UOL Notícias Internacional
 

03/04/2007

Organizações esportivas procuram limitar as reportagens online

The New York Times
Doreen Carvajal

em Paris
Quando tiverem início os Jogos Pan-americanos, em julho, no Brasil, milhares de atletas de ponta correrão, lutarão e saltarão, mas eles não poderão participar de um exercício popular diário: contar suas experiências e publicar fotos em blogs.

Também ficarão longe dos blogs os médicos, os técnicos e os massagistas, devido a uma proibição ampla que afetará cerca de 7.000 pessoas durante as duas semanas da competição que se encerrarão em 29 de julho no Rio de Janeiro.

A regra reflete uma tendência generalizada entre as instituições internacionais de esporte no sentido de impor controles vigorosos sobre o uso online das informações e fotografias dos jogos.

Em fevereiro surgiu uma disputa entre a Federação Internacional de Rugby e a Associação Mundial de Jornais a respeito das restrições que serão impostas durante a Copa do Mundo de Rugby, que terá início em Paris em setembro deste ano.

Em troca das credenciais de imprensa para a Copa de Rugby, a federação deste esporte está limitando o número de fotos dos jogos que podem ser publicadas nos sites de notícias online durante a competição. O órgão está exigindo também que não se sobreponham manchetes sobre as fotos, uma regra que tem como objetivo proteger os patrocinadores industriais como a Heineken e a Toshiba.

"Não estamos sendo draconianos", afirma Greg Thomas, diretor de comunicações da Federação Internacional de Rugby, cuja sede fica em Dublin. "O que ocorre apenas é que em algumas circunstâncias precisamos nos proteger caso as pessoas ultrapassem os limites".

Os executivos da Copa de Rugby garantem que não se envergonham de proteger uma renda potencial durante um período de expansão do esporte. Mas os críticos argumentam que as instituições esportivas estão também obtendo mais poder a fim de gerenciar as suas imagens.

"Existe uma tendência natural entre as organizações esportivas de expandir o seu território", afirma Jens Sejer Andersen, diretor da Play the Game, um grupo dinamarquês sem fins lucrativos dedicado a pesquisas da ética no esporte. "É normal que qualquer negócio procure expandir o seu controle sobre o mercado. Mas isto é algo que remete ao cerne do funcionamento da mídia independente na nossa sociedade. O perigo é que desta forma não dá para haver nenhuma discussão real sobre eventos relativos ao setor esportivo, o que nos reduz à condição de milhões de robôs que consumem passivamente o esporte."

Desde o final da década de 1990, a tensão relativa à publicação de fotos de jogos muitas vezes emergiu em relação às credenciais para a mídia fornecidas pelas autoridades esportivas. Essas autoridades concedem aos jornalistas acesso aos jogos, contanto que os jornalistas acatem regras que são constantemente modificadas.

Em 1997, a Liga Nacional de Futebol ameaçou revogar as credenciais de imprensa do "The Florida Times-Union" a menos que o jornal assinasse um documento que o proibisse publicar fotos dos jogos do Jacksonville Jaguars no seu website. O "Times-Union" retrucou ameaçando não cobrir os jogos do Jaguars e a disputa acabou sendo resolvida.

Mas tais atritos continuaram ocorrendo a cada grande jogo. Tanto as empresas de mídia quanto as instituições esportivas evitam levar a questão aos tribunais, preferindo se valer de outras formas de pressão.

Em 2004, por exemplo, os jornais britânicos responderam às tentativas da dominante liga de futebol inglesa English Premier de obter mais controle sobre a utilização online das fotos esportivas deixando de publicar fotografias que mostravam as logomarcas de patrocinadores como a Coca-Cola e a Barclays.

No ano passado, a Associação Mundial de Jornais também desafiou com sucesso a Fifa, a associação internacional de futebol, ao se aproximar dos principais patrocinadores para reclamar das restrições propostas ao uso das fotos dos jogos - uma tática que a imprensa pode também usar na sua atual disputa com os cartolas do rugby.

"Não fazemos nenhuma objeção aos acordos de licenciamento e aos direitos exclusivos que eles concedem às redes de televisão e rádio", afirma Larry Kilman, porta-voz da associação de jornais, que conta com 18 mil membros. "Mas achamos que essas restrições não são necessárias e que eles estão sendo excessivamente cautelosos".

O que está em jogo para os organizadores dos esportes de primeira divisão é o lucro potencial gerado por novas formas de mídia. A Federação Internacional de Rugby decidiu limitar a publicação online de fotos estáticas a cinco para cada tempo do jogo, em parte porque queria proteger a exclusividade do seu próprio sistema por assinatura "match tracker", que conta com comentários online sobre os jogos, bem como com uma coletânea variada de fotografias.

Por razões similares, as autoridades dos Jogos Pan-americanos quiseram proteger a exclusividade dos seus eventos impedindo que os atletas crisassem blogs ou "vlogs" (dotados de material de áudio e vídeo). Eloyza Guardia, porta-voz dos organizadores, diz que eles estão simplesmente seguindo o que é determinado pelo Comitê Olímpico Internacional, que impôs uma proibição similar durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, em 2006.

Geralmente existe uma divisão quanto a este assunto entre as organizações esportivas dominantes e competições menos conhecidas que procuram criar um público expectador. A regata America's Cup, que começa em 16 de abril em Valência, na Espanha, por exemplo, atrai menos cobertura televisiva do que outros eventos internacionais. Ela não proíbe os blogs e permite o uso generalizado de fotos. Um máximo de três fotos por minuto pode ser exibido online. A Volvo Ocean Race do ano passado na verdade exigiu que os velejadores fizessem blogs.

Jeff Bukantz, capitão da equipe de esgrima dos Estados Unidos que participará dos Jogos Pan-americanos, só soube há pouco tempo que será proibido criar blogs sobre a competição.

Em 2004 ele publicou comentários pessoais quando era capitão da equipe olímpica norte-americana de esgrima, que ganhou uma medalha de ouro. Ele descreve os blogs dos atletas em geral como uma válvula catártica para os competidores liberarem pensamentos e sentimentos reprimidos.

"Os nossos atletas respeitarão todas as regras locais", diz ele, acrescentando, no entanto, que acha a proibição dos blogs algo "chocante". "É certamente uma forma flagrante de censura". UOL

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