UOL Notícias Internacional
 

30/03/2007

A pequena surpresa saudita: ela pica. Aprenda a viver com isto

The New York Times
Helene Cooper

Em Washington
Funcionários americanos disseram nesta quinta-feira (29/3) que foram pegos de surpresa pelos comentários do rei saudita, que condenavam a intervenção americana no Iraque como "uma ocupação estrangeira ilegal", e estavam buscando esclarecimento. Mas buscavam reduzir as tensões provocadas pelos comentários.

"Nós ficamos um pouco surpresos em ver tais comentários", disse R. Nicholas Burns, o subsecretário de Estado para assuntos políticos, em uma audiência no Senado, se referindo à declaração do rei Abdullah da Arábia Saudita, feita na abertura de um encontro de cúpula da Liga Árabe em Riad, na quarta-feira. "Nós discordamos deles."

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, agendou um telefonema para o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, Adel al Jubeir, que estava viajando para Riad, disse um funcionário do governo.

O funcionário disse que o Departamento de Estado resistiu em se dirigir diretamente ao par de Rice, o ministro das Relações Exteriores saudita, Saud al Faisal, de forma a baixar a temperatura da retórica. Ele disse que Rice planeja questionar Jubei sobre os comentários do monarca saudita.

O governo Bush tem se esforçado nas últimas semanas para não criticar a Arábia Saudita, em parte por ter esperança que a liderança saudita ajudará a conter a crescente influência do Irã. E por ora, as autoridades sauditas e árabes disseram que as declarações do rei devem ser vistas neste contexto, um esforço para se posicionar visando obter a influência que precisa no mundo árabe.

"Ele sabia que seria algo popular de se dizer - a ocupação americana é um dos fatos mais impopulares nas ruas árabes", disse uma autoridade saudita em Riad com laços estreitos com a família real. Ele reconheceu que "nós não queremos que os americanos abandonem o Iraque; nós consideraremos os americanos responsáveis pelos danos caso isto aconteça."

Mas ele acrescentou que, a longo prazo, se a Arábia Saudita deseja liderar o mundo árabe e servir como contrapeso para o Irã, a monarquia saudita não pode ser vista como apoiando uma ocupação estrangeira em terras árabes.

De fato, o rei Abdullah alertou as autoridades americanas, incluindo o vice-presidente Dick Cheney, de que a Arábia Saudita poderia fornecer apoio financeiro aos sunitas iraquianos em qualquer guerra contra os xiitas do Iraque caso os Estados Unidos retirassem suas tropas daquele país.

No ano passado, enquanto um coro crescente em Washington defendia a retirada das tropas americanas do Iraque, somada a um esforço diplomático para dialogar com o Irã de maioria xiita, a Arábia Saudita, que se considera a líder do mundo árabe sunita, argumentou fortemente contra uma retirada americana do Iraque, citando o temor de que a minoria árabe sunita do Iraque seria massacrada.

Mas esta é uma posição difícil para a Arábia Saudita apoiar publicamente. "Todos presumem que a América é um garoto crescido, e garotos crescidos precisam suportar as coisas", disse Ziad Asali, presidente da Força Tarefa Americana para a Palestina. Ele apontou para o relacionamento estreito entre o governo Bush e a família real saudita, particularmente o príncipe Bandar, o ex-embaixador saudita nos Estados Unidos, que é conhecido em Washington pelo seu acesso à Casa Branca.

A suposição, ele disse, é de que o relacionamento pode suportar um tapa gentil ou dois. "Mas eu acho que tal suposição corre o risco de tornar as coisas desagradáveis", ele disse.

Funcionários do governo já estavam furiosos depois que a Arábia Saudita intermediou um acordo de divisão de poder entre o presidente palestino, Mahmoud Abbas, que é considerado um moderado pelas autoridades americanas, e o grupo militante islâmico Hamas, que tanto os Estados Unidos quanto Israel consideram uma organização terrorista.

Privativamente, os funcionários do governo dizem que o pacto, fechado em Meca, arruinou os planos americanos de tentativa de retomada das negociações de paz entre israelenses e palestinos.

Mas nenhum funcionário do governo disse isso publicamente, porque os sauditas são centrais para o esforço americano na região. Na verdade, toda vez que Rice menciona o acordo em Meca, ela não mede esforços para dizer que aprecia "os esforços do rei para colocar um fim na violência entre os palestinos", mesmo enquanto critica o Hamas por não reconhecer o direito de Israel de existir.

De forma semelhante, quando autoridades americanas tomaram conhecimento do discurso do rei Abdullah na quarta-feira, elas permaneceram caladas, primeiro dizendo aos repórteres para se certificarem de que não se tratava de um erro de tradução.

Mesmo na quinta-feira, quando ficou claro que o rei saudita tinha de fato criticado a presença americana no Iraque, o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, foi brando em seus comentários públicos. "Nós queremos entender mais claramente o que exatamente ele tinha em mente quando falou sobre uma ocupação ilegal", o mais longe que McCormack foi publicamente na contestação da declaração saudita.

Simon Henderson, o diretor e política de energia e para o golfo do Instituto Washington para a Política do Oriente Próximo, disse que o simples uso da frase "ocupação ilegal" legitimiza os ataques contra tropas americanas no Iraque.

Autoridades árabes disseram que os Estados Unidos realizaram enorme pressão sobre os sauditas, pedindo para que fizessem aberturas de paz para Israel, como Rice fez na terça-feira em Jerusalém.

Apesar da Liga Árabe ter reafirmado uma proposta de 2002 de terras pela paz para a solução do conflito entre israelenses e palestinos em seu encontro em Riad, na quinta-feira, muitas autoridades árabes expressaram fúria diante do recuo do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, de permitir novas conversações de paz com Abbas. Tais conversações estão sendo intermediadas por Rice para incluir questões do "status final" que têm atormentado os negociadores de paz desde 1979.

Parte das críticas do rei Abdullah aos Estados Unidos e Israel em seu discurso, disseram algumas autoridades árabes, deriva da revolta diante de Rice não conseguir extrair mais de Israel. "Os israelenses querem ganhar na loteria sem ter que pagar pelo bilhete", disse Jamal Khashoggi, um ex-conselheiro da embaixada saudita em Washington. "A loteria é a normalização das relações com a Arábia Saudita, mas primeiro eles devem pagar pelo bilhete chegando a um acordo com os palestinos."

Hassan M. Fattah, em Riad, Arábia Saudita, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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