UOL Notícias Internacional
 

02/04/2007

Arsênico e fotos antigas

The New York Times
Randy Kennedy

em Los Angeles
Mesmo que você seja apenas um visitante ocasional dessas lojas de hipoteca e empórios de velharias que fazem desta cidade um paraíso para as pessoas que procuram coisas usadas, é possível que já tenha topado com ele: um homem forte, de barba escura, com um forte sotaque tcheco e cujos olhos emitem um certo brilho quando ele vasculha as caixas de fotos velhas.

O nome dele é Dusan Stulik, e o seu apetite por fotografias antigas não é saciado por lojas de material de segunda mão. Ele quer também as suas fotos, dos seus velhos álbuns de família e caixas de sapato fechados com tiras de borracha, da sua tia Mildred, a colecionadora de quinquilharias, e do seu tio Milt, que transformou o banheiro em uma câmara escura para revelação de filmes. Basicamente ele deseja tudo aquilo que você não quer mais: fotos, retratos, negativos, experiências da escola de belas artes, e até mesmo fotos de passaporte.

"Sempre que conheço alguém, pergunto: 'Você tem algo de que eu precise?'", diz Stulik, sorrindo.

Este tipo de pergunta tende a afastar as pessoas, mas Stulik não presta muita atenção a isso. Ele está em missão. Uma missão que não tem nada a ver com as imagens mostradas nas fotografias. Ele só está interessado no material de que elas são feitas: os papéis, os produtos químicos e os metais que constituíram o mundo físico extremamente variado da fotografia durante cerca de 170 anos, até que a ascensão das câmeras e fotos digitais há uma década começou a tornar todo aquele material obsoleto.

Nos últimos anos, em um laboratório subterrâneo do Instituto de Conservação Getty, em Los Angeles, Stulik e um grupo de assistentes têm trabalhado naquilo que pode ser descrito como o projeto genoma da fotografia pré-digital: uma impressão digital química precisa de todas as cerca de 150 maneiras como os retratos foram feitos desde que um cientista amador chamado Joseph Nicephore Niepce fez aquela que se acredita ter sido a primeira fotografia em um pedaço de peltre, perto de Chalon-sur-Saone, na França, em 1826.

Desde aquela época as fotografias foram feitas com uma gama impressionante de materiais, alguns deles muito frágeis: betume, albumina, amido de batata, colódio, sal, mercúrio, prata, ouro, platina e até urânio (procurando perturbar uma pessoa que visitava o seu laboratório, Stulik recentemente tirou da prateleira um contador Geiger manual para provar que uma das fotas da sua coleção contém de fato urânio. O aparelho emitiu um chiado como o de um esquilo raivoso).

Stulik, cientista do laboratório Getty, atua há muito tempo como detetive no mundo químico da arte, especialmente no reino da pintura. Mas em 2000 ele e vários outros cientistas especializados em conservação de obras de arte se reuniram no norte do Estado de Nova York para falar sobre aquilo que viam como um desastre iminente em termos de conservação e teoria fotográfica: o abandono de várias décadas de informação sobre as fotos digitais à medida que se fazia uma transição para a era digital.

Parte dessa informação se perdeu há muito tempo na história, deixada para trás por inovadores que fizeram experiências com produtos químicos e papéis exóticos e que deixaram poucos registros do seu trabalho. Várias companhias tradicionais de filme e papel também saíram do ramo com o passar dos anos, levando consigo os seus segredos.

Mas agora, quando todas as grandes companhias fotográficas fazem uma transição rápida para a imagem digital, elas encontram pouco incentivo para armazenar dados detalhados sobre produtos que não geram mais lucro, muitos dos quais não são sequer vendidos há anos.

Só no ano passado a Nikon e a Canon anunciaram planos para reduzir ou cancelar a fabricação de câmeras de filme. A Konica Minolta recentemente cancelou completamente a produção de filme e papel. Mas o sinal de alarme soou realmente para Stulik quando a Kodak anunciou em 2005 que deixaria de fabricar o seu tão amado papel para fotografias em preto e branco.

Usando talvez somente uma parcela das suas hipérboles características, ele compara essa transição à invenção da imprensa no século 15, que rapidamente condenou os manuscritos iluminados, e várias das técnicas usadas para criá-los, à irrelevância e ao esquecimento histórico.

Quando Stulik deu início ao projeto fotográfico, trabalhando com o Instituto de Permanência da Imagem, em Rochester, no Estado de Nova York, com químicos da Universidade do Estado da Califórnia e com um grupo de cientistas franceses especializados em conservação de retratos, ele percebeu que além de vasculhar as grandes coleções dos museus do mundo, precisaria de amostras de papéis e filmes, que deixaram de ser fabricados há muito tempo, e que estavam provavelmente acumulando poeira nas milhões de coleções comuns de fotografias em residências espalhadas por todos os Estados Unidos.

Assim, o Instituto Getty fez um apelo no seu website
(www.getty.edu/conservation) e em outros, convocando os cidadãos a integrarem a linha de frente científica. "Surpreendentemente, as grandes companhias fotográficas - Kodak, Ilford, Fuji, Polaroid e Agfa - não guardaram amostras das centenas de filmes e papéis diferentes que desenvolveram no decorrer do século passado", informa a instituição no seu apelo. "Esperamos que você tenha guardado".

Desde que o pedido foi feito no ano passado, o laboratório Getty recebeu centenas de amostras de filmes e fotos, incluindo algumas muito velhas, como uma cópia em albumina, provavelmente da década de 1850. Mas existem várias outras coisas que Stulik continua esperando encontrar, como velhas fotos estereográficas, materiais cibacromáticos, papel velox e os slides Kodachrome anteriores à década de 1940 (ele diz que as cores do Kodachrome, que foram homenageadas por Paul Simon - "Elas nos dão aquelas cores belas e brilhantes/Nos dão os verdes dos verões" -, se mantiveram extraordinariamente estáveis no decorrer das décadas).

Stulik tende a suplementar o suprimento de material doado com o seu próprio, que ele encontra encontra vasculha obsessivamente na eBay e em lojas de antiguidades que visita todas as vezes que viaja. Recentemente ele pagou US$ 15 em uma loja na Ventura Boulevard, em Sherman Oaks, por uma rara amostra de ferrotipo, feito provavelmente entre meados e fins do século 19, cuja cópia foi feita não em metal, mas em um pedaço de couro do tamanho de uma carteira.

"Vocês sabem, eu sou obcecado. A gente encontra coisas nos locais mais estranhos", diz ele.

A meta de Stulik e dos seus colegas cientistas é produzir, dentro dos próximos anos, um grande Atlas de Assinaturas dos Processos Fotográficos, uma caracterização química de todo meio conhecido (e, até agora, alguns anteriormente desconhecidos) de se fazer fotografias. Um dia desses, no laboratório, ele e um assistente, Art Kaplan, mostraram um compêndio parcial de suas pesquisas até o momento, um papel em formato lista com mais de quatro metros de comprimento enumerando em letras miúdas os materiais já identificados por eles em diferentes tipos de fotos.

Essa pesquisa poderá ter um impacto não só no mundo da conservação das fotografias - uma prática relativamente nova que só passou a ser vista com seriedade na década de 1970 - mas também no universo da autenticação das obras de arte. Com a disparada dos preços das obras-primas fotográficas, a prova definitiva de que, digamos, uma obras de Lewis W. Hine é realmente um original, e não uma cópia posterior, pode significar uma diferença de milhares de dólares no seu preço (vários anos atrás, colecionadores de obras de Hine ficaram abalados quando descobriram que várias cópias feitas após a morte do artista haviam sido apresentadas como originais).

"Basicamente, esta iniciativa pode começar a reescrever a história da fotografia", diz Grant Romer, diretor do programa de residência avançada em conservação fotográfica da George Eastman House, em Rochester. "O trabalho já provocou uma espécie de crise no entendimento daquilo que acreditamos saber sobre fotografias".

Romer, uma autoridade no campo da conservação fotográfica, afirma que embora a ciência vá certamente se beneficiar da pesquisa feita por Stulik, ele acredita que tal trabalho é atualmente motivado não só pela mudança para a tecnologia digital, mas também pela recente atração do lucrativo mercado de artes pela fotografia (no ano passado, uma rara foto feita pelo artista Edward Steichen foi vendida em um leilão por quase US$ 3 milhões, estabelecendo um recorde).

"Talvez até uns dez anos anos atrás muitas fotografias não tinham de fato um valor que fizesse com que tudo isso tivesse real importância. Mas agora o valor é alto", explica Romer.

Stulik garante que não se preocupa muito com a maneira como o mercado utilizará o seu trabalho, embora esse mercado esteja provavelmente aguardando ansioso as descobertas do cientista. "Essa não é a minha missão, diz ele desinteressado".

Em vez disso ele costuma passar os seus dias cultivando a sua obsessão por coisas como gemas de ovos - "As fotas à base de albumina utilizavam apenas a clara do ovo", diz ele. "O que eles fizeram com todas as gemas?" - e arsênico. Recentemente ele encontrou traços desse elemento, para sua grande surpresa, ao examinar uma velha foto em cianotipia.

"Eu acordo durante a noite, e me pego pensando: 'O que esse arsênico fazia lá? Não deveria haver arsênico naquela foto. O que eles estavam fazendo?'", diz ele, passando a mão sobre a testa. "Perco o sono com coisas como essa. Realmente, é uma loucura".

Talvez, mas no mundo de Stulik, conforme ele frisa com freqüência, poucas coisas são mais importantes do que as fotografias.

"O que as pessoas correm para salvar durante um incêndio?", pergunta ele, inclinando-se em direção ao repórter. "Primeiro, as crianças. Depois, talvez, o marido ou a mulher. Em terceiro lugar, as fotografias - porque não existe maneira de substituí-las". UOL

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