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11/04/2007

A alma do Marrocos

The New York Times
Seth Sherwood
Um estranho equipamento, ornado e enigmático, paira sobre as carroças movidas a mula e as massas vestidas com djellabas que diariamente passam pela Talaa Kebira, a Broadway de Fez, cidade marroquina de 1.200 anos. Incrustada na parede elevada da mesquita Bou Inania do século 14, bem em frente a um açougueiro halal e seus carneiros sem pele dependurados, 12 janelas finamente esculpidas pairam sobre 13 blocos de madeira talhada, onde há muito tempo atrás eram dispostas 13 tigelas de bronze.

Ed Alcock/The New York Times 
Pelas ruas maltratadas de Fez, artistas vendem peças de cerâmica típicas dessa região

À primeira vista, esse conjunto poderia ser apenas mais um dos floreios arquitetônicos que adornam tantas das instituições religiosas medievais tão suntuosamente decoradas. Mas as coisas em Fez raramente são tão simples como parecem. Esse conjunto de janelas, blocos e tigelas, acredita-se, foi concebido como parte de um intrincado relógio, que funcionava à base de água corrente e que soava nas horas de oração - embora ninguém saiba ao certo se isso é verdade.

O mecanismo, se é que existiu, se perdeu no tempo. Seu princípio operacional não pode mais ser decifrado. De acordo com a lenda local, a máquina enigmática foi projetada por um mágico.

Esse dispositivo é um símbolo adequado para Fez, uma cidade cujas ruas maltratadas e empoeiradas escondem toda espécie de belas relíquias abandonadas. Como o relógio movido a água, Fez parece ter parado de marcar o avanço das horas já há alguns séculos (descontando os telefones celulares e alguns eventuais uniformes de futebol). E como o relógio d'água, a labiríntica cidade dos minaretes, com suas imagens encobertas e corredores esquecidos, pode parecer impossível de se decifrar - ainda que seja revestida de um encantamento profundo.

"É um lugar misterioso", diz Abdelfettah Seffar, artesão e empreendedor cultural, no telhado de uma bela, porém dilapidada, construção moura do século 18 que está transformando em ampla pousada e espaço para artes. "É mesmo um lugar místico."

Ao nosso redor, galos cantando e gritos em árabe e francês reverberavam pelas ruas congestionadas - completamente livres de automóveis e ocupadas apenas pelas máquinas mais simples - tendo à distância a fumaça das velhas oficinas de cerâmica da cidade.

Mais distante, além das trincheiras da cidade, um fulgor de fim de tarde iluminava as colinas com os túmulos dos sultões merenitas, que governavam a idade dourada de Fez no século 14. "Fez continua igual à cidade medieval que era naquela época", prossegue, assinalando o contraste entre sua cidade natal e sua irmã e rival, a badalada Marrakesh que está em franco progresso. "Nós estamos um pouco assustados com o que ocorreu em Marrakesh. Fez é a alma de Marrocos. É o último bastião do verdadeiro Marrocos."

Decadente mas digna, em desintegração, porém orgulhosa, a cidade de Fez entre muros possivelmente é o maior e mais duradouro assentamento islâmico medieval no mundo. Representa sem dúvidas o coração espiritual e cultural de Marrocos.

Basta apenas você prestar atenção à procissão diária de fiéis portando velas e entrando no túmulo do fundador da cidade, Moulay Idriss II - o suposto neto do tataraneto do profeta Maomé - para sentir a conexão da cidade com seu passado. Uma simples conferida na universidade de Karaouine,do século nove, notoriamente reconhecida como a mais antiga instituição de ensino superior no mundo, reafirma essa impressão.

Enquanto Marrakesh abriu clubes de natação ao estilo Saint-Tropez e filiais de clubs da noite de Ibiza, Fez se voltou mais profundamente para sua história, reformando obras-primas da arquitetura e criando novos festivais devotados às ricas tradições culinárias e musicais da cidade.

Mas mesmo quando se mostra, Fez ainda é uma cidade secreta. Muros altos sem janelas escondem passagens estreitas adornadas com caracteres árabes que fluem, impenetráveis para os estrangeiros. Muitos homens estão encapuzados, muitas mulheres usam véus. Em suas centenas de mesquitas, proibidas para não-muçulmanos, a reza acontece fora da vista do público. Amuletos protegem o mundo oculto dos espíritos dos djinns (gênios). "Um labirinto encantado protegido do tempo", assim era a descrição reverente elaborada pelo escritor Paul Bowles, que viveu em Tanger.

Fez nos fala por meio de símbolos. Poucos lugares na terra parecem assim tão possuídos por significados ocultos - seja nas padronagens dos tapetes tecidos a mão; nos rostos tatuados das camponesas berberes; nos redemoinhos cósmicos do gesso esculpido em sua arquitetura; nas vozes dos tradicionais cantores sufi e gnawa; nas técnicas dos artesãos peritos; nos ingredientes de sua cozinha.

Como um gigantesco texto antigo, Fez requer uma exegese, um comentário. Ao observador casual, pode parecer uma frustrante mistura de corpos, animais, vozes indecifráveis e desenhos estranhos.

Para a pessoa que aprendeu seus códigos e sua erudição, a confusão de aglomerados começa a fazer sentido. Os padrões de repente se encaixam. As cores irradiam um significado. As formas geométricas transmitem idéias. Cada número contém um encanto. Cada sabor inclui um pouco de história.

"As pessoas acham Fez muito confusa", diz Ali Alami, um guia de cabelos encaracolados e roupa preta, enquanto me pastoreava pelos caminhos sempre bifurcantes da medina - a velha cidade - num dia azul radiante de fevereiro. (Fez tem também uma cidade moderna, construída pelos colonizadores franceses no princípio do século vinte, mas essa mal vale uma conferida.)

Abarcando mais de 9.000 ruas e um milhão de residentes dentro de seus domínios gastos pelo tempo, a labiríntica medina faria até mesmo um minotauro considerar uma mudança de carreira. Uma guia, tanto para suas ruas como para suas camadas escondidas, é "de rigueur". O primeiro segredo para desvendar Fez, diz Alami, pode ser chamado de "a regra do cinco".

Na dimensão geográfica, "há na verdade cinco anéis concêntricos", diz o guia. "No centro estão os lugares religiosos. Depois vêm os locais de trabalho, como os souks. Vêm então as áreas residenciais. Depois aparecem os muros da cidade. Além deles estão os jardins e os cemitérios."

Muito hábil no inglês (por ter estudado a literatura anglófona), Alami explicou que este número sagrado permeia vários aspectos da vida diária. Cinco são as chamadas para se rezar todos os dias. Há cinco colunas do Islã para se observar. Em cada vizinhança há cinco instituições obrigatórias - uma mesquita, uma escola, uma fonte compartilhada, um forno de pão comunitário e uma sauna (o hammam). Cinco tipos de acabamento - em mármore, mosaicos, cedro esculpido, gesso cinzelado e inscrições caligráficas - tipicamente adornam os prédios religiosos.

Na medersa Sahrij do século quatorze, uma das muitas escolas do Alcorão em Fez construídas com requintes artísticos, Alami se aproximou de incríveis mosaicos nas paredes e começou a correr o dedo tocando o desenho como um estudioso literário lendo poesia. Cada uma das cinco cores do telhado, ele diz, foram escolhidas propositadamente: "O azul é o céu, branco é a pureza, preto é a profundidade, amarelo é riqueza, e o verde é o Islã."

O imenso motivo colorido, o guia observa, se expande a partir de uma estrela de oito pontas. A figura representa Alá, "porque se acredita que o paraíso tem oito portas" no Alcorão, ele diz. "Um desenho, repetido muitas vezes, significa a unidade de Deus." Para minha iniciação na cuisine de Fez, eu procurei Lahcen Beqqi. Com 30 anos recém-completos, este chef baixinho e sempre sorridente vem comandando cozinhas de alguns dos mais importantes restaurantes da emergente cena gastronômica de Fez, e agora ocupa seu nicho como guia e guru culinário para os estrangeiros. Ele lhes ensina a comprar produtos nos bazares (souks), explica a função de liga dos ingredientes marroquinos e ajuda-lhes a preparar um genuíno banquete real.

A origem de seu know-how gastronômico, explica o chef, vem da mãe, que organiza um festival anual do couscous no sudeste de Marrocos, perto da pequena aldeia nas montanhas onde Beqqi e seus nove irmãos cresceram. "Ela é a rainha do couscous", diz Beqqi.

Suas lições representam muito mais que meras noções de corte e aquecimento. Enquanto outros cozinheiros podem encarar um tagine marroquino considerando-o como uma embarcação cônica de argila com cordeiro cozido, limões caramelados, nozes e temperos, Beqqi vê no prato a história multiétnica de sua terra natal. Servindo um tagine quente numa certa tarde, Beqqi explicou a ancestralidade tão distinta do prato.

"Primeiramente, há uma influência berbere", disse o chef, se referindo à tribo indígena do norte da África - a tribo dele- que antecedeu o desembarque dos árabes no sétimo século. "O tagine e o couscous são ambos originalmente típicos pratos berberes. Há também uma influência romana, notadamente no uso da cerâmica para cozinhar."

Os árabes, segundo o chef, trouxeram muitos temperos do leste - como gengibre, açafrão, canela, noz-moscada. O vinho tinto muito bom de Marrocos, segue Beqqui, é produzido em sua maior parte na vizinha Meknes e deve sua existência em grande parte aos franceses. "Há também muita influência judaica nos métodos de preparo dos ingredientes, especialmente no uso de vegetais e das compotas de frutas".

À noite, enquanto caía profunda escuridão sobre a escura medina, o grito noturno dos muezzin a conclamar à oração deu lugar a outra melodia sagrada. De uma casa lá nas profundezas das ruas ziguezagueantes, vozes alegres se erguem, acompanhadas por palmas rítmicas. Brahim Tidjani, descendente do profeta Maomé e líder de uma das mais reverenciadas ordens Sufi, conduzia seus confrades numa canção ritual.

Para os sufis, os mais místicos seguidores do Islã, Fez tem sido há muito tempo uma terra santa. Recantos da medina são ocupados por santuários Sufi conhecidos como zaouias, onde os confrades se encontram, rezam e cantam. Seus hinos compõem a trilha sonora de Fez, o equivalente sonoro da espiritualidade profunda da cidade.

Durante tais encontros, "as pessoas de repente se levantam e dançam como se soprasse um vento ou como se vivessem uma espécie de intoxicação espiritual", diz o dr. Faouzi Skali, especialista na cultura sufi com renome mundial, bebendo chá de menta no lobby do neo-sultânico hotel Jnane Palace. "É como se vivêssemos uma enorme expansão da consciência, dentro de uma luz límpida e intensa, em comunhão com Deus."

No início dos anos noventa, em resposta à Guerra do Golfo, Skali lançou o Festival Mundial da Música Sagrada, como forma de celebrar as diversas culturas do mundo e com intuito de favorecer alguma harmonia global. O evento passou a acontecer a cada mês de junho, e se transformou numa espécie de Lollapalooza sagrado, atraindo dervixes turcos, percussionistas japoneses, o mestre indiano da cítara Ravi Shankar e a estrela do pop senegalês Youssou N'Dour (membro da ordem sufi Tidjani). Este ano, será comemorado por lá o 800o aniversário do poeta místico persa Rumi.

Este mês também ocorrerá o lançamento de outro festival ambicioso planejado por Skali. O novo evento está ainda mais perto de seu próprio coração, e da sua tão amada cidade - será o primeiro Festival Anual da Cultura Sufi, de 27 de abril a 2 de maio.

"Este é uma modalidade do Islã que está muito aberta a outras culturas", ele diz, explicando sua esperança de revigorar a fé sufi em Fez e de introduzir as sempre-encobertas tradições do movimento ao público internacional.

"Se as pessoas puderem visitar uma medersa e escutar em diversas línguas discussões sobre poesia, caligrafia e música sufi, terão compreendido algo sobre a alma do Islã", disse Skali enquanto seu chá fumegava cheio de perfume pelo ar. "E terão compreendido algo sobre a alma de Fez." Marcelo Godoy

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