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28/03/2007

Geólogos testam método incomum para diminuir a enxurrada de lama de vulcão

The New York Times
Seth Mydans

Em Sidoarjo, Indonésia
Como domar um vulcão de lama? Tente jogar centenas de milhares de bolas de concreto nele. Nas últimas semanas, usando um sistema inventado pelo Instituto Bandung de Tecnologia, trabalhadores vêm lançando bolas com um mecanismo complicado de guindastes e roldanas na abertura fumegante conhecida pelos cientistas como o "grande buraco".

Especialistas em vulcões de lama estão abismados. Ninguém jamais deteve um fluxo subterrâneo de lama, dizem, muito menos com um remédio caseiro como esse.

Não ria, disse Satria Bijaksana, um dos três geólogos do instituto que desenvolveu o projeto, em pé na beirada de um mar de lama amplo e cinza. "Não sou apenas um cientista maluco lançando idéias selvagens", disse Bijaksana, 42, que tem doutorado em magnetismo de rochas da Universidade Memorial de Newfoundland no Canadá. "Isso não é uma piada."

A lama começou a jorrar da terra há quase 10 meses, quando uma coluna perfuradora buscando gás natural furou um manancial pressurizado, a cerca de 2.700 metros subterrâneos. Desde então, em torno de 28 bilhões de litros de lama espalharam-se por 5 km quadrados.

A lama enterrou 12 aldeias e 20 fábricas, inundou estradas e campos de arroz e desabrigou 15.000 pessoas. Ela continua jorrando, a mais de 99 milhões de litros por dia, e ninguém sabe dizer quando irá parar. "Depois de dois meses, entendemos que não ia parar", disse Bijaksana, "então começamos a procurar uma forma de detê-lo".

A idéia é atravancar a garganta do gêiser com 1.000 ou mais bolas ligadas como braceletes em grupos de quatro, a maior delas pesando cerca de 80 kg.

Sua massa e fricção, quando se embolarem na base da fossa, deve diminuir o fluxo de lama para um vazamento administrável, disse Bijaksana. Mas seu formato permitirá que a lama escorra, evitando a pressão que levaria o vulcão a explodir da terra em outro local. "Queremos diminuir seu ritmo gradualmente", disse ele. "Um, dois, três meses. Mas não queremos bloqueá-lo."

Richard Davies, geólogo da Universidade de Durham, no Reino Unido, e especialista em vulcões de lama, duvida. "Não acho que vão pará-lo com essa idéia de bolas", disse ele em entrevista telefônica.

Para Davies, o plano poderia funcionar apenas se a cratera subterrânea fosse quase perfeitamente do formato de uma ampulheta, permitindo que as bolas se acumulassem em um espaço estreito. "Com as conexões subterrâneas de um vulcão de lama, não acho que será tão simples", disse ele.

É mais provável, disse ele, que as bolas simplesmente desapareçam, engolidas por um sistema digestivo gorgolejante de lama quente. Ele negou a idéia de que algumas delas serão ejetadas como bolas de canhão.

"É uma situação um pouco como Davi e Golias", disse Davies, que visitou o local e escreveu um artigo sobre a erupção neste ano. "Você está jogando essas bolas em uma abertura 700 metros de profundidade e 50 metros de diâmetro".

Recentemente, as autoridades informaram um decréscimo no volume de fluxo, depois da inserção de quase 400 bolas. Mas a atividade do vulcão flutuou desde o início, e Bijaksana disse que era cedo demais para saber se seu sistema estava funcionando.

Não apenas os cientistas têm dúvidas. O sargento Sumarono, que patrulha o centro de mídia da equipe, disse ao The Jakarta Post que sábios locais previram que os espíritos que moram na cratera iam ficar irados após serem atingidos por bolas de concreto gigantes.

"A explosão de lama aconteceu porque os espíritos na cratera estão irados", disse Sumarono, que como muitos indonésios usa apenas um nome. "A inserção das bolas apenas gerará mais ira. Os profetas já disseram que haverá uma explosão maior. Acredito nisso."

Gêiseres de lama como este não são raros, disse Davies, mas a maior parte é breve e modesta, muitos estão sob o oceano e poucos ameaçam áreas populosas. Centenas ocorrem no Azerbaijão, alguns em Trinidad e outros na costa da Nigéria, disse ele. Poucos pequenos no delta do Mississippi trazem sedimentos subterrâneos de 1,6 km, aproximadamente.

A maior parte são erupções naturais de lama pressurizada, disse ele, mas também podem ser liberados quando uma perfuração atinge um manancial profundo, e a água jorra como um refrigerante cheio de gás.

A lama começou a brotar no dia 29 de maio, durante uma perfuração exploratória de uma empresa de gás indonésia, Lapindo Brantas, que é controlada pelo ministro poderoso da área de bem-estar social, Aburizal Bakrie. A empresa diz que não é culpa sua e sim de um grande terremoto dois dias antes, com um epicentro a cerca de 300 quilômetros de distância.

Apesar de alguns cientistas indonésios terem expressado apoio a essa alegação, Davies disse que duvidava que o terremoto tivesse causado a erupção. Alguns críticos culparam a empresa por não ter insulado parte de seu buraco de perfuração, mas Davies disse que não estava claro se isso poderia ter impedido a fratura da rocha.

Davies disse que era um de poucos especialistas no assunto pouco glamoroso de vulcões de lama. "Os ígneos são os populares", disse ele. "Vulcões de lama são o irmão mais pobre dos ígneos. Há algumas coisas bastante fundamentais que não compreendemos sobre eles."

Bijaksana disse que ele e seus colegas estavam sozinhos quando assumiram o vulcão, desenvolveram suas teorias e métodos e seus próprios instrumentos para lidar com a lama. "Se não funcionar, deveria me preocupar com o que pesquisadores distantes dizem?" disse ele. "As pessoas podem discutir sobre isso repetidas vezes. Mas esta coisa é real. Decidimos fazer alguma coisa." Deborah Weinberg

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