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12/04/2007

Arqueólogo coloca em dúvida alegação de roubo na França

The New York Times
Michael Balter

Em Les Eyzies-de-Tayac, França
A poucos quilômetros rio acima desta aldeia de telhados vermelhos na região de Périgord, no sul da França, o sinuoso Rio Vezere flui além da entrada da Garganta do Inferno. Uma trilha corre ao longo da base de um penhasco de calcário até uma porta de aço trancada. Atrás da porta, que pode ser aberta a um visitante apenas por agendamento, está a mais antiga representação de um peixe já descoberta.

Rodolphe Escher/The New York Times 
Castanet forneceu algumas das primeiras evidências da dispersão do Homo sapiens da África

Há cerca de 25 mil anos, um artista pré-histórico entalhou a escultura em baixo relevo, com cerca de 90 centímetros, no teto amarelado de um abrigo rochoso raso conhecido atualmente com Abri du Poisson. A imagem é tão vívida e detalhada que especialistas foram capazes de determinar sua espécie, Salmo salar, o salmão do Atlântico.

O peixe é emoldurado por um padrão retangular de buracos profundos levemente espaçados que, segundo se conta em Périgord e nos guias à venda no Museu Nacional de Pré-História de Les Eyzies, são marcas de uma tentativa abortada de um arqueólogo suíço de remover esta obra de arte preciosa e vendê-la ao museu de pré-história de Berlim.

Os relatos convencionais do episódio, que remontam a 1912, dizem que o roubo foi impedido a tempo pelos valentes esforços de especialistas franceses em pré-história liderados por Denis Peyrony, um professor local que fundou o museu de Les Eyzies e realizou algumas das escavações arqueológicas mais importantes em Périgord.

Mas em uma noite de março, o arqueólogo Randall White, da Universidade de Nova York, estava diante do atril do auditório de 126 lugares do museu e contou à platéia lotada uma história muito diferente. O arqueólogo suíço, Otto Hauser, era inocente, argumentou White, uma vítima de uma terrível campanha de imprensa que incluiu ataques anti-semitas e antialemães, apesar de Hauser não ser nem judeu e nem alemão.

Como White defende em seu novo livro em francês sobre o escândalo, "L'Affaire de L'Abri du Poisson", a tentativa de roubo do peixe foi de autoria de cidadãos locais franceses, incluindo o proprietário das terras ao redor.

Quanto a Peyrony, White concluiu que ele não foi um campeão da herança cultural francesa. No meio do caso Hauser, Peyrony, que morreu em 1954, vendeu 1.200 artefatos pré-históricos de suas escavações em Périgord para o Museu Americano de História Natural em Nova York por uma soma equivalente ao dobro de seu salário anual como professor.

O livro de White sobre o caso, que é baseado em cinco anos de pesquisa em arquivos franceses, alemães e americanos, é a culminação de mais de três décadas de trabalho arqueológico na França, durante as quais ele se tornou um dos principais especialistas do mundo em pinturas em caverna, esculturas, figuras entalhadas, colares e outros ornamentos pessoais que os humanos pré-históricos produziram aqui aos milhares.

"Ele fez muito para esclarecer a natureza única e sem precedentes da expressão comportamental dos Cro-Magnon", disse Ian Tattersall, o curador de antropologia do Museu de História Natural. "Sua pesquisa nos permitiu entender que ruptura com o passado ela realmente representou."

Atualmente White é diretor de uma equipe internacional que está escavando o sítio de 35 mil anos de Abri Castanet no Vale do Vezere, que foi o primeiro investigado por Peyrony e forneceu algumas das primeiras evidências da dispersão do Homo sapiens da África para a Europa Ocidental.

Peyrony encontrou centenas de ornamentos pessoais e dezenas de pinturas e entalhes em Abri Castanet. As novas escavações de White, financiadas pela Fundação Nacional de Ciência, visam responder várias perguntas não respondidas sobre estas primeiras migrações de humanos modernos, incluindo como e por que eles substituíram os neandertais que viveram na área por dezenas de milhares de anos.

Enquanto isso, o próprio White se tornou um ardoroso defensor da herança cultural francesa e um feroz oponente do comércio de antiguidades. No início de 2006, por exemplo, ele protestou publicamente contra a doação de US$ 200 milhões pelo colecionador de antiguidades Shelby White (sem parentesco) para a Universidade de Nova York, que seriam usados para criar um novo Instituto para o Estudo do Mundo Antigo, baseado no fato de alguns objetos da coleção de Shelby White terem supostamente vindo de escavações ilícitas.

Seu trabalho em ornamentos pessoais o levou a museus de todo o mundo, mas particularmente nos Estados Unidos e Canadá, onde estudou e publicou análises de artefatos da França que ficaram esquecidos por décadas em gavetas empoeiradas. Ao longo dos anos, ele fez da França seu segundo lar, desenvolvendo raízes profundas com o país e sua cultura. Ele passa vários meses a cada ano em Périgord. Recentemente, ele comprou uma casa de pedra de fazenda e vários outros prédios nos 46 hectares de terra nos arredores de Les Eyzies, que ele divide com sua companheira francesa de longa data, Helene Talenton, que é dona de um salão de beleza em uma comunidade próxima.

White é "bem aceito pela comunidade arqueológica francesa", disse Alain Turq, curador do museu de Les Eyzies. "Ele vive aqui e fala nossa língua muito bem, o que é muito importante."

Hoje, a região de Périgord é provavelmente mais conhecida pelos turistas por suas trufas, foie gras e vinho. Mas durante o período Paleolítico Superior, entre cerca de 10 mil a 40 mil anos, as cavernas e abrigos em rocha, abertos pelo Vezere e seus afluentes cerca de dois milhões de anos antes, estavam repletos de atividade artística.

White, 54 anos, que nasceu e cresceu na província de Alberta, Canadá, e manteve sua nacionalidade canadense, veio a Périgord em 1974 como estudante de antropologia da Universidade de Alberta. "Eu me apaixonei pelo sul da França, sua arqueologia e seu ambiente", ele disse. "Eu descobri que era um francófilo."

Para sua tese de doutorado na Universidade de Toronto, White realizou o primeiro levantamento topográfico de todos os 180 sítios conhecidos do período Paleolítico Superior na região. "Eu ainda recebo telefonemas de pessoas me perguntando onde fica este ou aquele sítio", ele disse.

White foi contratado pela Universidade de Nova York em 1981 e no ano seguinte publicou um trabalho na revista "Current Anthropology" que lhe valeu sua reputação. Naquela e subseqüentes publicações, ele argumentou que os humanos modernos foram capazes de substituir os neandertais na Europa não necessariamente porque dispunham de cognição superior, mas porque desenvolveram redes sociais de longo alcance que lhes permitiram uma melhor adaptação às condições locais.

A explosão dramática da arte na Europa do Paleolítico superior, e especialmente a criação de ornamentos pessoais desenhados de forma uniforme, que os primeiros humanos pareciam usar para se identificarem como parte do mesmo grupo - comportamentos que os neandertais exibiam minimante, na melhor das hipóteses - permitiram ao Homo sapiens recém chegados superar seus rivais, argumentou White.

Suas idéias foram contestadas por arqueólogos que acham que a expressão simbólica dos neandertais tem sido subestimada, assim como por pesquisadores que consideram que a suposta "explosão" é na verdade uma continuidade do nascente comportamento simbólico na África que remonta pelo menos 75 mil anos. Todavia, Tattersall, do Museu de História Natural, disse que o trabalho de White demonstrou que "o Paleolítico Superior é um período notável, tanto pela densidade e vividez de suas manifestações criativas quanto pelos contrastes que fornece com as culturas que o precederam".

Os cinco anos que passou pesquisando para seu livro "foram um trabalho de monge", disse Alain Roussot, que foi curador do Museu do Aquitaine, em Bordeaux, de 1962 a 2000 e conhece White desde que começou a trabalhar na França. Roussot, que ajudou a revisar o texto em francês de White, acrescenta que sua investigação foi "muito meticulosa".

Mas nem todos em Périgord estão prontos para aceitar todas as conclusões de White sobre Peyrony e o peixe. "As coisas eram mais complicadas naquela época", disse Turq, do museu de Les Eyzies. "Hauser não fez contribuições permanentes para a arqueologia francesa, enquanto Peyrony investiu seu dinheiro em escavações e construiu o museu em Les Eyzies. Era uma época diferente." George El Khouri Andolfato

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