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04/04/2007

Músicos chineses são presença crescente nas orquestras ocidentais

The New York Times
Daniel J. Wakin*
Com uma rapidez estonteante, um número cada vez maior de músicos da China encontra emprego nas salas de concerto, nos conservatórios e nas casas de ópera ocidentais, estremecendo uma tradição musical nascida nas cortes e nas igrejas da Europa.

Altos salários, empregos prestigiados nas orquestras, uma platéia cativa e a presença de professores conhecedores da tradição atraem esses musicistas chineses para as cidades norte-americanas e européias. O fenômeno, que vem se consolidando há pelo menos uma década, tomou impulso nos últimos anos, injetando uma nova vitalidade no cenário da música clássica norte-americana após o fluxo histórico de músicos italianos, alemães e russos e, mais recentemente, japoneses, taiwaneses e coreanos.

Todd Heisler/The New York Times 
Weixiong Wang, de 16 anos, é um dos mais brilhantes jovens da exigente Escola Juilliard

"Eu honestamente acredito que de alguma maneira concreta o futuro da música clássica depende dos acontecimentos na China nos próximos 20 anos", diz Robert Sirota, o presidente da Escola de Música de Manhattan. "Eles representam uma platéia vasta e nova, bem como um contingente de instrumentistas de música clássica que é muito maior do que qualquer coisa que já presenciamos. Estamos vislumbrando um futuro, talvez daqui a 20 ou 40 anos, no qual Xangai e Pequim serão de fato consideradas centros mundiais da arte musical".

As generalizações culturais são sempre arriscadas. Mas muitos músicos e educadores ocidentais entrevistados citaram qualidades similares dos virtuoses chineses: paixão e refinamento, expressividade e brilho. Os músicos chineses parecem ser menos tolhidos pela cultura de conformidade às vezes encontrada na Ásia, dizem esses especialistas ocidentais.

"Existe na China uma tremenda vontade de buscar a perfeição", explica Paavo Jarvi, diretor musical da Orquestra Sinfônica de Cincinnati. "Há um portal aberto. Eles estão seguindo em frente em vez de ficarem parados no mesmo lugar". E eles chegaram ao Ocidente.

Basta constatar que o artista mais badalado no universo da música clássica pode muito bem ser o pianista chinês Lang Lang, 24, adorado por fãs de todo o mundo. O maior evento no mundo da ópera no ano passado foi uma estréia na Ópera Metropolitana de Nova York de Tan Dun em "The First Emperor", que a instituição espera levar à China no ano que vem em uma turnê.

Em 2005, no mais recente concurso de piano Van Cliburn, uma tradição profundamente texana, realizada em Fort Worth, oito dos 35 participantes eram chineses, comparados a três em 2001 e a um em 1991. Um dos seis finalistas, Chu-Fang Huang, acabou vencendo o concurso Cleveland International Piano Competition em 2005. Violinista e pianistas chineses atualmente são também premiados com freqüência em outros grandes concursos internacionais.

Além de Lang e de outro pianista chinês muito aclamado, Yundi Li, também de 24 anos, uma nova safra de astros ainda adolescentes ou com pouco mais de 18 anos está a caminho do Ocidente. Entre eles está Yuja Wang, 20, um pianista que estuda no Instituto Curtis de Música, em Filadélfia, e que já recebe instrução de grandes artistas, e Sa Chen, 17, um outro finalista do Cliburn 2005.

Durante várias décadas, músicos japoneses e coreanos se constituíram em uma presença notável no Ocidente. Eles ficaram especialmente conhecidos por atuarem nas seções de instrumentos de cordas das orquestras profissionais. Agora os músicos chineses se juntaram a eles e estão conquistando posições prestigiadas. Hae-Ye Ni, nascido em Xangai em 1972, foi promovido a violoncelista principal da Orquestra da Filadélfia no outono do ano passado. E as orquestras sinfônicas de Chicago e Pittsburgh têm maestros substitutos nascidos na China.

E não se trata só de tocadores de instrumentos de cordas: Liang Wang, 26, foi recentemente contratado como principal oboísta da Orquestra Filarmônica de Nova York, uma das principais posições na música orquestral.

O talento chinês penetrou em quase todas as áreas do mundo da música clássica. Um grupo diversificado de compositores como Tan, Bright Sheng, Chen Yi e Zhou Long abriram as portas de um novo mundo sonoro marcado por ritmos, melodias e harmonias chinesas para os compositores norte-americanos e europeus mais jovens. Cantores chineses, cuja cultura possui a sua própria tradição operística rica, atuam em produções nas grandes casas de ópera de todos os Estados Unidos.

Nos últimos cinco anos, maestros chineses deram o salto para pódios proeminentes, modelando orquestras e companhias de ópera a partir deste que é considerado o posto mais importante da música clássica. A chegada deles é sentida de forma especialmente marcante na Europa, mas o astro em ascensão Xian Zhang, 33, foi recentemente contratado para o cargo de maestro associado da Orquestra Filarmônica de Nova York.

É nos conservatórios ocidentais de elite que a presença dos chineses talvez seja mais significante para o futuro. Os talentosos chineses se tornaram uma bonança para as escolas de música, onde eles elevam o nível técnico e se juntam ao já robusto grupo formado por coreanos, japoneses e taiwaneses.

A fonte desses talentos é a quase ilimitada reserva de jovens músicos da China. Um contingente que cresce devido ao aumento da prosperidade do país e ao desejo da sociedade chinesa de competir com o Ocidente.

As escolas de música estão enviando administradores à China em viagens de recrutamento ou realizando concursos de seleção no país. As inscrições online dos chineses para o Conservatório de Música da Nova Inglaterra em Boston duplicaram nos últimos três anos. A Escola de Música Eastman em Rochester, no Estado de Nova York, enviou o seu diretor de admissão à China em uma missão de sondagem em outubro passado, e a escola tem cerca de cem candidatos chineses para o ano que vem, o dobro do número registrado uma década atrás.

Lin Yaoji, um famoso professor de violino do Conservatório Central de Música em Pequim, não mede esforços para que os seus alunos mais brilhantes estudem no exterior na primeira oportunidade que surja. Ele diz que colocou vários desses alunos nas principais escolas de música da Alemanha e dos Estados Unidos. "Não é a nossa própria música e, portanto, não podemos fazer com que eles sintam que a música é deles", diz o professor. "Por isso, eles precisam ir para o exterior".

Assim, no Instituto Curtis, sete dos 20 alunos de piano são nascidos na China. Graffman, o ex-presidente, que ainda leciona lá, diz que quatro dos seus cinco atuais alunos são chineses, incluindo Yuja Wang, que toca com grandes orquestras do mundo. Um outro aluno, Hao Chen Zhang, 16, aprendeu a interpretar os dez prelúdios Opus 23 de Rachmaninoff durante o feriado de Natal.

"Não é brincadeira", diz Gary Graffman, o ex-presidente do instituto e membro da geração de virtuoses do piano que brilharam na década de 1950, como Eugene Istomin, Byron Janis e Leon Fleisher. "Essa garotada aprende, francamente, em uma semana aquilo que eu e os meus colegas demorávamos três meses para aprender".

Desafiando os estereótipos, o talento não se restringe ao piano e ao violino. Um dos mais brilhantes jovens expoentes da exigente divisão pré-universitária da Escola de Música Juilliard é um clarinetista de 16 anos de Guangzhou, Weixiong Wang, aluno do primeiro ano secundário da Escola Profissional para Crianças em Nova York.

Weixiong teve contato com o clarinete aos dez anos, estudou em um conservatório local e, durante um festival de clarinete em Xangai, conheceu um professor de clarinete da Juilliard que o convidou para estudar em Nova York, aos 13 anos de idade. Assim como vários jovens alunos chineses, ele veio com a mãe e mora com ela em um apartamento de dois quartos em Elmhurst, Nova York. A mãe trabalha fazendo retratos em um shopping center. O pai de Weixiong morreu em um acidente de carro há cinco anos.

O atual professor de Weixiong, Alan R. Kay, chama-o de "um talento tremendo", afirmando que o garoto é um intérprete natural e um dos cinco melhores alunos que já teve em 20 anos de profissão. "É raro encontrar alguém que seja tão bom nessa idade", diz Kay. "Ele é sem dúvida um grande músico".

Weixiong já ganhou quatro concursos locais, incluindo um da Escola de Música Juilliard. "Quando eu tinha 11 anos, o meu sonho era vir para os Estados Unidos", diz ele. "Darei o melhor de mim para praticar com bastante afinco, de forma que possa me tornar um solista".

Em um sábado de fevereiro, Weixiong deu um curto recital na Juilliard. Somente cerca de 15 pessoas assistiram. A mão de Weixiong, que estava ajudando uma amiga grávida com a sua mudança, não pôde comparecer.

Ele subiu ao palco usando um terno escuro e uma camisa aberta no pescoço. Um jovem alto com cabelos em desalinho que caem sobre os olhos. Ele interpretou a "Premiere Rhapsodie" de Debussy, uma bela peça feita de notas suaves, altas e fluidas, que exigem extremo controle por parte do intérprete. Weixiong tocou com maturidade, emitindo sons completos e ressonantes, e movimentando-se simpaticamente com a música.

Na peça seguinte, uma sonata de Joseph Horovitz, ele acrescentou glissandos e inflexões jazzísticas. "O meu desafio é acalmá-lo", disse mais tarde Kay. "Ele gosta muito de atrair atenção. Estou tentando ensiná-lo a ter dignidade".

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