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13/04/2007

Mal nos estudos, mas brilhante no xadrez

The New York Times
Timothy Williams

Em Nova York
É início da tarde, e já se passaram 20 minutos do sexto período de aula da Escola de Ensino Médio Edward R. Murrow, no Brooklyn. Mas neste dia, Shawn Martinez, aluno do terceiro ano e uma das estrelas do time de xadrez de Murrow no campeonato nacional, está longe.

Enquanto seus colegas decoram a tabela periódica de elementos, recitam Shakespeare ou resolvem equações, Shawn, vestindo um boné marrom do Yankees, distraidamente observa um jogo de xadrez no hall de um prédio em Wall Street. O lugar é ponto para apostadores de xadrez.

Andrea Mohin/The New York Times 
Shawn Martinez foi reprovado em muitas matérias na escola, mas é imbatível no xadrez

Shawn, 16, falta a muitas aulas -"Eu não perdi semanas, perdi meses", diz ele. No entanto, não é um desertor ordinário. Ele é tão dotado como jogador de xadrez que conseguiu um lugar entre os jovens jogadores do país, depois de aprender o jogo apenas quatro anos antes. Ele é vital para as chances de Murrow conseguir seu quarto título nacional consecutivo. O torneio começa na sexta-feira em Kansas City.

Shawn vem a Wall Street jogar um tipo de xadrez chamado blitz - no qual um cronômetro marca três rápidos minutos e, assim, elimina as pausas do xadrez tradicional e transforma o jogo em um esporte febril, cheio de palavras sujas, no qual o dinheiro, não o prestígio, é o principal motivador. Para Shawn, uma aposta alta é de US$ 10 (em torno de R$ 20) por jogo.

"Jogar por dinheiro ajudou-me no jogo", disse Shawn, chamando de "médios" os jogadores que estava observando. "Amo o xadrez com paixão. São todas as situações em que você cai - é a vida para mim. É como a raiva para mim. Às vezes, se não gosto de algo que está acontecendo, posso colocar minha raiva para fora no xadrez."

Murrow não tem times campeões esportivos; seu time de xadrez conhecido nacionalmente é fonte de profundo orgulho na escola.

Apesar de a história de Shawn ter ecos do clássico conto do atleta escolar que tem dificuldades acadêmicas, mas continua no time, é também muito diferente. Em vez de se maravilhar com passes e chutes, seus torcedores falam de defesas e xeques-mate. E ninguém questiona sua inteligência.

Charmoso e engraçado, Shawn tem uma memória de longo prazo impressionante e se defende facilmente dos mais velhos da turma de Wall Street, enquanto tira seu dinheiro. Ele é ao mesmo tempo quieto e exultante, aberto e defensivo e parece facilmente entediado. Ele diz que vai mal nas aulas de inglês, mas fala bem. Durante quase três anos em Murrow, Shawn perdeu tantas classes que só tem foi aprovado em três cursos.

Os administradores da escola dizem que tiveram dificuldades com Shawn, e estão procurando um equilíbrio para engajá-lo em seus estudos sem proibi-lo de exercer sua paixão. Beth Siegel-Graf, vice-diretora de orientação estudantil do Murrow, disse que permitir Shawn competir no time faz parte da estratégia para impedi-lo de largar a escola de todo.

"O que tentamos explicar aos alunos e pais é que aqueles que se saem mal na escola ficam atados ao prédio por causa das atividades extracurriculares", disse ela. "Tentamos usar essas atividades como um gancho."

Shawn, como muitos grandes jogadores, foi abençoado com a combinação de uma memória visual impressionante e uma capacidade de praticamente ver o futuro, prevendo vários resultados em poucos segundos.

Nos últimos dois anos, o jovem fez seu índice da Federação de Xadrez dos EUA subir em mais de 100 pontos, para 2.028 - o que o levou ao ranking de especialista, um nível abaixo de mestre, e ao 19º lugar entre os jogadores de 16 anos de idade. Durante o mesmo período, entretanto, ele repetiu todas as aulas.

Seu relacionamento com o xadrez resume suas contradições. Ele adora o jogo, mas em um momento de candura ele disse que tinha arruinado sua vida. Ele tinha boas notas até a sexta-série, disse, mas repetiu a sétima - ano que começou a jogar. E discordou da opinião dos adultos que se beneficia de seu relacionamento com o jogo.

"Fiquei viciado em xadrez", disse ele. "Eles acham que fez algo por mim, mas não. O xadrez não salvou minha vida. Eles querem fazer parecer que sou um garoto do gueto, e posso jogar xadrez e isso é especial. Por que tem que ser assim? É embaraçoso. Eles me comparam ao meu ambiente - a forma como me visto para o xadrez. Você não tem que ser a pessoa mais inteligente do mundo para jogar xadrez."

Siegel-Graf disse que Shawn teve permissão de acompanhar seus colegas do time no avião para Missouri nesta semana, após prometer que, desta vez, vai começar a freqüentar regularmente a escola. Shawn fará 17 anos no dia 24 de abril -11 dias após o início do torneio nacional- e Siegel-Graf disse que fez um acordo com ele no qual, apesar de estar tecnicamente inscrito em Murrow, vai começar a fazer aulas para se preparar para o diploma GED.

Entre os empresários e turistas de Wall Street, Shawn chama a atenção com seu boné do Yankees, jeans baggy e camisa velha vermelha e preta da Nike, mas se mistura facilmente com os corretores de ações e outros que vêm jogar.

Eles desafiam Shawn e perdem dinheiro, mesmo depois de ele adverti-los que é especialista. "O que eu faço é deixá-los pensar que podem me derrotar", disse ele, apesar de negar determinadamente ser trapaceiro. "É um jogo, e cada um joga assumindo seu próprio risco."

Jogar xadrez por dinheiro é uma zona cinzenta da lei. O estatuto do Estado geralmente proíbe apostar em "jogos de azar", mas não está claro se o xadrez cai nesta categoria. O porta-voz do Departamento de Polícia não respondeu a um pedido para esclarecer a questão.

Shawn foi tirado de sua mãe natural quando tinha uma semana de idade, porque ela usava cocaína e crack. Lídia Martinez, viúva que é mãe adotiva de Shawn, disse que, ao ver o menino de uma semana, soube imediatamente que queria adotá-lo. Entretanto, Martinez admitiu que, como todos os outros, não conseguiu fazer com que seu filho freqüentasse as aulas. "Ele se acha esperto demais para a escola", disse ela.

Shawn diz que se lembra de seu pai natural, que morreu quando ele tinha dois anos de idade. Ele diz lembrar-se até de seu primeiro aniversário.

Em Murrow, Shawn é o terceiro melhor jogador de xadrez, atrás dos mais antigos Alex Lenderman e Sal Bercys, que estão entre os principais 2.000 jogadores do mundo. Os dois aparecem com proeminência no livro de Weinreb, e Shawn aparece em menos passagens. Numa delas, ele é descrito como "monossilábico" e incapaz de abaixar a guarda.

"O menino era um enigma desde o primeiro ano do ensino médio", escreveu Weinreb. "Ele tem um dom, isso está claro, e conseguiu descobri-lo em meio a uma vida cheia de desapontamentos, como tantas outras na cidade."

Alex e Sal jogam desde o jardim de infância, têm técnicos particulares e extensiva experiência em torneios. Enquanto isso, Shawn alega que nunca abriu um livro de xadrez. "Nunca estudei um livro na minha vida", disse ele. "Acho chato demais". Shawn disse que aprende jogando, freqüentemente contra oponentes on-line. Ele gosta de um estilo agressivo, que emprega seus peões como atacantes.

"Quando você coloca os peões juntos, nada os detém", disse ele. "Você coloca dois ou três juntos, e eles praticamente controlam todo o jogo. As pessoas me reconhecem pelos peões." Deborah Weinberg

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