UOL Notícias Internacional
 

15/04/2007

Desenhos animados com coração e um pouco de mandarim

The New York Times
Michael Davis

Em Burbank, Califórnia
Aqui na capital americana da animação, artistas de computador vestidos muito à vontade estão instalados num armazém reformado que é um caldeirão de talento dos desenhos animados: chama-se Nickelodeon Studios. Passando pelo saguão, depois da quadra de basquete-teatro, depois do bar de cappuccinos grátis, o visitante chega a uma área cujas paredes estão pintadas de laranja, amarelo-sol e roxo. Fileiras de lanternas vermelhas com pingentes estão penduradas, a iluminação é tênue e num canto-escritório está Karen Chao.

Ela é a criadora de "Ni Hao, Kai-lan!", uma série animada para crianças pré-escolares baseada em suas memórias de infância num lar bicultural com dois irmãos muito bem-sucedidos, um avô imigrante que a mimava e um pai com um pé no Velho Mundo e outro no Novo. Chao e sua mãe, Hai-lan (Helen), eram as únicas mulheres, mas não se dobravam, respeitando tradições de seu gênero que datam de tempos confucianos enquanto questionavam outras. "Ni Hao" significa "Olá" em mandarim e Kai-lan é o nome chinês que Chao recebeu ao nascer, depois anglicizado para Karen.

A série, que deverá estrear no canal Nick Jr. em agosto, foi alentada desde que era uma simples idéia, quatro anos atrás, em curtas experimentais chamados "Downward Doghouse", e depois em uma série com personagens, ambientes e situações de influência asiática. Concebido no sul da Califórnia mas animado e desenhado em parte em Taipei e Xangai, o projeto de 20 episódios é o mais caro lançamento doméstico e para a televisão internacional da Nickelodeon para este ano.

O notável nesse projeto pessoal altamente estilizado e ligeiramente feminista é que brotou de uma artista cuja experiência anterior na televisão se limitava a assisti-la. Mas o que Chao, 29 anos, não tinha em experiência compensou em persistência. "Meu pai me ensinou quando eu tinha 7 anos que se você colocar todo o seu coração num projeto o resultado será magnífico", disse Chao.

Seu pai, Jack, fugiu da República Popular da China em 1962 com um único dólar de Hong Kong no bolso. Ele emigrou para Nova York em 1970, onde trabalhou como entregador, e mais tarde mudou-se para o Texas. Hoje é um distribuidor de pescados multimilionário na Califórnia. Ele é tão protetor com sua filha que certa vez mandou investigar o passado de um pretendente que ela levou para conhecer os pais.

Chao, que se formou em arte digital na Universidade da Califórnia em Irvine em 2000, não seguiu exatamente o caminho escolhido pelo pai. "Ele me arranjou um estágio na PaineWebber, mas eu cochilava e desligava o telefone", ela disse. "Eu não era uma abelha operária muito boa, mas meu pai ficou em êxtase porque eu usava roupas de executiva com enchimento nos ombros e calças. Na cultura chinesa, crítica é amor. E meu pai deve realmente me amar, porque ele tem muito a dizer."

Em 2001 Chao, que já trabalhava como artista gráfica, fez um curso avançado do software Adobe Illustrator. "A primeira coisa que eu desenhei foi Kai-lan", ela disse, uma versão de si mesma aos 5 anos. Depois criou um site na Web com alguns outros personagens e seu trabalho foi notado por Mary Harrington, a principal executiva de animação da Nickelodeon entre 1992 e 1997, que havia desenvolvido "SpongeBob SquarePants" e "Rugrats".

"Eu adorei o trabalho dela", disse Harrington, que hoje é produtora executiva do programa de Chao. "Não havia uma história real nele, mas havia sensibilidade e coração. Nós nos ligamos criativamente e decidimos dar esse mergulho. Eu a provoco dizendo que quando saímos na rua as pessoas pensam que ela é minha filha adotiva chinesa."

Apesar de Chao ser designada para um projeto de desenvolvimento, seus pais se recusavam a acreditar que ela conseguiria se sustentar no ramo de desenhos animados. "Meu pai disse: 'O que você fica fazendo o dia inteiro lá na Nickelodeon?'", ela lembra. "Para ele era um mistério. Eu fazia besteiras e desenhava o dia todo."

Jack Chao propôs que ele e sua mulher conhecessem Harrington num almoço.

Harrington aceitou educadamente. "Eu nunca tinha sido convidada para almoçar com os pais de alguém em minha vida profissional, mas me senti honrada", ela disse. Quando chegou a hora da sobremesa, Jack Chao havia dado à chefe de sua filha o apelido chinês "May-me", que significa "mulher bonita".

Quando era criança no Texas, Chao colecionava fitas piratas de desenhos animados japoneses dublados em chinês. Também era louca por Hello Kitty, cujo estilo gráfico inspira os personagens de "Ni Hao". "Tudo o que desenho é infantil", disse Chao. Harrington confirma secamente: "Sim, a pré-escola foi o grande momento de sua vida".

Kai-lan vive em um reino fantástico com um tigre impulsivo, um coala que deseja ser um panda, um rinoceronte cor-de-rosa e um macaco que adora bolinhos. Kai-lan é "uma líder nata que faz ligações afirmativas com pessoas e com a natureza, prestando atenção nos sentimentos dos outros", disse uma consultora da série, a dra. Janxin Leu, uma psicóloga cultural da Universidade de Washington em Seattle que estuda a dinâmica das famílias sino-americanas. Ela faz parte de uma equipe consultora formada por pesquisadores educacionais e cientistas sociais que ajudaram a desenvolver metas curriculares para um programa baseado na interatividade de "Blue's Clues" e no caráter bilíngüe de "Dora the Explorer".

Aspectos do pai de Chao e de seu avô, Wensang Chao, misturam-se no personagem Yeye, um patriarca engraçado que incentiva Kai-lan a descobrir por que as coisas acontecem. O relacionamento entre Kai-lan e Yeye está no centro de histórias fantasiosas destinadas a ajudar os jovens espectadores a compreender a ligação entre sentimentos e ações. "Em cada episódio Kai-lan promove o respeito pelos mais velhos e a importância da família", disse Harrington.

No primeiro episódio, Kai-lan e Rintoo, o tigre temperamental, dão uma lição sobre as raízes e ramificações da raiva. Os grandes amigos entram em um concurso de barcos-dragões, mas perdem a primeira corrida. Rintoo, agitado, diz: "Não quero mais correr. Nós perdemos, isso não é justo". Então ele destrói o barco com sua cauda, e este pousa no topo de um pagode. Ele sai batendo os pés e a narrativa se detém para que Kai-lan pense em voz alta.

"A série é sobre causa e efeito, como os sentimentos e comportamentos estão interligados e que linguagem podemos usar para falar sobre sentimentos e podermos controlá-los", disse a dra. Laura G. Brown, também consultora do programa. Mais tarde nesse episódio, Kai-lan ensina os espectadores a dizer "saltar" em mandarim, a língua oficial da China.

O vocabulário será uma característica regular, o que talvez seja a idéia certa na hora certa, pois o interesse pelo estudo de mandarim aumenta nos EUA. Cerca de 50 mil crianças americanas estão aprendendo mandarim em escolas públicas e outras 50 mil em escolas particulares. No mês que vem os primeiros 2 mil alunos de segundo grau farão o exame oficial de mandarim. O número é pequeno, mas um indício de que grandes coisas estão por vir, disse Tom Matts, diretor da Iniciativa de Línguas Mundiais. "Esperamos um crescimento nesse curso diferente de qualquer outro lançado na última década ou mais."

Em comparação, disse Marty Abbott, diretor de educação do Conselho Americano para Ensino de Línguas Estrangeiras em Washington, 300 milhões de chineses estão aprendendo inglês, incluindo todo estudante a partir de 7 anos.

"Segundo todos os indícios, não estamos preparando nossas crianças para a economia global", disse Abbott. "Mas recebemos muitas ligações de pais de pré-escolares e alunos da escola elementar perguntando como eles podem ajudar a criar programas de idiomas em suas escolas. Eles viram como seus filhos se envolvem com Dora. Existe uma curiosidade e abertura naturais para idiomas nessa idade."

Desde 2000 a Viacom, matriz da Nickelodeon, tem canais no Delta do Rio da Pérola, região de economia pujante no sul da China. MTV e Nickelodeon estão disponíveis lá, apesar das estritas políticas chinesas de controle da mídia estrangeira. "Ni Hao" eventualmente será visto na Ásia, Austrália, América Latina e Europa.

Chao disse que queria que Kai-lan "fosse uma personagem modelo sino-americano: independente, com voz própria, que toma iniciativas e nem sempre segue os outros". Harrington, a produtora executiva, disse esperar que a série tenha uma repercussão especial entre as cerca de 60 mil garotas nos EUA que foram adotadas de orfanatos chineses.

Uma dessas crianças é Jade-Lianna Peters, que faz a voz do personagem-título. Abandonada em um templo na infância, ela foi levada a um orfanato e colocada para adoção com oito meses. John e Kathleen Peters, um casal sem filhos de Milwaukee, foi para a China segurando uma fotografia 3x4 da menina. "Quando a colocaram em meus braços, ela olhou para mim por cerca de cinco minutos, e eu fiquei olhando para ela", disse Kathleen. "Então de repente ela soltou um grande suspiro, como se dissesse: 'Se é isso que vou ter de agüentar, pelo menos será interessante'."

Hoje com 10 anos, Jade-Lianna, que está aprendendo mandarim, lê os diálogos em um estúdio no subúrbio de Milwaukee conectado por um cabo de alta velocidade ao centro da Nickelodeon em Burbank, e sua voz áspera dá nuance e energia a uma história sobre um safári no quintal.

Escutando na Califórnia, Chao fica entusiasmada com a interpretação feita por Jade-Lianna da exuberância e do afeto de Kai-lan por Yeye. "Na cultura chinesa, tudo é expresso em termos do coração", diz Chao. "Quando uma criança está feliz, dizem que ela tem o coração aberto. Quando está triste, seu coração foi ferido. Meu pai muitas vezes fala disso. Ele diz que fazer parte de uma família significa ter um coração."

"Quando vou para casa é quando me sinto mais segura", ela diz. "Essa é a alma de 'Ni Hao, Kai-lan!'" Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h39

    -0,58
    3,163
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h41

    0,01
    70.018,05
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host