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29/03/2007

Rei saudita critica papel dos Estados Unidos no Iraque e no Oriente Médio

The New York Times
Hassan M. Fattah*

Em Riad
Nesta quarta-feira (28/03), o rei Abdullah, da Arábia Saudita, disse aos líderes árabes que a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos é ilegal e advertiu que a menos que os governos árabes resolvam as suas diferenças, potências estrangeiras como os Estados Unidos continuarão a ditar a política regional.

Omar Rahidi/Reuters 
O rei Abdullah conversa com o líder palestino Mahmoud Abbas, na cúpula da Liga Árabe

O discurso do rei, na abertura do encontro de cúpula da Liga Árabe, que ocorre aqui, salientou as crescentes diferenças entre a Arábia Saudita e o governo Bush no momento em que os sauditas assumem um papel maior de liderança no Oriente Médio, parcialmente devido à solicitação dos Estados Unidos.

Os sauditas parecem estar enfatizando que não ficaram devendo nada às políticas do seu aliado de longa data. No mês passado a Arábia Saudita mediou um acordo entre as duas principais facções palestinas. Mas os Estados Unidos consideraram tal acordo profundamente problemático porque ele conferiu mais poder ao grupo radical Hamas, e não ao moderado Fatah. Na quarta-feira o rei Abdullah pediu o fim do boicote internacional ao novo governo palestino. Os Estados Unidos e Israel querem que o boicote continue.

Além disso, Abdullah convidou o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para visitar Riad no início deste mês, quando os norte-americanos desejavam que o líder iraniano fosse desprezado. E para tentarem desativar as tensões no Líbano, os sauditas parecem dispostos a negociar com o Irã.

Na semana passada o rei saudita cancelou abruptamente a sua participação em um jantar na Casa Branca marcado para o mês que vem e planejado em sua homenagem, segundo anunciou na quarta-feira o jornal "The Washington Post". O motivo oficial apresentado foi um conflito de agendas.

Mustapha Hamarneh, diretor do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia, diz que os sauditas estão mandando um recado a Washington. "Eles estão dizendo aos Estados Unidos que estes precisam ouvir os seus aliados em vez de imporem decisões aos países amigos e sempre tomarem partido de Israel", afirma Hamarneh.

No seu discurso, o rei disse: "No amado Iraque a carnificina continua sob uma ocupação estrangeira ilegal e um sectarismo detestável. A culpa deve recair sobre nós, os líderes da nação árabe, devido às nossas atuais diferenças e à nossa recusa de caminhar pela trilha da unidade. Tudo isso fez com que a nação perdesse a confiança em nós".

O rei Abdullah nunca antes havia se pronunciado publicamente de forma tão dura contra a intervenção militar liderada pelos Estados Unidos no Iraque, e as suas mais recentes declarações indicam que a sua aliança com Washington pode ser menos forte do que esperavam as autoridades do governo norte-americano.

Desde o verão passado o governo dos Estados Unidos vem afirmando que está havendo um realinhamento no Oriente Médio, agrupando Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Líbano, juntamente com Israel, contra Irã, Síria e os grupos militantes apoiados por estes dois países: o Hezbollah, do Líbano, e o Hamas.

Washington pediu à Arábia Saudita que assumisse um papel de liderança nesse realinhamento, mas o governo norte-americano tem sem mostrado desapontado com os resultados.

Algumas pessoas aqui dizem que o discurso do rei foi na verdade uma resposta aos comentários feitos na última segunda-feira pela secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, que pediu aos governos árabes que "comecem a se aproximar de Israel".

Muitos entenderam os comentários de Rice com uma indicação de que o governo dos Estados Unidos estão se esquivando de apoiar uma iniciativa árabe para resolver o conflito israelense-palestino. Israel quer que os árabes mudem os termos do acordo, especialmente no que diz respeito ao direto dos refugiados palestinos retornarem ao território onde hoje se situa Israel. A Liga Árabe está endossando a iniciativa, apresentada pela primeira vez pela Arábia Saudita em 2002, sem modificações.

Segundo o plano, Israel deve se retirar de todos os territórios que conquistou na guerra de 1967 em troca de relações diplomáticas integrais com o mundo árabe. O plano também prevê a criação de um Estado palestino tendo Jerusalém Oriental como capital.

Com relação aos palestinos, o rei disse na quarta-feira: "Tornou-se necessário acabar com o bloqueio injusto imposto ao povo palestino o mais rapidamente possível, de forma que o processo de paz possa se desenrolar em um clima distanciado da opressão e da força".

No que diz respeito ao Iraque, os sauditas parecem estar prestando certa atenção à política interna dos Estados Unidos. Na última terça-feira (27) o Senado norte-americano indicou que apoiará uma lei prevendo a retirada do Iraque em troca da liberação de mais verbas para a guerra.

Em novembro do ano passado, autoridades daqui perceberam que a vitória democrata poderia significar mudanças para o Oriente Médio: uma possível retirada do Iraque, alimentando uma maior instabilidade e, o mais importante, permitindo que o Irã aumente a sua influência na região.

"Não creio que o governo saudita já tenha decidido se distanciar de Bush", afirma Adel al-Toraifi, um colunista da imprensa local que tem laços próximos com a família real. "Mas também acho que os sauditas perceberam que a bola está se movimentando no campo dos democratas e eles querem estender a mão para a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi".

Turki al-Rasheed, que lidera uma organização que promove a democracia na Arábia Saudita, diz: "O rei está dizendo que podemos estar caminhando na mesma pista, mas as nossas direções são diferentes. Bush deseja dar a impressão de que está resolvendo o problema. Já o rei quer realmente resolver os problemas".

O rei Abdullah deixou claro que está ansioso para que as tropas dos Estados Unidos vão embora porque os árabes são capazes de cuidar dos seus próprios problemas: "Se a confiança for restaurada, ela será acompanhada pela credibilidade", afirmou o rei. "E se a credibilidade for restaurada, então os ventos da esperança soprarão, e depois disso jamais permitiremos que forças externas definam o nosso futuro, ou que sejam hasteadas em terras árabes outras bandeiras que não sejam a do arabismo, meus irmãos".

Os sauditas procuraram impor disciplina durante a conferência de cúpula de dois dias de duração, lembrando aos líderes e dignatários árabes que se ativessem à mensagem principal do evento e que saíssem daqui com algum tipo de solução nas mãos.

"O peso dos sauditas garantiu que esta será uma conferência isenta de problemas", afirma Ayman Safadi, editor do diário jordaniano "Al Ghad".
"Ninguém se desviará da mensagem ou se voltará contra os sauditas. Mas isso não significa que os problemas em si serão resolvidos".

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, fez uma avaliação grave da situação em um discurso dirigido à cúpula, afirmando em linguagem direta que há muito tempo a região não se encontra "tão complexa, frágil e perigosa".

Ele disse que há uma perda de vidas diárias chocante no Iraque, e que a Somália está afligida por "banditismo, violência e rivalidades entre clãs".

O Irã, que no sábado foi pela segunda vez alvo de sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU, está "seguindo em frente com o seu programa nuclear, sem dar atenção às preocupações regionais e internacionais", acrescentou Ban.

Tendo passado a segunda e a terça-feira em Jerusalém e na Cisjordânia, Ban pediu ao novo governo palestino que demonstre "um verdadeiro compromisso com a paz".

Em troca, disse ele, Israel precisa cessar as suas atividades de colonização e parar de construir uma barreira de separação. E concluiu: "A instabilidade nos Estados da Liga Árabe tem um profundo significado para a paz e a segurança internacionais".

*Nada Bakri, em Beirute; Rasheed Abou-Aslamh, em Jidda; e Warren Hoge, em Riad, contribuíram para esta matéria UOL

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