UOL Notícias Internacional
 

10/04/2007

Na Venezuela, aumenta o risco de confronto em torno do petróleo

The New York Times
Simon Romero e Clifford Krauss

Em Caracas, Venezuela
Com o estabelecimento pelo presidente Hugo Chávez do prazo de 1º de maio para um plano ambicioso para tomar o controle de vários importantes projetos de petróleo de empresas americanas e européias, aumenta o risco de um confronto aqui em torno do acesso a alguns dos mais cobiçados recursos de energia fora do Oriente Médio.

Indo além de ameaças vazias de cortar todas as exportações de petróleo para os Estados Unidos, as autoridades recentemente aumentaram a pressão sobre as companhias de petróleo que operam aqui, alertando que poderiam vender as refinarias americanas destinadas a processar o óleo cru venezuelano enquanto buscam novos mercados na China e em outras partes do mundo.

"Chávez está fazendo o jogo do medroso com as grandes companhias de petróleo do mundo", disse Pietro Pitts, um analista de petróleo que publica o "LatinPetroleum", uma revista setorial com sede aqui. "E por ora ele está ganhando."

Mas este confronto poderá facilmente terminar com todos perdendo. As maiores empresas de energia poderiam ser afastadas da área mais promissora de petróleo no hemisfério Ocidental. Mas a Venezuela corre o risco de minar o motor por trás da revolução socialista de Chávez ao atrapalhar sua capacidade de transformar o recém valioso óleo pesado do país em riquezas nos anos futuros.

Enquanto Chávez assume maior controle sobre a indústria do petróleo da Venezuela, sua empresa estatal, a Petróleos de Venezuela, já está exibindo sinais de desgaste. Sua administração se tornou cada vez mais politizada e o dinheiro para manutenção e desenvolvimento está sendo desviado para cobrir o aumento dos gastos públicos.

Durante as últimas décadas, o controle das reversas mundiais de petróleo tem constantemente passado de empresas privadas para empresas estatais como a Petróleos de Venezuela. Segundo um novo estudo da Universidade Rice, 77% dos 1,148 trilhão de barris em reservas comprovadas do mundo estão nas mãos de estatais; 14 das 20 maiores companhias produtoras de petróleo são estatais.

As implicações são potencialmente preocupantes para os Estados Unidos, que importam 60% de seu petróleo. As estatais tendem a ser bem menos eficientes e inovadoras, além de muito mais politizadas. Nenhum local é mais representativo da mudança de poder para governos nacionalistas do que a Venezuela.

"Nós estamos em rota de colisão com Chávez em torno do petróleo", disse Michael J. Economides, um consultor de petróleo em Houston que escreveu um ensaio influente comparando o apelo populista de Chávez na América Latina ao pan-arabismo do coronel Muammar Gaddafi da Líbia há duas décadas. "Chávez representa uma ameaça muito maior à segurança de energia da América do que Saddam Hussein jamais representou."

Considere o dilema diante da Exxon Mobil após seu presidente, Rex W.
Tillerson, ter sugerido recentemente que a Exxon poderia ser forçada a abandonar um grande projeto de petróleo venezuelano devido aos seus crescentes problemas com Chávez.

No dia seguinte, agentes venezuelanos invadiram os escritórios da Exxon aqui nas torres San Ignacio, um baluarte da elite de negócios deste país. O governo disse que a invasão fazia parte de uma investigação fiscal, mas analistas de energia disseram que a troca de ameaças foi bastante clara.

Política e ideologia estão promovendo o confronto aqui enquanto Chávez busca limitar a influência americana ao redor do mundo, começando pelos campos de petróleo da Venezuela. Chávez considera o governo Bush como uma ameaça, em parte por ter apoiado indiretamente um golpe que o removeu brevemente do poder há cinco anos. Mas os Estados Unidos continuam sendo os maiores compradores da Venezuela.

Chávez decretou recentemente que a Venezuela assumiria o controle dos campos de petróleo pesado no Cinturão do Orinoco, uma região a sudeste de Caracas com tanto potencial que alguns especialistas dizem que poderia dar ao país mais reservas que a Arábia Saudita. A Pesquisa Geológica dos Estados Unidos descreve a área como a de "maior acúmulo de hidrocarbonetos no mundo", o que a torna altamente cobiçada apesar das políticas erráticas de Chávez.

Ao estabelecer o prazo de 1º de maio para que alguns executivos de petróleo estrangeiros considerem uma expropriação, o líder venezuelano corre o risco de perder a Exxon, ConocoPhillips e outras empresas, que odiariam colocar seus funcionários e bilhões de dólares em ativos sob a administração venezuelana.

Uma partida de perícia e investimento poderia enfraquecer um setor de petróleo já abalado pela sua transformação na principal ferramenta de Chávez para promover sua reconfiguração da sociedade venezuelana.

Com os altos preços do petróleo, países ricos em petróleo tão diversos como Angola, Noruega e Rússia também estão aguardando para ver como as negociações se desdobram. Governos no Cazaquistão e na Nigéria também estão tentando negociar melhores termos com as companhias de petróleo estrangeiras. Mas nenhum o está fazendo com o mesmo tom revolucionário de Chávez.

"É um momento definidor", disse Christopher Ruppel, um analista de risco geopolítico da John S. Herold, uma firma de consultoria de energia.

Na semana passada, Rafael Ramirez, o ministro da energia da Venezuela, enviou um sinal preocupante para as companhias de petróleo, dizendo que a Venezuela poderia vender as refinarias no Texas e na Louisiana que processam o óleo cru dos campos de petróleo venezuelanos da Exxon. Os analistas disseram que a Venezuela poderia estar se preparando para produzir bem menos petróleo em empreendimentos com empresas americanas para exportação aos Estados Unidos.

As companhias de petróleo se recusam a falar publicamente sobre as negociações, mas pessoas do setor disseram que a Exxon e a ConocoPhillips, duas das maiores empresas americanas na Venezuela, não querem ceder. Mas as companhias carecem de uma frente unida: a Chevron deverá aceitar os termos de Chávez, já que também está negociando o acesso a um grande projeto de gás natural na Venezuela.

"Se as majors querem negociar um acordo, eles devem permitir que Chávez salve as aparências e pareça ter vencido a disputa perante a população", disse Michael S. Goldberg, chefe do grupo de solução de disputa internacional da Baker Botts, uma firma de advocacia em Houston que representa muitas das grandes companhias de petróleo ao redor do mundo.

Ninguém vê uma crise imediata na Petróleos de Venezuela. Mas seus lucros com os altos preços do petróleo mascaram a terrível complexidade e os altos custos de produção do óleo pesado.

Enquanto isso, a empresa reconheceu no mês passado que os gastos em "desenvolvimento social" quase dobraram em 2006, para US$ 13,3 bilhões, enquanto seus gastos em exploração mal acompanham a de seus pares mundiais. E a força de trabalho da Petróleos de Venezuela inchou para 89.450, um aumento de 29% desde 2001, apesar do declínio da produção.

Analistas independentes estão alarmados com o aumento das explosões e acidentes no setor de refino durante os últimos dois anos, com a hipótese de sabotagem descartada pelas autoridades. Ramirez, o ministro da energia, recusou os repetidos pedidos de entrevista.

Com o aumento do consumo doméstico de petróleo altamente subsidiado, o governo gasta cerca de US$ 9 bilhões para manter os preços da gasolina abaixo de 20 centavos de dólar o galão (3.785 litros). Além disso, Chávez usa a Petróleos de Venezuela para financiar outras nacionalizações, como sua compra de US$ 739 milhões de uma companhia elétrica em Caracas da AES Corporation.

O dinheiro da Petróleos de Venezuela estaria acabando enquanto Chávez utiliza seus lucros para cimentar alianças políticas com Bolívia, Cuba e Nicarágua. A empresa tomou mais de US$ 11 bilhões em empréstimos desde o início do ano, um rápido aumento do endividamento que reflete a aposta de Chávez de que os preços do petróleo permanecerão altos.

"O pior inimigo do governo venezuelano não poderia encontrar uma forma melhor para destruir a indústria do petróleo da Venezuela", disse um analista de petróleo estrangeiro daqui, que insistiu em permanecer anônimo por temer retaliação. "Parece que eles se enforcarão com sua própria corda." George El Khouri Andolfato

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