UOL Notícias Internacional
 

13/04/2007

Um plano para domar o caos arquitetônico da capital da Índia

The New York Times
Amelia Gentleman

Em Nova Déli
É o final da manhã no bairro de Pahar Ganj, próximo da estação ferroviária de Nova Déli no coração da capital, e as alamedas estreitas estão repletas de comércio. Mas as autoridades municipais vêm este trecho de terra abarrotado e vibrante como a representação de tudo o que está errado na cidade.

Uma nova visão do governo para a capital, o Plano Diretor de Déli, propõe que a área seja demolida e substituída por prédios de apartamentos para lidar com o crescimento fora de controle da cidade.

A população da cidade deverá crescer dos atuais 15 milhões de habitantes para 23 milhões até 2021. Se o plano do barão Haussmann para transformação de Paris se apoiava na substituição das alamedas lotadas por amplos bulevares desobstruídos, o ministro para o desenvolvimento urbano da Índia, Ajay Maken, sonha em criar espaço para abrigar a explosão populacional por meio da verticalização.

Seu Plano Diretor 2021, que entrou em vigor em fevereiro, é uma brava tentativa de lidar com um problema urgente: como transformar uma cidade caótica, congestionada, em uma "metrópole global", digna de representar as ambições da Índia de se tornar a próxima superpotência asiática? A resposta se resume a três princípios básicos: a demolição dos cortiços, o controle do tráfego e a importação de uma silhueta como a de Manhattan.

Como está, Déli é o pesadelo do planejador. Passando a área cuidadosamente estabelecida, verde, de Nova Déli - uma área dentro da metrópole de Déli que abriga o governo nacional, a elite da cidade e os melhores hotéis - se encontra uma anarquia arquitetônica.

O governo estima que 60% dos habitantes da cidade vivem em moradias ilegais - em cortiços, em moradias não autorizadas ou em prédios não planejados e inseguros.

Como estas áreas não existem oficialmente, elas não possuem abastecimento de água seguro, nenhum sistema elétrico legal e nem tratamento de esgoto apropriado. Moradores mais engenhosos se viram: habilmente desviando águas das adutoras, arriscando suas vidas puxando ligações clandestinas de postes elétricos para roubar energia.

O fornecimento central de água e luz da cidade mal consegue lidar com esta demanda extra, invisível. A maioria das áreas recebe água por apenas duas horas por dia, o que força os moradores a estocarem água em baldes quando podem. Interrupção no fornecimento de luz ocorre diariamente.

Como são ocupações não planejadas, boas ruas nunca foram construídas para elas. Agora seus habitantes, que estão se tornando mais ricos com o boom econômico da Índia, estão trocando suas bicicletas por motos ou suas motos por carros. No ano passado, as vendas de carros cresceram 24% por toda a Índia. O trânsito na capital está ficando mais pesado e mais perigoso.

O novo plano legaliza os imóveis de cerca de 3,5 milhões de pessoas, que até hoje temiam ver suas casas demolidas. As áreas consideradas perigosas serão revitalizadas e os cerca de 2 milhões de moradores de cortiços serão transferidos, muitos deles para novos prédios altos.

Desde os anos 50, governos sucessivos restringiram a construção de habitações a apenas um órgão do Estado, a Autoridade de Desenvolvimento de Déli. Maken disse que o sistema apoiado pelo Estado provou ser desastroso e novo plano (o terceiro elaborado desde 1962) permite às empreendedoras imobiliárias privadas o acesso ao mercado residencial pela primeira vez.

Para dar a estes empreendedoras imobiliárias um incentivo, o plano elimina as restrições a construções altas em todas as áreas, exceto algumas poucas históricas. A verticalização é uma solução radical para uma cidade onde as restrições de altura mantiveram a maioria das construções à altura das árvores. Mas como o governo tem sido incapaz de impedir a chegada anual de meio milhão de migrantes devido à pobreza rural, ele agora diz que uma ação radical é necessária.

Segundo o novo plano, os empreendedores imobiliários poderão oferecer aos moradores, cuja maioria vive em prédios de três andares, um plano que lhes forneceria um apartamento de tamanho igual em um bloco de 15 andares e um bônus em dinheiro de, digamos, 2,5 milhões de rúpias, ou US$ 56.500. O plano estipula que 35% das moradias terão que ser desenvolvidas para os pobres, e que haverá espaço verde entre os prédios altos.

O plano é altamente controverso. K.T. Ravindran, reitor da Escola de Planejamento e Arquitetura de Déli, alertou que o plano de demolição dos cortiços corre o risco de seguir o modelo desacreditado de planejamento urbano de Paris, onde as comunidades pobres foram relocadas para áreas que rapidamente se tornaram guetos.

O autor do primeiro Plano Diretor de Déli, Jagmohan, um político aposentado que tem apenas um nome, também criticou, comentando que a proposta transformaria Déli em uma cidade de classe mundial apenas se alguém considerar prédios de apartamentos com sofisticação. "E que mensagem estão passando com a legalização de ocupações ilegais?" ele perguntou. "Estão dizendo que aqueles que infringiram a lei agora lucrarão."

Mas Maken não dá atenção a estas críticas.

"Para ser uma cidade de classe mundial, é preciso ter moradias de boa qualidade", disse Maken em uma entrevista em seu gabinete, em uma área rica de Déli onde a falta de luz é rara e o fornecimento de água é bom (apesar de macacos selvagens dançarem sobre os carros oficiais do lado de fora, resistentes a todas as campanhas para bani-los).

Além disso, disse ele, Déli não tem alternativa. "Não há forma de removermos de Déli estas milhões de pessoas que vivem em construções ilegais", ele disse. "E não deveríamos. Elas são as pessoas que trabalham como empregadas, na construção das linhas de metrô, conduzindo os riquixás. Elas são provedoras de serviços essenciais para a comunidade." George El Khouri Andolfato

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