço, é certo que guardar o par de calçados custa de 5 a 10 rúpias, menos de 25 centavos de dólar, com o dólar valendo 45 rúpias ao dólar). Das mulheres espera-se que cubram suas cabeças - os véus custam cerca de 50 rúpias.

Fique um tempo observando as multidões que passam pelo bem pintado santuário iluminado por candelabros que mais cedo ou mais tarde uma pequena trupe de cantores qawwali surgirá para se apresentar no pátio de mármore. Uma multidão os cerca, enquanto eles se sentam com as pernas cruzadas ao som de teclados e tablas, usando as mãos para quase que materialmente emitir seus hinos rítmicos e progressivos através da porta aberta do santuário. Se o ritmo empolgar, você poderá até se levantar e girar como um dervixe encantado com os braços abertos em êxtase.

As ruas aglomeradas e estreitas da vizinhança ao redor do santuário servem apenas de aquecimento para uma visita a Shahjahanabad, a cidade cercada de muros construída pelo imperador mughal Shah Jahan no século 17 e que agora costuma ser chamada de Velha Deli, embora não seja de forma alguma a parte mais velha da cidade.

Os roteiros óbvios incluem a bela Jama Masjid, conhecida como a maior mesquita da Índia (a paisagem da cidade, estranhamente cúbica, vista do alto de um dos minaretes mais do que justifica o ingresso de 20 rúpias), e a desajeitada fortaleza vermelha, que foi violentamente vandalizada pelos ingleses.

Mas explorar ao acaso a grandeza monstruosamente corroída da cidade amurada é muito mais divertido. Os bazares são freqüentemente dedicados a um único tipo de comércio, e é assim que se encontra uma rua dedicada a cartões de casamento perto de outra voltada para autopeças.

Grande parte da vida da Velha Deli acontece mesmo a céu aberto. Rapazes recebem massagens faciais em salões de beleza masculinos em plena calçada, e de repente você pode ver uma turma de crianças tomando banho de cuia no pátio de uma mansão outrora grandiosa que se tornou decadente. Algum tipo de encontro com cabras é praticamente certo, muitas delas vestidas graciosamente com suéteres femininos durante o inverno.

Nenhuma delas nem de longe parece preocupada, diante dos estábulos que têm pilhas de caveiras com cabeças de cabras. E vale a pena manter boas relações com qualquer homem suarento vestido com trajes alaranjados brilhantes que você venha a perceber perto de um forno de padaria onde estejam saindo alguns tandooris. O cara poderá pegar um naan de graça para você, tentando evitar outra cicatriz no antebraço. Até mesmo o mais nervoso entre os devoradores de comida de rua deveria tentar a batata doce saída do forno, tostada com deliciosas especiarias daquelas de fazer espirrar.

O restaurante de Karim, perto do Jama Masjid, ainda é um dos melhores lugares para provar comida Mughlai da boa, por mais gordurosa que seja. Experimente os qormas de carneiro com batatas romali e kebabs dos siks, ou então, se você for corajoso mesmo, o cérebro de carneiro, nem que seja só para contemplá-lo ali no meio da mesa.

Uma excursão pela vizinhança não estaria completa sem um passeio de riquixá pela congestionada Chandni Chowk, a principal via comercial da região - talvez de toda a Índia. A rua é cheia de lojas que vendem doces bem melados, tecidos sensacionais, perfumes e jóias, com uma providencial e anômala filial do McDonald's. Você pode ver a cara mais contemporânea de Deli percorrendo a abissal hierarquia de classes da cidade e curtir a vida com a endinheirada classe média, para quem a vida nunca esteve tão boa como agora, à beira da piscina do Park Hotel, que abriu em 1987. O curvilíneo interior retrô-futurista do hotel foi concebido pela Conran & Partners, talvez imediatamente depois de terem visto "Barbarella".

Quando você estiver pronto para dançar, entre no bar Agni. A vida noturna de Deli raramente "bomba", mas pode ser divertida, se você for chegado às batidas do bhangra e aos floreios vocais da música pop hindi. Peça ao DJ para tocar o viciante megahit "Kajra Re", desde que ele já não o tenha tocado umas três vezes.

Passados dois dias, é hora de se arriscar fora de Deli rumo a Agra, uma viagem que é melhor quando feita de trem, pelo menos em parte por conta do inevitável encontro com os locais.

O trem mais conveniente é o das 7h15 da manhã. É o Taj Express, que sai da estação Hazrat Nizamuddin, não muito longe dos jardins de Lodi, e chega em Agra duas horas e meia mais tarde. Seria improvável o fato de um estrangeiro não conseguir fazer alguns novos amigos em um trem indiano, seja ao sentar com burocratas e majores aposentados nos carros com ar condicionado, ou com fazendeiros e trabalhadores rurais nos assentos mais baratos. Nem um astrólogo iria se apressar em fazer generalizações sobre todo esse um sexto da humanidade, mas mesmo assim parece justo dizer que os indianos são em sua maior parte um grupamento humano bem sociável, sempre pronto para submeter os desconhecidos a alegres entrevistas.

Entre Deli e Agra encontra-se uma região interiorana estranha, nunca inteiramente rural, em que incontáveis trens expelem um fluxo constante de lixo pelas janelas. Felizmente os acenos para o trem nunca deixam de ser novidade para as crianças que vivem perto dos trilhos.

Em Agra, vale a pena alugar um táxi durante toda a estadia. A maioria dos hotéis pode providenciar o serviço e isso lhe poupará dos condutores de riquixás que tentam pegar comissões levando clientes em lojas de suvenir. Você pode prever a despesa de 500 a 900 rúpias por dia com o táxi, o que varia se o veículo tem ou não ar condicionado.

Como uma espécie de aperitivo de Agra, vá até o mausoléu de Akbar (entrada por 110 rúpias) em Sikandra, a cerca de oito quilômetros ao noroeste do centro da cidade. O Portão da Magnitude, como é perfeitamente denominado, é a grande atração aqui, modernizado com uma padronagem geométrica nos tijolos. Os jardins, onde antílopes de capa preta com chifres de hélices perfeitas se socializam com amistosas borboletas amarelas, são um refrescante descanso da feia azáfama de Agra.

Bem lá dentro do túmulo está a totalmente despojada sepultura de Akbar, o Grande, coberta de pétalas, com teto bem alto, cheiro de mofo e som reverberante. Akbar foi o terceiro e mais reverenciado dos imperadores de Mughal. Mas o real motivo de sua viagem na verdade é o lugar onde está enterrado o neto de Akbar.

Shah Jahan construiu o Taj Mahal (entrada por 750 rúpias) no século 17 para ser o mausoléu de sua esposa favorita, Mumtaz Mahal, que morreu logo após ter dado a luz à sua 14a criança. E reza a etiqueta turística que um visitante se deslumbre diante da simples menção do empreendimento de Shah Jahan.

Megalomaníaco até mesmo para os padrões de Mughal, Shah Jahan soube como causar uma primeira impressão bombástica. Uma passagem em arenito vermelho obstrui toda a vista do Taj até o último momento, até o impacto que reverbera quando se contempla aquela beleza absurda pela primeira vez.

Bem de perto, as superfícies de mármore nos interiores ainda brilham com flores feitas de pedras preciosas incrustadas, e rabiscos gigantes encantadores de caligrafia persa estilizada nas paredes exteriores chegam a humilhar nosssas pobres letras do alfabeto romano.

Por mais transcendente que o Taj seja, é difícil não perceber que toda a turistada está aqui. Se bem que quase ninguém entre eles irá atravessar o rio Yamuna sobre uma ponte claudicante, passar uma aldeia e alguns campos de plantação de berinjela para vir a Mehtab Bagh (100 rúpias), um parque recentemente restaurado à beira do rio que, acredita-se, foi construído especificamente por Shah Jahan para se contemplar o Taj à distância. Os turistas que se amontoam na plataforma do Taj estão bem perto, mas mesmo assim você tem uma visão exclusiva do monumento.

Durante boa parte do ano o Yamuna fica seco, e você pode passar por baixo do arame farpado e descer ao leito do rio para confraternizar com os meninos pastores de búfalos e mulheres lavadeiras na aridez do rio, um cenário indiano bem mais autêntico que os esnobes jardins formais em estilo inglês que predominam no terreno do Taj. Mesmo se você não puder ficar em um dos quartos de luxo de frente para o Taj, pelo menos vá ao hotel Oberoi Amarvilas para um jantar e para ter a sensação de como seria se tivesse o orçamento de um imperador Mughal para gastar em interiores. Você terá que se vestir da melhor forma possível para parecer ao menos aos pés do rigor com que a equipe de funcionários se veste, com tecidos tradicionais, enquanto se junta aos outros turistas para se deliciar com a comida mughlai servida em cenário requintado e ouvindo música clássica hindustani tocada ao vivo.

É fácil gastar pelo menos um dia explorando os palácios, os jardins e as mesquitas do Fort Agra do século 16, que oferece talvez a vista mais sensacional do Taj, da torre ornada em que Shah Jahan ficou prisioneiro nos oito anos finais de sua vida por ordens de seu filho Aurangzeb, com quem não se dava lá muito bem. Já Fatehpur Sikri (com entrada restrita, custando 20 rúpias), a cidade de sonhos construída por Akbar em 1571 e abandonada aos periquitos 15 anos depois porque ficava longe demais da fonte de água mais próxima, fica a menos de uma hora de Agra, e também recebe poucos dos turistas do Taj.

A mesquita, que ainda funciona, representa o clímax arquitetônico por aqui: você pode cair para trás extasiado quando passar sob o Arco da Vitória. Se você estiver preparado, é possível ter uma conversa inteira apenas sobre nomes de jogadores de críquete com os meninos muçulmanos da região que pedem esmolas pelo caminho.

Na manhã seguinte, diga adeus à multidão de turistas que viaja em pacotes em direção a Jaipur e tome o trem em viagem de duas horas até a fortaleza que fica no alto do penhasco em Gwalior (entrada 100 rúpias). O destaque aqui é o palácio de Mansingh, decorado numa estética estranhamente pré-escolar: as enormes trincheiras são decoradas em tijolos com motivos de pés de feijão verdes gigantescos e patinhos amarelos que parecem de desenho animado. Os mais sedentários devem saber que as ruínas ficam depois de uma ladeira bem íngreme acima do bazar principal.

De volta à cidade, a antiga família real de Gwalior ainda vive no grandioso e branco Jai Vilas Palace do século 19 (um palácio menor sobressalente foi convertido em um hotel luxuoso pelo grupo Taj). Uma parte do palácio maior foi aberta ao público (200 rúpias) como um tipo de homenagem ao gosto de playboy extravagante do marajá em termos de interiores, incluindo paredes pintadas de maneira psicodélica, bares espelhados e, no salão de banquetes, um trenzinho de vidro projetado para circular em torno da sala levando conhaques e charutos para o após-jantar.

Eu gostei particularmente das exposições de fotografias instantâneas, algumas mostrando o marajá cumprimentando notáveis tais como Saddam Hussein, outros mostrando o casal real posando em frente à torre Eiffel, ele em traje casual esportivo, ela em um sari verde, com seu característico e felino delineador facial e penteado bufante. Achando que eu era um connoisseur, um guarda bem protetor indicou alguns de seus trabalhos favoritos na coleção palaciana de arte erótica. A excursão termina em uma grande escadaria no salão folheado a ouro. Seus dois candelabros colossais pesam 3,5 toneladas cada um, me disse um guarda dorminhoco depois que eu o acordei.

A aproximadamente 90 minutos de Gwalior viajando de trem, Orchha já foi considerada a grandiosa capital do poderoso clã de Bundela, mas é agora, de acordo com as habituais leis da entropia indiana, uma alegre aldeia. O principal complexo palaciano, semi-arruinado e do século 17, fica numa espécie de ilha no Betwa, num rio implausivelmente limpo e bonito. Com um pouco de baksheesh (gorjeta), um dos guardas irá destrancar um dos dois dormitórios reais que dão para fora do quadrilátero principal do Raj Mahal, revelando alguns murais bem-preservados com cenas de caça.

Uma caminhada de vinte minutos ao longo do rio conduz aos memoriais dos antigos dirigentes de Orchha, cada um deles consistindo praticamente em uma mansão de pedra com cúpula em espiral. Você pode procurar nas paredes pela escadaria em pedra, mortalmente escorregadia, que leva aos telhados, onde você pode se sentar entre as cúpulas cônicas apreciando a vista do rio ao lado dos abutres que por ali residem.

A aldeia de Orchha propriamente dita fica em torno de uma praça cercada de mercados, onde sadhus - hindus ascetas e sagrados - maltrapilhos, com tranças dreadlocks e vestidos com corante de açafrão, vagueam numa espécie de transe, distanciados do plano terrestre da realidade devido a certa combinação de devoção religiosa com cannabis. Às vezes alguns deles cantarão canções bem longas.

Em um lado do quadrado fica a cavernosa Chaturbhuj Mandir, parecida tanto com uma côncava catedral européia quanto com um templo hindu; por perto fica o espalhafatoso templo Ram Raja, um ímã para peregrinos hindus e festas de casamento.

Há também boa contemplação de templos na direção oposta aos memoriais, onde abóbadas - as sikharas - se destacam no horizonte encharcado cheio de arrozais inundados.

Uma criança ocasional pode surgir lá de uns três arrozais acima na colina, na certeza de que você irá querê-la posando em sua fotografia, mas no geral são tão poucos os turistas por aqui que as mulheres levam suas trouxas de lavanderia para os quiosques de informação.

Depois de uma viagem de seis horas de trem de volta a Deli, se ainda houver tempo para gastar, você pode adquirir desenhos a tinta em pergaminho, xales do Himalaia feitos a mão, panos espelhados e outras lembranças no museu dos ofícios (Crafts Museum, entrada livre, fechado às segundas) perto do Purana Qila na Mathura Road. Há frequentemente umas demonstrações por parte dos artesãos, e o museu em si tem uma fascinante variedade de exposições, incluindo uma casa de madeira inteiramente acoplada no fundo de um quarto. Pode dar para conciliar com uma visita ao Atrium, salão de chá do Imperial Hotel dos anos trinta, em Janpath, no centro de Deli. Consiga um lugar perto da fonte neste mais opulento símbolo da era Raj, peça chá com bolos, pegue seu guia de bolso e comece a tramar a sua próxima volta à Índia.

*Jonathan Allen é um articulista baseado em Nova Delhi Marcelo Godoy

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