UOL Notícias Internacional
 

20/04/2007

Médico iraquiano cujas estimativas de civis mortos irritaram os EUA tem visto negado

The New York Times
Brad Wong, do Seattle Post-Intelligencer

Em Seattle
Um médico iraquiano que ganhou manchetes internacionais após declarar que o número de civis mortos na guerra no Iraque ultrapassava - em muito - os números oficiais não foi autorizado a viajar para a América do Norte para se encontrar com outros acadêmicos.

O dr. Riyadh Lafta e seus colegas tentaram por meses obter um visto de viagem para os Estados Unidos, para que o médico pudesse falar em uma conferência médica na Universidade de Washington, na sexta-feira. O Departamento de Estado dos Estados Unidos citou problemas de comunicação como motivo para a não concessão do visto.

Como alternativa, a Universidade Simon Fraser, na Colúmbia Britânica, Canadá, convidou Lafta a realizar sua palestra na sexta-feira, que seria transmitida por vídeo para a Universidade de Washington. Mas nesta semana o governo britânico lhe negou um visto de trânsito de quatro horas para a escala entre o Oriente Médio e o Canadá.

Lafta, um epidemiologista, leciona na Faculdade de Medicina da Universidade Al-Mustansiriya, em Bagdá, e co-escreveu um artigo em outubro de 2006 sobre as mortes de civis iraquianos para a "The Lancet", a respeitada revista de medicina britânica.

A Escola de Saúde Pública e Medicina Comunitária da Universidade de Washington o convidou a falar sobre tal estudo e os níveis elevados de câncer, que afeta especialmente crianças, no sul do Iraque, disse Amy Hagopian, uma professor assistente em exercício.

Hagopian, que está realizando pesquisa com Lafta, acredita que o governo Bush está bloqueando propositalmente a viagem dele aos Estados Unidos. "Minha hipótese é que o governo Bush foi extremamente ameaçado pelo estudo na 'The Lancet'", ela disse.

Um porta-voz do Departamento de Estado, Steve Royster, negou que política tenha tido alguma influência na negação do visto para Lafta. "Esta é uma questão de um simples mas infeliz problema de comunicação", ele disse.

Um porta-voz de relações exteriores britânico não pôde ser contatado para comentários. Funcionários da embaixada americana em Amã, Jordânia, onde Lafta pediu o visto em julho de 2006, tentaram contatar o médico duas vezes por e-mail para informações, disse Royster. Mas nunca receberam uma resposta e pedidos de visto incompletos podem ser negados.

Royster não soube dizer se os funcionários da embaixada tentaram contatá-lo de outros modos, ou se seus colegas norte-americanos tinham conhecimento dos problemas de comunicação.

Hagopian chamou esta explicação de falsa. "É claro que ele entrou em contato com eles após não receber notícias. E nós os contatamos em nome dele", ela disse. Eles nos obstruíram. Quaisquer comentários contrários são cortina de fumaça."

O dr. Les Roberts da Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia falará na noite de sexta-feira na Universidade de Washington, no lugar de Lafta. Os dois trabalharam juntos na estimativa de morte de iraquianos. Ainda assim, a ausência do médico iraquiano irritou as pessoas.

"O que ouviremos é sobre o desastre de saúde pública no Iraque", disse Tim Takaro, um professor associado de ciências de saúde da Universidade Simon Fraser, em Vancouver, Colúmbia Britânica, onde Lafta também falaria.

Takaro, que também conduz pesquisa com Lafta, chamou o estudo de 2006 na "The Lancet" de bem pesquisado. Ele disse que a estimativa de cerca de 655 mil civis iraquianos mortos é 10 vezes maior do que a de outros estudos. "Tal magnitude não foi percebida pelo povo americano. Os governos britânico e americano desprezaram estes números", disse ele.

O deputado Jim McDermott dos Estados Unidos, que visitou o Iraque em 2002, quer saber mais sobre as taxas de câncer no Iraque e sobre o que Lafta descobriu. "Nós acabamos com o Departamento de Estado e Deus sabe quem mais impedindo um sujeito de participar de uma conferência médica", disse.

Os funcionários do gabinete de McDermott e da senadora Maria Cantwell auxiliaram a Universidade de Washington a contatar o Departamento de Estado sobre os problemas de visto de Lafta.

Se ele visitasse Vancouver, pesquisadores da Universidade de Washington teriam ido ao encontro dele. "Ele coletou os dados e, é claro, precisamos nos encontrar com ele para ver os dados", disse Hagopian.

McDermott perguntou sobre a possibilidade de realização de uma videoconferência ou uma transmissão por Internet com Lafta no Oriente Médio. Mas Takaro apontou que grande parte da pesquisa de Lafta está em papel. Takaro está tentando levar o médico iraquiano à Universidade Simon Fraser para um futuro encontro.

Mas desta vez ele está estudando a França, Alemanha, Holanda ou Suíça como países de escala. "É possível transformar algo assim em um romance de Kafka", disse Mike DeCesare, o porta-voz de McDermott. George El Khouri Andolfato

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