UOL Notícias Internacional
 

28/03/2007

Meses após a grande eleição, pouco mudou no Congo

The New York Times
Jeffrey Gettleman

em Kindu, Congo
A estrada que deixa a cidade é uma faixa única de terra para motocicleta. A ferrovia da era colonial está em pedaços. A última das grandes barcaças do rio se encontra apodrecendo na margem com mato crescendo entre suas frestas.

E assim Kindu, uma cidade antes próspera aqui no interior do Congo, agora está tão isolada que tudo é transportado por avião: água engarrafada, painéis de vidro, biscoitos, pepinos e até gasolina, a mais de US$ 3 o litro.

Tyler Hicks/The New York Times 
Escola em Kindu, cidade que era próspera e agora está isolada do resto do país

Este é o Congo, seis meses após uma eleição histórica, a mais cara na África e uma que foi rotulada - pelos congoleses e pelas autoridades da ONU que pagaram meio bilhão de dólares por ela - como o fim de uma queda livre.

Décadas de desgoverno deixaram os 60 milhões de habitantes deste país rico em minérios entre os mais pobres do mundo. Rebeliões incessantes desestabilizaram uma grande parte da África central e custaram cerca de 4 milhões de vidas.

O novo governo do Congo está tentando unir o país, como se alguma vez tivesse existido de forma significativa. Mas uma recente viagem de 1.900 km pelo país - de avião, caminhão, moto, canoa e a pé - mostra os enormes obstáculos que não desaparecem.

Kinshasa, a capital rebelde na borda oeste do país, parece um local onde uma guerra foi travada nas ruas. Há alguma violência aqui, como confrontos periódicos entre a guarda presidencial e uma milícia leal a Jean-Pierre Bemba, um magnata e ex-senhor da guerra.

Mas não são tanques e bombas que deixaram as ruas cheias de escombros e transformaram muitos prédios elegantes em carcaças despedaçadas. É a negligência e a corrupção, que persiste apesar da eleição.

No início de março, quando chegou a hora de formar o primeiro governo realmente democrático na história do país, um partido político ligado ao presidente Joseph Kabila apresentou o nome de Andre Kasongo Ilunga para ministro do Comércio. O problema era que, como reconheceram posteriormente autoridades do governo, não existia um Andre Kasongo Ilunga.

Naturalmente, quando o governo nomeou Ilunga para o Ministério, ele não compareceu. Os conselheiros do presidente logo descobriram que o nome tinha sido submetido como um ardil para assegurar que outro político ocupasse o cargo. "Foi um grande embaraço para nós todos", disse Kikaya bin Karubi, um membro do Parlamento e um confidente de Kabila. Kabila prometeu fazer o melhor que puder e seus conselheiros disseram que ele está fortalecido, após vencer o segundo turno em outubro com convincentes 58% dos votos. Antes disso, Kabila foi presidente do governo de transição no qual o poder era desajeitadamente dividido entre ele e quatro vice-presidentes, dois deles senhores da guerra.

Tal sistema foi parcialmente responsável pelo desaparecimento de milhões de dólares destinados ao desarmamento das milícias. Em 2004, doadores ocidentais deram ao Congo mais de US$ 200 milhões para retirar de ação 330 mil milicianos. O plano era fornecer a cada miliciano que se desarmasse voluntariamente US$ 25 por mês e treinamento profissionalizante. Mas no ano passado o dinheiro repentinamente acabou, após ajudar apenas uma fração dos milicianos. "O dinheiro foi roubado", disse Ahmed Shariff, o mais alto representante em Kindu da ONU, que conta com 17 mil soldados de força de paz estacionados no Congo. "Ele foi usado para construir casas e comprar carros."

O governo ainda precisa reviver o programa, que deixou dezenas de milhares de ex-milicianos furiosos, armados e na mata. Sabuni Bokota é um deles. Ele é um plantador de tomates de 1,52 metro e ex-comandante de milícia com três esposas e 15 filhos. Eles vivem em uma fileira de choupanas de barro ao longo da margem leste do Rio Congo, em uma aldeia isolada chamada Lotangi, a um dia de barco a remo de Kindu, passando por bambuzais de 30 metros de altura e aranhas do tamanho de bolas de tênis.

Agora os milicianos estão ficando impacientes. Recentemente, Sabuni se pintou novamente, colocou seus amuletos e liderou um contingente de mai-mai até Kindu para protestar. "Nós estamos esperando há cinco anos", ele disse. "Eles continuam nos dizendo que leva tempo."

O tempo não tem sido particularmente gentil com Lotangi. Ela costumava fazer parte de uma rede de cidades ribeirinhas ligadas por barcas, ferrovias e estradas construídas durante o período colonial belga para transporte do máximo de ouro, marfim, produtos agrícolas e madeira possível. As antigas plantações de óleo de palma e depósitos de banana ainda estão lá, mas estão desaparecendo às margens dos rios, mais evidências devoradas pela floresta da podridão no reinado de Mobutu.

"Nós costumávamos ter eletricidade", disse Germain Musombo, 38 anos, que vive aqui em Kindu, uma cidade de 250 mil habitantes iluminada por velas. "Nós tínhamos um cinema. Nós tínhamos estradas decentes e um trem que nos levava até Lubumbashi em três dias", uma distância de 965 quilômetros. Agora a viagem leva um mês.

O Congo tem uma área de 2,3 milhões de km2, mas possui apenas 480 km de estradas pavimentadas. A falta de infra-estrutura mantém as pessoas pobres. Os agricultores de Kindu costumavam exportar banana, madeira, arroz e amendoim. Agora grande parte de suas terras, entre as mais férteis na África, permanece não cultivada, porque não há como escoar os produtos para o mercado. "Há um limite para o que é possível transportar na cabeça", disse a governadora em exercício, Katharina Aziza Sadiki.

Mais ao leste, as frustrações antigoverno se intensificam. Kichanga, uma cidadezinha a cerca de 1.600 km de Kinshasa, está claramente fora do controle de Kabila. O acesso a ela só é possível por um vôo de 60 minutos de Kindu a Bukavu em um avião da ONU, seguido por uma viagem de lancha de duas horas de Bukavu até Goma e então uma caminhada de três horas por uma estrada escarpada e lamacenta.

O último posto do governo fica na cidade mercado de Sake. Depois dele, meninos soldados trajando uniformes não marcados marcham ao longo das estradas com granadas propelidas por foguete e botas de borracha até a altura do joelho. Os aldeões pagam impostos não para a República Democrática do Congo, mas para Laurent Nkunda, o senhor da guerra local.

Nkunda tem uma constituição física que lembra um abridor de cartas - longo, afiado e magro. Ele é um nacionalista tutsi, e com os esquadrões da morte hutus ainda perambulando pelo interior, Nkunda vê a si mesmo como tudo o que resta entre os congoleses tutsi e o genocídio. "Os tutsis que foram mortos em Ruanda eram meus amigos", ele disse. "Eu não posso aceitar isto aqui."

O leste do Congo é provavelmente a parte mais bela do país, mas também a mais brutalizada e mais confusa. Milhares de vidas aqui foram perdidas para doença, fome e uma mistura de grupos rebeldes.

Os problemas começaram em 1994, quando a maioria de etnia hutu de Ruanda se voltou contra a minoria tutsi e 800 mil pessoas foram mortas. Desde então, a violência entre hutus e tutsis de Ruanda prosseguiu além da fronteira no Congo, onde ambas as comunidades vivem há décadas, mostrando como este vasto país ainda está sob a influência de seu minúsculo vizinho ao lado.

Mas algo novo está acontecendo, que pode promover a estabilidade. O governo de Kabila, fortalecido pelas eleições e livre da necessidade de aprovação dos quatro vice-presidentes rivais em cada decisão, está fechando acordos com vários senhores da guerra, incluindo Nkunda.

Às vezes Kabila tem pouca escolha. Em novembro, as forças de Nkunda humilharam os soldados do governo e avançaram a até 16 km de Goma, uma das maiores cidades do leste do Congo. Elas a teriam tomado se as forças de paz da ONU não tivessem enviado helicópteros de ataque para impedir o avanço das tropas de Nkunda.

"Nosso exército nacional é uma piada", disse Aloys Tegera, o gerente de uma organização de ajuda em Goma. "É um problema sério. Como é possível governar este país imenso sem um exército nacional? Todos estão celebrando este grande momento de democratização, mas estamos construindo sobre a areia."

Em Kichanga, tropas do governo foram colocadas em uma desconfortável cadeia de comando sob os oficiais de Nkunda, mas é difícil saber se os senhores da guerra como Nkunda fazem parte do problema ou da solução.

A cidade de Sake foi ocupada primeiro por soldados de Nkunda, que basicamente a deixaram em paz, e então por tropas do governo, que a saquearam, disseram os moradores. Mas as autoridades congolesas continuam acusando Nkunda de crimes de guerra, inclusive de massacrar prisioneiros de guerra, apesar de muitos moradores daqui parecerem gostar dele, por motivos óbvios. "Se você está doente, ele lhe dá dinheiro", disse Sesaga Nzabonimba, um agricultor perto de Sake.

Nkunda disse que prefere se juntar ao governo a atuar de forma independente. E este pode ser um dos maiores mistérios do Congo - como após décadas de governo colonial brutal, ditadura cleptomaníaca, lutas étnicas e isolamento regional, uma leve pulsação de nacionalismo ainda sobrevive. "Eu sou um tutsi, só que mais que isto, eu sou congolês", disse Nkunda. "Eu realmente espero algum dia fazer parte do exército nacional. Ele precisa de ajuda." George El Khouri Andolfato

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