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16/04/2007

Modern Love: Uma moça chamada Amor

The New York Times
Deborah Copaken Kogan

The New York Times
Em uma noite fria de domingo em fevereiro último, logo após eu ter colocado o bebê na cama, o interfone tocou.

"Você encomendou comida?", perguntei ao meu marido, Paul, que estava debruçado sobre o seu computador na nossa sala de jantar.

"Não".

Eu olhei para os nossos filhos mais velhos, Jacob, 11, e Sasha, 9; nenhum deles estava esperando ninguém.

"Provavelmente ligaram para o apartamento errado", disse eu. O interfone tocou novamente, desta vez por mais tempo. Fui até a cozinha e apertei o botão. "Alô!".

Uma voz - estridente e masculina - perguntou: "Vocês estão no 15º andar?".

"Sim".

"Algumas das suas janelas estão voltadas para o leste?".

"Por que você quer saber?".

"Sei que isso vai parecer estranho, mas...". O nome dele era Andrew, disse o homem, e ele era estudante de design. Ele tinha uma namorada que morava no prédio defronte ao nosso, também em um andar alto. Ela era japonesa, mas o seu nome foi formado com o uso de caracter para "amor", que tem o mesmo som em japonês. Ou pelo menos foi isso o que ele disse. "Construí em neon esse caracter em chinês que significa amor e gostaria de colocá-lo na janela de vocês na noite de terça-feira", explicou ele. "Assim, quando ela acordar no Dia dos Namorados, verá o caracter".

A sua história parecia muito elaborada para ser falsa. Se ele realmente quisesse nos roubar, um simples "Flores!" teria sido o suficiente. Não que eu estivesse esperando flores, mas mesmo assim...

"Quem era?", perguntou Paul.

"Um cara que quer colocar um neon com a palavra amor na nossa janela".

"Como?".

"A namorada dele mora no prédio defronte ao nosso", disse eu. "O nome dela significa amor. Ou ela se chama Amor. Em chinês. Ou algo assim".

"Eu espero que você tenha dito não".

"Na verdade mandei-o subir".

"O que?"

"Até os meus filhos me olharam desconfiadamente".

"Não se preocupe", afirmei. "Vou observá-lo bem pelo olho mágico".

"Foi isso o que disse Sharon Tate".

"Ah, vamos lá! Onde está o seu romantismo?".

"E onde está o seu juízo?".

O que o meu marido disse fazia sentido. Mas eu sempre fui vulnerável aos grandes gestos românticos: o homem que contrata um piloto de avião para escrever uma declaração de amor no céu, ou que se ajoelha no meio de um estádio lotado. Tais atos recheiam as peças românticas mas são raros na vida real. A idéia de que algo desse tipo ocorresse no nosso apartamento - onde o maior gesto romântico feito ultimamente por mim ou meu marido consistia em deixar o outro pular a sua vez de lavar os pratos - era muito tentadora.

A campainha tocou. Não seria um exagero dizer que os pelos na parte posterior dos nossos pescoços se eriçaram. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico. No corredor, distorcido pela lente grande angular, estava um homem de uns trinta anos, caucasiano, alto, de compleição média com cabelos louros embaraçados (pensei comigo que talvez mais tarde tivesse que passar essa descrição para a polícia).

Abri a porta.

"Oi", disse ele. "Muito obrigado".

"De nada". Ele parecia suficientemente inofensivo, mas eu entabulei uma conversa inócua na porta para ver se ele se mostrava agressivo. Depois disso, em uma demonstração de fé - não muito diferente daquela ocorrida quando, 17 anos antes, deixei o meu marido entrar em minha vida - convidei-o a entrar.

Ele foi até a janela da sala de jantar. "Perfeito", afirmou. "Aquele lá é o apartamento dela. Então, posso voltar na terça-feira à noite com o meu neon?".

Mais tarde, quando eu e Paul escovávamos os dentes, vi pelo espelho que ele me olhava de uma forma como não fazia há anos. Depois que cuspi na pia, perguntei: "O que há com você hoje?".

"Estava só lembrando da árvore que comprei para você".

Uma semana após ter conhecido Paul em Paris, onde morávamos, tive que viajar para Bucareste por cinco semanas para cobrir os fatos que se seguiram à revolução romena. Eu gostei dele, e devo ter mencionado algo como desejar uma planta para o meu apartamento, mas naquele ponto da minha vida eu tinha basicamente desistido de me apaixonar, assim como os romenos tinham desistido de serem capazes de falar livremente: um belo conceito, era evidente que outras pessoas no mundo poderiam fazer tal coisa, mas o desgosto e a Securitate eram muito ameaçadores.

A seguir Ceausescu foi fuzilado, a Cortina de Ferro caiu, e retornei de Bucareste para encontrar uma árvore enorme no meu apartamento. Uma coisa levou a outra, e aqui estávamos nós, 17 anos e três filhos depois, escovando os dentes.

Com a exceção do fato de a coisa toda ser mais complicada do que isso, como o amor sempre é. Houve aqueles incidentes no princípio, que quase mataram a flor do nosso romance ainda no botão; o período intermediário, quando pedaços de porcelana voavam como estilhaços de artilharia; e o momento presente, no qual as possibilidades de romance foram abafadas pela logística e as vicissitudes do destino (uma semana sozinhos novamente em Paris? Claro! Mas quem tomará conta das crianças e quem morrerá de fome para que possamos fazer essa viagem?).

Na noite anterior ao Dia dos Namorados, cheguei tarde a um apartamento que brilhava internamente com uma luz morna e rósea. Preenchendo a nossa janela, o caracter de Andrew parecia mais um coração humano, cercado daquele tipo de traços que os cartunistas usam para indicar movimento.

Paul estava sentado no seu local de sempre na nossa sala de jantar, curvado sobre o computador, mas quando eu entrei, o que geralmente faz com que ele emita um grunhido e acene rapidamente, o meu marido se voltou para mim e sorriu. "Não é bonito?", disse Paul. Ele se levantou da cadeira, aumentou o volume do iPod e na verdade me puxou em sua direção.

"Desde quando você ouve Sinatra?" perguntei.

"Espere um pouco", retrucou ele. "Você também vai gostar". A seguir ele entrou dançando comigo no nosso quarto.

Por volta de três da manhã, o bebê começou a choramingar no berço.
Levantei-me da cama e coloquei a mão na sua testa. "Ah, não. Leo está quente".

Paul se ofereceu para pegar um pouco de água fria, mas sentindo-me incomumente generosa, disse a ele que eu mesmo traria a água. Levei Leo até o corredor rumo àquele surpreendente brilho rosa.

Quando viu o neon, ele exclamou, "Uff", que na língua dos bebês significa um grande elogio, e se acalmou instantaneamente. Leo não foi exatamente planejado, e às vezes acho a tarefa de cuidar dele, 11 e nove anos, respectivamente, após os dois irmãos, exaustiva. Mas naquela noite olhei para as bochechas brilhantes e pensei: "Meu Deus, como eu adoro este bebê lindo!".

Depois disso levei-o até a cozinha e percebi que ele não estava de fato brilhando devido ao neon, mas sim por causa de uma irritação na pele de aparência assustadora. No dia seguinte o diagnóstico seria eritema infeccioso, mas naquela noite, acalentei-o até que ele dormisse sob o brilho da luz do amor, e ele não nos deu trabalho até de manhã.

Quando o dia nasceu, fui até a sala de jantar ainda rósea para dar a papinha a Leo. Olhei para fora, vendo os flocos de neve que caíam, e observando o prédio da moça chamada Amor. Será que ela já acordara? Será que já vira o neon na noite anterior, ou Andrew descobrira uma maneira inteligente de fazem com que ela não olhasse pela janela até o dia raiar?

Enquanto dava uma colherada de mingau de aveia a Leo, imaginei os dois caminhando e observando o neon. "Ah, meu Deus", diria a moça chamada Amor.

"Não acredito que você fez isso".

"Eu te amo", diria ele. E a resposta sincera seria. "Eu também te amo".

Sim, ela tinha que trabalhar e ir à escola, mas não havia crianças precisando de colheradas de mingau de aveia, ou shorts de academia para serem lavados, nem merendeiras cheias. Imaginei a pele jovem dos dois, isenta de estrias ou rugas, os dedos e as coxas entrelaçados.

"A noite passada foi muito boa", disse Paul, beijando-me na testa.

Jacob e Sasha entraram na sala, gritando, "Uau! e "Legal!', quando viram o neon. Momentos depois, Sasha disse: "Jacob, você fez uns cartões tão bonitos para o Dia dos Namorados. As suas amigas adorarão".

"Obrigado", respondeu ele.

Será que a minha família fora substituída por alienígenas? Leo, vitimado pelo eritema e pela febre, arrulhava e comia o mingau morno. Os meus filhos mais velhos trocavam gentilezas. O meu marido me beijou na testa. Era como se, por meio do episódio amoroso que cruzara o nosso caminho, eu e Paul estivéssemos colhendo os benefícios de um caso extraconjugal - um aumento do ardor, uma distração da realidade, um novo despertar para o significado de estar vivo - mas sem a sensação de culpa e as mentiras.

Há muito relegáramos o dia dos namorados à prateleira empoeirada do ridículo, mas naquela noite Paul chegou com rosas e vinho. Acendemos velas e abandonamos as telas, os amigos e as responsabilidades para nos reunirmos na sala para um lânguido jantar em família e várias rodadas de Boggle.

Colocamos as crianças para dormir cedo, e descobrimos pela segunda noite seguida uma forma de nos amarmos.

Quando Andrew apareceu, conforme o prometido, na sexta-feira pela manhã para desmontar o neon, esperamos que ele nos falasse do momento feliz que compartilhou com a moça chamada Amor. Mas enquanto tomávamos o café da manhã, ele fazia silenciosamente a sua tarefa. Finalmente, incapaz de aguentar o suspense, a minha filha disse: "Então, o que aconteceu? A sua namorada gostou do neon?".

"Não sei ao certo". Ele desconectou o neon da tomada e o brilho róseo desapareceu. "Ela não me disse nada".

"Como assim", indaguei. Como é que Amor poderia ter deixado de (no mínimo) reconhecer o seu caracter e todo o planejamento e reflexão que possibilitaram a realização do projeto?

"Bem", disse Andrew. "Reservei um lugar na churrascaria Roth's e a esperei por uma hora, mas ela nunca apareceu".

"Onde ela estava?". Imaginei a moça chamada Amor presa no trabalho ou em um vagão defeituoso no metrô. Ela possivelmente não daria um bolo em Andrew no Dia dos Namorados.

"Não sei. Ela simplesmente não apareceu".

"Mas ela viu o neon, certo?".

Leo começou a chorar, e uma grande linha de catarro descia pelo seu nariz. Quando fui pegar um lenço de papel, esbarrei em um copo de suco de laranja, espalhando suco na mesa e no chão.

"Acho que sim", disse Andrew dando de ombros, e naquele dar de ombros enxerguei a morte da esperança. Após enrolar o caracter novamente em plástico bolha e em papelão, ele murmurou. "Novamente, obrigado", e saiu pela porta.

O meu filho mais velho parecia a ponto de chorar. A minha filha sentou-se ao piano para tocar uma música triste. Leo ficou apoplético, esfregando o conteúdo dos seus olhos e nariz irritados pelas bochechas cobertas de eczemas, antes de vomitar na bandeja da sua cadeirinha de bebê, na qual eu descansava o braço. Meu marido entrou na cozinha, observou esse cenário magnífico, e começamos a discutir sobre quem iria lavar os pratos.

Pensei de novo na história de Andrew. Será que ele havia se iludido completamente, achando que a moça chamada Amor era sua? Ou ele seria apenas um espreitador, e nós o teríamos o ajudado a praticar assédio? Ou talvez Amor fosse apenas fruto da sua imaginação. Algo que nem mesmo o neon mais brilhante, mais róseo, mais realisticamente esculpido em formato de coração poderia retirar do reino da fantasia.

Era algo no qual pensar enquanto eu arrumava toda a bagunça. UOL

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