UOL Notícias Internacional
 

17/04/2007

Uma barragem de disparos, interrompida por pausas para recarregar

The New York Times
Shaila Dewan

Em Blacksburg, Virgínia
Os disparos foram tão lentos e constantes que alguns estudantes pensaram se tratar de barulho de uma construção próxima, até que viram policiais com rifles apontados para o Norris Hall, o prédio de engenharia do Instituto Politécnico da Virgínia (Virginia Tech).

Bang. Bang. Bang.

Eles prosseguiam sem parar, pelo que pareceram 10, 15 ou 20 minutos, uma eternidade com pontuação.

Bang. Bang. No terceiro andar do Norris Hall, Scott L. Hendricks, um professor, olhou pela janela de sua sala e viu estudantes rastejando para longe do prédio.

Bang. A classe de contabilidade de Tiffany Otey se apertou em um escritório e se trancou lá dentro, chorando de medo.

Reuters 
Estudantes foram surpreendidos em suas salas de aula pelo atirador que matou 32 pessoas

Com freqüência, os disparos faziam uma pausa de cerca de um minuto. Era quando o atirador, que estava em meio ao maior acesso de fúria armada na história americana, parava para recarregar. Quando terminou, 33 pessoas, incluindo o próprio atirador, estavam mortas e pelo menos 15 ficaram feridas.

"Eu estava apavorada", disse Otey, uma caloura cuja classe estava reunida na sala acima daquela onde grande parte dos disparos ocorreu.

Um estudante concluiu a tarefa do dia e tentou partir, mas voltou para dizer aos outros que o corredor estava cheio de fumaça e que havia policiais por toda parte. A turma decidiu entrar em uma sala com tranca. Hendricks, um professor de engenharia e mecânica no mesmo andar, entrincheirou-se em sua sala, empurrando uma estante de livros para bloquear a porta. Alguns estudantes no campus se refugiaram na biblioteca, pesquisando na Internet para descobrir o que estava acontecendo. Ninguém sabia.

"Eu fiquei chorando", disse Otey. "Eu fiquei com medo que o sujeito com a arma chegasse ao andar de cima."

A violência começou ao amanhecer no West Ambler Johnston, o maior alojamento da Virginia Tech, onde duas pessoas foram mortas, disse a polícia. Mas quando a primeira aula começou, duas horas depois, às 9h05, muitos no campus permaneciam sem ter noção de qualquer perigo.

"Eu acordei e não sabia que havia algo errado", disse Sarah Ulmer, uma caloura que mora no East Ambler Johnston. "Eu fui para a minha primeira aula e meu professor estava falando sobre o motivo da ausência de muitas pessoas. Disse que havia uma ameaça com arma no West A.J. e ele estava bloqueado. Para mim foi um 'Oh'."

A escola só notificou os estudantes por e-mail sobre os primeiros disparos às 9h26, disse Matt Dixon, que mora no alojamento. Dixon só recebeu o e-mail depois que voltou da aula das 9h05. Quando ele saiu para a aula, contou, um orientador lhe disse para não usar a escadaria central, então ele saiu por outro caminho.

Nos painéis os orientadores escreveram: "Permaneçam em seus quartos", disse Dixon.

Outros estudantes e membros do corpo docente disseram que tinham apenas uma vaga noção de que tinha ocorrido um tiroteio no alojamento. Vários professores disseram que chegaram ao campus durante ou logo após o tiroteio no Norris Hall e seguiram desimpedidos aos seus prédios. Muitos ficaram surpresos ou furiosos com o fato do campus não ter sido interditado anteriormente, após o primeiro incidente.

"Eu estou ultrajado com o que aconteceu hoje no campus da Virginia Tech", escreveu Huy That Ton, um membro da faculdade de engenharia química, em uma mensagem por e-mail. "Inúmeras vidas poderiam ter sido salvas se tivessem informado os estudantes sobre os primeiros disparos. O que o departamento de segurança estava pensando?"

Representantes do campus disseram acreditar que o primeiro incidente estava confinado a um único prédio e era basicamente uma disputa doméstica, sem ter idéia de que a violência se espalharia para outro lugar. A polícia disse que ainda não sabe se os dois tiroteios foram obra do mesmo atirador.

O atirador no Norris Hall foi descrito como sendo um jovem asiático com duas pistolas, que entrou calmamente nas salas de aula atirando contra professores e estudantes. Ele espiou dentro da aula de alemão na sala 207, disseram testemunhas, e forçou a entrada.

Gene Cole, que trabalha nos serviços de limpeza da Virginia Tech, estava no segundo andar do Norris Hall na manhã desta segunda-feira e viu uma pessoa caída no chão do corredor, conforme disse ao "The Roanoke Times". Assim que Cole se aproximou do corpo, um homem usando chapéu e segurando uma arma entrou no corredor. "Alguém saiu de uma sala de aula e começou a atirar contra mim", disse. Cole fugiu pelo corredor, desceu as escadas e chegou a um lugar seguro. "Tudo o que vi foi sangue nos corredores", disse.

O atirador foi descrito como metódico, apertando o gatilho quase que de forma ritmada. "Às vezes havia cerca de um minuto de pausa entre eles, mas em grande parte era um (tiro) atrás do outro", disse Otey.

Elaine Goss, de Waynesboro, Virgínia, disse que falou com seu filho, o estudante Alec Calhoun, por volta das 9h30, depois que ele saltou pela janela de uma sala de aula no segundo andar, assim que o atirador entrou. "Eu não conseguia entendê-lo. Era como se falasse coisas sem sentido", disse Goss. "Demorou até eu entender que aquilo eram disparos, muitos disparos e que toda a classe dele tinha pulado pela janela." Ele caiu de costas e "nós o mandamos ir ao pronto-socorro", disse ela.

Dois colegas dele, estudantes de engenharia, também estavam no hospital com ferimentos de bala, disse Goss. "Eu acho que ficaram apenas feridos. Ele acredita que estão apenas feridos." George El Khouri Andolfato

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