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03/04/2007

Na orderíssima cidade do homem mais ansioso do mundo

The New York Times
Stephen Metcalf
Cheia de homens usando bolsas capangas, com muita tolerância social e muitos casacões dependurados nas costas das cadeiras dos cafés, quando acontecem aquelas quedas súbitas de temperatura, Copenhague é conhecida por ser uma cidade civilizada em excesso. Nos sinais de trânsito, as bicicletas se enfileiram em geometria perfeita, e os nativos nunca atravessam a rua distraidamente. (Se pisar numa ciclovia, o dinamarquês poderá te xingar; e em três dias andando por toda Copenhague, eu nunca ouvi uma buzina tocar).

John McConnico/The New York Time 
Os jardins Frederiksberg foram definidos por Kierkegaard como uma "terra encantada"

Como uma cidade assim tão ordeira, tão tediosamente auto-suficiente, pode ter produzido um Soren Kierkegaard?

Kierkegaard era um provocador vão, um estudioso da perversidade extravagante. Pai do existencialismo, afirmou a primazia do indivíduo em toda a sua mais gritante contradição, uma posição que ele enfatizou tanto na vida pessoal como na obra escrita. E ele elucubrou tudo isso se lançando pelos espaços públicos de Copenhague, andando tanto pelas ruas que, de acordo com cálculos de seu sapateiro, ele gastou todas as suas solas. E então, quando a cidade que tanto amou se cansou dele a ponto de torná-lo figura de escárnio público, ele se fechou em concha.

Brincando com minhas múltiplas identidades, me encolhendo diante dos outros por medo do ridículo, enaltecendo a autopiedade como forma de martírio - será que era de se estranhar que eu adorasse Kierkegaard na faculdade?

Há alguns meses, voei até Copenhague para procurar vestígios de meu antigo herói no que diz respeito à aversão interpessoal. Por lá, os sinais de homenagem a ele são discretos e raros: algumas placas, uma estátua nos jardins da Biblioteca Real, uma coleção modesta de mobílias no Museu da Cidade de Copenhague. Para encontrar Kierkegaard em Copenhague - e ele ainda está por lá - deve se ignorar o protocolo das homenagens públicas de bom gosto, e procurar com mais rigor.

Eu comecei minha busca por Kierkegaard nos jardins de Frederiksberg - "aquele jardim maravilhoso que para a criança era a terra encantada onde o rei vivia com a rainha", como Kierkegaard escreveu em "Concluding Unscientific Postcript".

No começo do outono europeu, a atmosfera era certamente maravilhosa. O ar estava ardentemente límpido, a grama tratada recentemente e amantes se enroscavam com ardor entre as árvores que lhes eram tão familiares. Corredores, gansos, banhistas pontilhavam um gramado que subia inclinado até um belo palácio barroco, antiga residência de verão da realeza dinamarquesa.

Se formos acreditar num dos alter egos do filósofo, era em meio a toda esta fonte de prazer incessante que Kierkegaard compreendeu "que minha tarefa é essa: criar dificuldades por toda parte."

A história de Kierkegaard e de Copenhague é feita de "dificuldades", para dizer o mínimo. No momento exato em que Kierkegaard emergia como o primeiro filósofo quintessencialmente moderno, Copenhague emergia como uma cidade quintessencialmente moderna. O daguerreótipo e o hábito de usar roupas de acordo com as vitrines tinham chegado à região de Ostergade, e seus bulevares comerciais eram agora lugares para desconhecidos se inspecionarem uns aos outros, fofocarem e se seduzirem.

Próspero filho de um magnata do ramo das lingeries, Kierkegaard sentia igualmente fascínio e repulsa por esse agito urbano. Seu herói era Sócrates, a quem chamou uma vez de o "virtuose dos encontros casuais". Kierkegaard se tornou rapidamente famoso na cidade por suas próprias e épicas caminhadas, nas quais batia papos entusiasmados com todos que encontrava, dos políticos da cidade às megeras na orla de Gammel. "Eu considero toda Copenhague", ele escreveu, "como uma grande reunião social."

Em muitos aspectos, Copenhague ainda é a cidade que Kierkegaard conheceu. "Alguns de meus compatriotas provavelmente pensam que Copenhague é uma cidade aborrecida e pequena", escreveu Kierkegaard escreveram em seus "Stages on Life's Way". "Para mim, pelo contrário, é o habitat mais favorável que eu poderia desejar. Grande o bastante para ser uma cidade grande, pequena o bastante para não estabelecer preço sobre seres humanos."

É verdade que o agito aumentou desde os tempos dele, e de maneira que poderiam afetar sua frágil sensibilidade. Em Radhus Pladsen, o coração da Copenhague moderna, os telhados gigantes em águas-furtadas parecem inspirados nas corridas da fórmula Nascar, ao lado de logos corporativos. Na maior parte de sua extensão, a Stroget, rua de pedestres, é cheia de lanchonetes e de universitários querendo estar na moda, gentalha euro-kitsch que a gente vê em toda cidade européia. Mas o que Kierkegaard encontrou em Copenhague ainda está aqui: a azáfama urbana se você estiver a fim; mas é só se afastar um pouco das ruas mais movimentadas para encontrar toda uma atmosfera profunda e meditativa.

O que teria turvado o relacionamento tão promissor entre o filósofo e sua cidade? Quando jovem, se apaixonou perdidamente por Regine Olsen, encantadora filha de um proeminente banqueiro dinamarquês. (No dia que conheceu Regine aos 14 anos - ele tinha 23 - escreveu em seu jornal - "eu me sinto como árvore, abeto solitário que sobe de forma egoísta, solto ao vento sem lançar sombra, em cujos galhos os pombos não se arriscam a construir seus ninhos.")

Ele se declarou à moça, e ela finalmente aceitou. Por razões que nunca ficaram muito claras, Kierkegaard um dia resolveu que nunca poderia se casar. Para terminar definitivamente o relacionamento, ele decidiu fazer com que Regine o odiasse. Ficou viciosamente frio, e com o pai dela começou a bancar o canalha garanhão, mesmo se conservando celibatário convicto. Com Regine já em estado de desespero quase suicida, e o nome de Kierkegaard ficando maldito na alta sociedade de Copenhague para sempre, o noivado finalmente terminou.

Por mais aflitivo que tenha sido o episódio, ainda seria secundário no panteão de Kierkegaard dos momentos de autoflagelo emocional. Em 1845, Kierkegaard recebeu uma crítica ruim para "Stages on Life's Way". Ele reagiu furiosamente, ridicularizando o crítico e a publicação que era mais associada ao nome do articulista, um jornal satírico chamado "O Corsário". "Por favor, peço para que me ataquem ainda mais", debochou Kierkegaard. "A ofensa pessoal de ser imortalizado pelo Corsário é tudo o que eu quero."

Fulo da vida, o editor do Corsário respondeu com fúria, atacando Kierkegaard com amargura e insistência, em palavras e desenhos; tendo capitalizado para si o episódio como se fosse "o caso Corsário", como veio a ser conhecido, o editor conseguiu causar danos profundos no nome de Kierkegaard. "Foi um uma experiência decisiva e terrível", me disse Joakim Garff, eminente biógrafo dinamarquês de Kierkegaard. "Isso o confunde e assusta enormemente. O desastre é tal que chega ao ponto de ele não ser mais capaz de perambular pelas ruas de Copenhague."

De Frederiksberg, eu tomei a direção nordeste, aproximadamente 10 minutos rumo ao cemitério de Assistens, e contemplei a última morada de Soren Aabye Kierkegaard - nascido em 1813, morto em 1855 - abaixo dos vidoeiros e da agitação do tráfego da região.

De lá se pode andar para o leste em direção a Peblinge So, um de três grandes lagos no centro da cidade onde Kierkegaard ambientou a abertura do seu infame "Diário do Sedutor", assim como fez com a antiga Rua dos Amantes. (O clima de sedução ainda está no ar. Na doca de um café a beira do lago, gente bonita faz seu lounge em cadeiras de plástico, num clima de flerte furtivo).

Saindo do Peblinge é uma caminhada rápida em direção sudeste para se chegar a Kobmagergade, uma versão bem mais plácida da Rua Stroget. Ali, em pleno coração da cidade velha, fica o magnífico Rundetaarn, ou Torre Redonda, onde o jovem Soren foi crismado.

Eu depois segui a Ostergade em direção a Kongens Nytorv, uma praça ligeiramente opressiva cercado por edifícios pomposos. Aqui, no hotel D'Angleterre, um prédio com a estrutura parecida com a de um bolo de casamento, o jovem Kierkegaard aparecia freqüentemente para um pouco de chá e a dialética.

Pegando a via Niels Juels Gade, eu andei na direção sul para conhecer a nova aquisição da Biblioteca Real, um monolito negro feito de mármore e vidro, na orla do rio, numa praça batizada com o nome de Kierkegaard. Nas proximidades há um café moderninho chamado Soren K, e só de pensar no peixe tamboril que custa U$ 40 fui possuído pelo horror kierkegaardiano.

Enquanto pensava "não, não, não...", fui parar na Rua Slotsholmgade, em busca de vestígios da antiga residência familiar de Regine. As "seis irmãs", um conjunto de mansões enfileiradas, já não existem mais, mas a rua é calma, e o antigo edifício da bolsa de valores, com seu magnífico pináculo com quatro caudas de dragão entrelaçadas, bem que vale o desvio na rota.

E para restaurar por completo meu sentido de introspecção e melancolia, segui o antigo trajeto percorrido por Kierkegaard, descendo a Niels Juels Gade, em direção a Christians Brygge, passando pela Langebro, ou ponte longa, em direção a Cristiania, uma ilha com velhos armazéns que nos tempos de Kierkegaard entrara em decadência. (Após várias gerações, agora é previsivelmente elegante, mas ainda assim funciona como agradável retiro, distante da comoção urbana).

Aqui Kierkegaard poderia estar no cais, contemplando à distância sua cidade natal. "Quando se está do outro lado, em Cristiania", escreveu em seu diário, "parece que a gente está bem, bem distante de Copenhague."

Mesmo após toda a punição amarga sofrida no "caso do Corsário", Kierkegaard voltou a caminhar pelas ruas de Copenhague. Seu percurso freqüentemente o levava visitar Regine, que por sua vez era meio errante, agora casada com outro e feliz. Os dois, segundo o que Garff me disse, "passam a se encontrar regularmente, mas nunca falam um com o outro. Kierkegaard teve um flerte constante com Regine pelo resto da vida." Kierkegaard podia até mudar de percurso nas caminhadas, mas mesmo assim acabava encontrando Regine. "Eu não posso deixar de sorrir quando a vejo", escreveu em seu diário. "Ah! Como ela passou a significar tanto para mim!"

Em 1855, no dia previsto para a mudança com o marido para as Antilhas, ela saiu do apartamento em busca do filósofo e, quando o encontrou, foi direto ao assunto. "Ela disse: 'Que Deus o abençoe. Espero que tudo corra bem contigo'", Garff rememora.

Oito meses depois, após desmaiar em plena rua, Kierkegaard morreu de colapso nervoso. Na minha última tarde em Copenhague, eu segui o impactante badalar seco do sino na Helligaandskirken, a igreja onde Soren pela primeira vez percebeu a presença da preciosa Regine. É um prédio em tijolos num estilo românico com pilares altos e estreitos.

A praça da igreja, com suas construções em tijolos à moda vitoriana, representa um alívio se comparada a rua Stroget que está ali por perto, com seu poster gigante de Claudia Schiffer, espalhafatoso como um cadáver num filme de James Bond.

Da igreja de Helligaandskirken, fui para a Stroget conhecer a Vor Frue Kirke, catedral de Copenhague. Foi perto dali que Kierkegaard passou seus últimos dias. Ele lutou contra os rigores litúrgicos da igreja, muitas vezes de forma pesada. Mas ele se rendia, em relação à edificação propriamente dita. Como escreveu em seus "Discursos Cristãos", era o abrigo bem adequado para sua miséria interior: "Aqui na casa de Deus, tudo é muito sólido, muito seguro." Marcelo Godoy

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