UOL Notícias Internacional
 

06/04/2007

China se volta para o Brasil para saciar sua crescente fome por soja

The New York Times
Joshua Schneyer, no Brasil, e David Barboza, em Xangai, contribuiram com reportagem para este artigo
Por mais de 2 mil anos, os chineses usaram a soja para fazer tofu, uma base da dieta do país. Mas à medida que sua economia cresce, também cresce o apetite da China por carne de porco, frango e bovina, que exigem um volume maior de soja como ração animal. Atormentada por reservas limitadas de água, a China está se voltando para um novo parceiro comercial a 24 mil quilômetros de distância - o Brasil - para fornecer mais dos grãos ricos em proteína essenciais para uma dieta mais rica.

A busca global da China por recursos naturais está levando a uma transformação do comércio agrícola por todo o mundo. O desaparecimento de terras cultiváveis e a diminuição das reservas de água estão impedindo a capacidade da China de alimentar a si mesma, e o crescente uso de terras cultiváveis nos Estados Unidos para produção de biocombustíveis como o etanol está levando a China a buscar mais produtos agrícolas na América do Sul, onda as terras ainda são baratas e abundantes.

"A China está lá sondando", disse Robert L. Thompson, um professor da
Universidade de Illinois que é um ex-diretor de desenvolvimento agrícola e rural do Banco Mundial. A meta, ele disse, é "assegurar que tenham acesso a contratos de longo prazo para minérios, energia e alimentos".

Antes o maior comércio bilateral de alimentos era entre os Estados Unidos, os maiores exportadores mundiais de alimentos, e o Japão. Mas países com vastas terras cultiváveis disponíveis para expansão, particularmente o Brasil, estão agora correndo para atender a demanda da China, cuja população de 1,3 bilhão é dez vezes maior do que a do Japão.

Os produtores rurais nos Estados Unidos começaram a plantar muito mais milho para o etanol em detrimento de outros produtos, incluindo a soja. Mas os agricultores americanos não estão desistindo de seu papel de líderes no comércio de grãos, lembrando como o embargo americano de grãos pelo então presidente Richard M. Nixon, no início dos anos 70, ajudou a estimular a indústria da soja no Brasil.

Com um sistema muito superior para transporte da produção agrícola para os mercados globais, os produtores rurais americanos ainda desfrutam de muitas vantagens sobre seus novos concorrentes do Brasil e de outras partes do mundo em desenvolvimento. As limitações de infra-estrutura e financiamento do Brasil manterão em fluxo por muitos anos a concorrência para alimentar a China.

As tendências de longo prazo estão despontando agora. No coração da mudança está a concorrência global por terras cultiváveis. O Brasil, que atualmente conta com 70 milhões de hectares cultivados, tem espaço para dobrar suas terras disponíveis para igualar a escala dos Estados Unidos, disseram analistas, mesmo sem desmatar mais da floresta Amazônica.

"Repentinamente você tem um mercado global por terras, uma concorrência entre vários produtos diferentes pela mesma quantidade de terra", disse Sérgio Barroso, presidente das operações brasileiras da Cargill, a maior empresa de venda de grãos do mundo. A indústria da soja do Brasil está perdendo terreno para a cana-de-açúcar para produção de etanol em algumas áreas, ele disse, e está competindo com o milho, algodão e gado.

"Se forem somados alimentos e rações", disse Barroso, "será um tremendo desafio".

As expectativas aumentaram há três anos quando Hu Jintao, presidente da
China, visitou a América do Sul e fechou uma "parceria estratégica" com seu par brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, prevendo que o comércio entre os dois países dobraria para US$ 20 bilhões. A China prometeu US$ 10 bilhões em investimentos, a maioria em infra-estrutura.

Mas os brasileiros se decepcionaram com o que se seguiu. Os chineses têm enfrentado dificuldades com a burocracia no Brasil e hesitam enquanto aguardam pelas regras brasileiras para ativação dos investimentos
público-privados. "Muito pouco aconteceu", disse Pedro de Camargo Neto, um ex-secretário do Ministério da Agricultura do Brasil, que agora é um consultor de agronegócios.

Mas a China manteve suas compras no Brasil. O comércio de soja entre os países explodiu. No ano passado o Brasil enviou quase 11 milhões de toneladas de grãos para a China, um aumento de 50% em comparação ao ano anterior e quase o dobro da quantia enviada em 2004. Os primeiros indícios são de que o Brasil produziu outra safra recorde e os analistas esperam que a China devore grande parte do aumento.

Sinais de tensão

Apesar dos Estados Unidos continuarem sendo os maiores produtores de soja, no ano passado o Brasil se tornou o maior exportador. Neste ano os Estados Unidos recuperarão a coroa, mas as exportações americanas de soja deverão cair 23% na safra 2009-2010, segundo o Departamento de Agricultura.

Mas apesar de todos os ganhos aqui, o aumento das exportações para a China criou um desconforto entre muitos na agricultura brasileira, que temem que o crescente relacionamento acelerará um modelo de desenvolvimento no qual o Brasil ficará dependente demais da venda de matérias-primas em vez de produtos de valor mais alto. E após desfrutar por muito tempo de superávits comerciais com a China, o comércio entre os dois países entrou em déficit no mais recente trimestre, assim que a China aumentou suas exportação para o Brasil de bens manufaturados.

O desafio de fornecer à China já está exibindo sinais de tensão. O boom da soja se transformou em fracasso nos últimos dois anos para muitos
agricultores aqui no Mato Grosso, um Estado da região Centro-Oeste do Brasil do tamanho do Texas e Kansas que produz mais de um terço da soja do país.

Perto de Rondonópolis, Rogério Salles assistiu recentemente um punhado de
ceifeiras-debulhadoras colherem o que restava da soja de sua fazenda de 7 mil hectares cercada por eucaliptos e seringueiras. "O fato de estarmos produzindo muitos grãos aqui não significa que estamos ganhando dinheiro", ele disse.

A valorização da moeda brasileira e o gargalo no sistema de transporte estão conspirando contra muitos produtores rurais do Mato Grosso. Grande parte da produção é transportada por caminhão para o sul por mais de 1.600 quilômetros de estradas esburacadas de duas pistas. Nos principais portos de exportação, alguns navios esperam no mar até um mês até poderem encontrar um espaço para atracarem e serem carregados.

"Se não forem feitos grandes investimentos na infra-estrutura de transporte, a China não poderá contar com esta região como uma fornecedora estável para seu mercado", disse Salles. "Muito depende disto."

Custo Brasil

O transporte da soja do Mato Grosso aos portos no litoral brasileiro custa mais de quatro vezes o que os produtores rurais americanos gastam para transportar os grãos do Meio-Oeste para Nova Orleans e à costa do
Noroeste-Pacífico. Como resultado, os agricultores brasileiros recebem muito menos pelo que produzem que seus pares americanos.

O setor agrícola brasileiro é dominado por grandes investidores que compram imensas áreas de terras por preços baratos, e por vendedoras de grãos multinacionais - como a Cargill, com sede em Minneapolis, e a Archer Daniels Midland, com sede em Decatur, Illinois- que constroem silos de armazenagem, fornecem financiamento e arrumam compradores no exterior.

Por meio de seu Grupo Maggi, Blairo Maggi, o governador do Mato Grosso, é o maior produtor de soja do mundo e um importante financiador, com mais de 160 mil hectares de suas terras cultivadas.

"Tudo se resume a adquirir terras no Brasil", disse Daniel W. Basse,
presidente da AgResource, uma consultoria de pesquisa agrícola.

Para os agricultores no Mato Grosso, a prosperidade ultimamente tem sido difícil. Os produtores do Estado contraíram US$ 14,5 bilhões em dívidas nos últimos dois anos. Os produtores rurais dizem que não podem mais arcar com espaço de armazenagem, o que os força a vender sua produção tão logo é colhida, em vez de esperarem por preços mais altos.

"Você realiza todo o trabalho, planta os produtos certos", disse Salles, o agricultor local. "Mas mesmo quando você faz tudo certo, você ainda assim perde."

O desespero dos produtores rurais permitiu que as grandes vendedoras de grãos fortalecessem seu controle. Os produtores rurais brasileiros dizem que pagam 25% a mais por material como fertilizantes, fornecidos pelas grandes vendedoras, que são pagos com grãos. "Nós estamos nos tornando escravos das grandes empresas de comércio", disse Ricardo Tomczyk, outro fazendeiro de Rondonópolis.

José Luiz Glaser, o diretor de soja da Cargill Brasil, disse que a empresa deixou de financiar muitos fazendeiros no Mato Grosso no ano passado após estes deixarem de pagar suas dívidas.

Tais produtores rurais órfãos em breve poderão encontrar novos benfeitores chineses, que estão buscando penetrar no clube fechado da agricultura brasileira, disse Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil-China.

Os produtores rurais brasileiros dizem que considerarão o investimento chinês bem-vindo. Mas temem a crescente influência da China como compradora de soja. As lembranças ainda estão frescas do incidente da "soja vermelha" de 2004, quando a China rejeitou vários carregamentos de soja brasileira após alegar que estavam contaminados.

Para tentar compensar a influência chinesa, os produtores brasileiros estão trabalhando com produtores americanos para diversificar seus compradores. Os produtores de soja americanos organizaram uma missão comercial conjunta com os produtores do Mato Grosso para a Índia, em dezembro, outro mercado com imenso crescimento potencial.

Negociação direta

Os chineses querem negociar diretamente com os produtores rurais brasileiros, contornando as vendedoras internacionais de grãos. Apesar de ainda não terem feito nenhuma grande compra de terras no Brasil, eles estão procurando investir na melhoria de instalações e do antiquado sistema ferroviário, que não passa por melhorias significativas desde os anos 30.

A China começou a procurar por mais soja no exterior em meados dos anos 90, quando a extensão de seus problemas de terras cultiváveis e água se tornou mais clara. Pequim também passou usar uma maior parte de suas terras cultiváveis para plantar frutas, verduras e legumes, produtos que podem fazer melhor uso da mão-de-obra barata da China e das limitações de água para gerar maiores retornos no mercado exportador.

No norte da China, onde a soja tradicionalmente é cultivada, os lençóis freáticos estão encolhendo em uma taxa de 90 centímetros a 3 metros por ano, segundo Wu Aimin, um pesquisador do Centro de Informação de Águas Freáticas da China, em Pequim.

"É necessário mil toneladas de água para produzir uma tonelada de grãos", disse Lester R. Brown, presidente do Earth Policy Institute, um grupo de pesquisa e defesa ambiental. "Assim, a forma mais eficiente de importar água é na forma de grãos." George El Khouri Andolfato

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