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14/04/2007

Mercados russos sofrem com a proibição de vendedores imigrantes

The New York Times
Andrew E. Kramer

em Moscou
Em um quiosque no mercado de verduras Rizhskiy, Rustam K. Umarov comercia ilegalmente orégano, canela em pau, pimenta do reino, açafrão em pó e kebab temperado.

Segundo um decreto governamental que entrou em vigor em 1º de abril, Umarov, como cidadão do Uzbequistão, está proibido de trabalhar como vendedor em qualquer dos 5.200 mercados da Rússia. Esses mercados constituíram em um dos pilares das vendas de alimentos e produtos domésticos no país durante a década de 1990, e ainda respondem por um quinto de todos os produtos vendidos aqui.

Justin Jin/The New York Times 
Uma mulher imigrante da Geórgia trabalha agora ilegalmente no mercado Rizhskiy

Não importa o fato de ele ser um imigrante legal. Segundo o decreto, tido como uma das medidas antiimigração mais draconianas da Europa, somente cidadãos russos podem vender frutas e verduras. "Os fregueses ficam satisfeitos ao comprarem os meus temperos, mas nas ruas existe ódio aos imigrantes", afirma Umarov, colocando folhas secas de hortelã em uma sacola com uma colher com o cuidado típico de quem tem muita prática.

Embora Umarov tenha mantido a discrição, permitindo que o seu negócio continuasse funcionando, milhares de imigrantes que trabalham nos mercados fecharam as suas bancas em toda a Rússia.

Como resultado, somente 68% dos quiosques dos mercados da Rússia estão ocupados, segundo números do governo, enquanto a falta de produtos e o aumento dos preços se tornam críticos em algumas regiões. Em um mercado de Chelyabinsk, nos Montes Urais, os preços de produtos não alimentícios subiram 16%, segundo o governo, que realizou pesquisas em 14 mercados no início deste mês. Em Moscou, cerca de 10 mil das 60 mil bancas de mercados estão vazias, de acordo com o governo municipal.

Os consumidores começam a reclamar. "Eles não estão vendendo mais tantas frutas, verduras e legumes", afirma Yeva Y. Terekova, uma professora aposentada que fazia compras no mercado Syestniye Ryady, em Moscou, em uma tarde recente. "Os preços também subiram". No entanto, outro aposentado que estava ali perto, via as coisas de outra forma: "A situação está melhor agora que os azeris foram expulsos do mercado".

Após o colapso da União Soviética, os mercados de frutas, verduras e legumes passaram a ser dominados por milhares de imigrantes, em sua maioria jovens das ex-repúblicas soviéticas. Assim como os imigrantes de qualquer lugar, eles vieram para a Rússia à procura de trabalho. E, também como em qualquer outro lugar, a presença desses indivíduos gerou ressentimentos e demandas de que os empregos criados fossem concedidos aos nativos da Rússia.

Equipes policiais do Serviço Federal de Migração chegaram em ônibus para aplicar a nova regra, prendendo e deportando imigrantes. Cartazes colados nas portas do mercado anunciam que há vagas para russos, ou "fazendeiros da pátria".

Em uma pesquisa realizada pelo independente Centro Levada, 54% dos russos entrevistados apoiaram a declaração "A Rússia é para os russos", uma frase usada pelos autores da pesquisa para medir a intensidade do sentimento anti-imigrante. A pesquisa, realizada em dezembro do ano passado, tem uma margem de erro de 1,7 ponto percentual. "O governo está jogando com as massas de uma forma perigosa", adverte Lev D. Gudkov, o diretor do centro. "O nível de xenofobia é elevado".

O decreto do governo teve como objetivo ostensivo reduzir a tensão étnica depois que manifestantes contrários aos imigrantes na cidade de Kondopoga, no norte da Rússia, incendiaram bancas de verduras cujos donos eram imigrantes no outono do ano passado.

A solução do governo foi reservar as bancas dos mercados para os fazendeiros russos, e ao mesmo tempo reprimir as máfias dos mercados que, segundo a percepção popular e as declarações oficiais, controlam esses locais. "Isso aliviará a tensão no mercado de trabalho e fará com que este se torne mais civilizado", afirmou em novembro passado o presidente Putin, quando a lei foi redigida. A declaração do presidente foi divulgada pela agência de notícias estatal RIA.

O decreto proíbe os imigrantes de comercializarem produtos, mas não de ocuparem empregos como o de porteiro e garçom. Os críticos afirmam que isso reforça os estereótipos segundo os quais os indivíduos da Ásia Central são ardilosos, mestres em adulterar balanças e em manipular os preços.

Os críticos dizem também que o decreto beneficia os nacionalistas russos que estão desempenhando um papel cada vez mais importante à medida que se aproxima a eleição presidencial do ano que vem.

Galina V. Kozhevnikova, vice-diretora da Sova, uma organização que monitora os crimes de ódio, afirma que a lei fortalece os grupos antiimigrantes. A Sova registrou 539 ataques contra minorias étnicas em 2006, incluindo 54 assassinatos por motivação racial.

Os mercados de frutas, verduras e legumes da Rússia funcionavam com base em uma rede de famílias de imigrantes - especialmente azeris, uzbeques e tadjiques no oeste do país, e chineses nas partes orientais da Sibéria - que possuem vínculos com as regiões de climas mais quentes nas quais são cultivados esses produtos. Agora, alguns dos mercados estão semivazios, e os comerciantes afirmam que uma era está chegando ao fim.

Umarov tem que falar furtivamente aos clientes que lhe perguntam como usar os seus temperos, ou que pedem para cheirar a pimenta-do-reino. Ele diz que a qualquer momento a sua banca pode ser fechada.

O sentimento hostil contra os imigrantes na cidade ficou evidente no inverno passado, quando o telhado coberto de neve de um mercado de verduras desabou, matando 66 pessoas esmagadas, 64 delas imigrantes. O prefeito Yuri M. Luzhkov disse que as famílias das vítimas seriam indenizadas - mas somente as poucas que residem legalmente na cidade.

A lei entrou vem vigor gradualmente, limitando a atuação dos vendedores imigrante a 40% do total de 15 de janeiro a 1º de abril. Agora o trabalho dos imigrantes nos mercados foi totalmente proibido.

No Mercado Dorogomilovsky, em Moscou, um cartaz em uma banca vazia anuncia: "Temos vaga para um vendedor que seja cidadão russo". Perto dali um homem da Ásia Central se recosta a uma parede, mascando vagarosamente sementes de gergelim.

No açougue próximo, um jovem eslavo maneja desajeitadamente um machado, procurando retirar gordura de uma peça de costelas de carneiro, sob o olhar de um açougueiro azeri. Em sua maioria, as bancas desocupadas pelos imigrantes continuam vazias, e aparentemente são poucos os russos dispostos a fazer esse tipo de trabalho.

Umarov acredita que o governo acabará revogando o decreto. "Eles acham que tirarão esse trabalho de nós. Acreditam que quando nós partirmos serão os donos desse trabalho. Mas eles não conseguem trabalhar como nós". UOL

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