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21/04/2007

Amor moderno: Um filho adotivo é uma incógnita. Agora tenho uma pista

The New York Times
Nona Martin Stuck
Segundo nossa própria avaliação, meu marido e eu viemos de extremidades relativamente rasas de nossos respectivos bancos genéticos. Se tivéssemos decidido tentar superar nossa infertilidade e produzir nossos próprios filhos, provavelmente eles teriam dentes tortos e mau humor e seriam míopes como toupeiras.

David Chelsea/The New York Times 


Em vez disso, adotamos três pessoas das mais adoráveis, inteligentes e interessantes que conheço. E as três mulheres responsáveis por nossa felicidade continuam sendo estranhas, sem saber o quanto elas enriqueceram nossa vida.

Nossa quarta adoção começou exatamente como as outras. Doméstica e privativa, ela exigiu, além de um advogado, uma assistente social para garantir mais uma vez que éramos candidatos adequados a ser pais. Esta também foi responsável por realizar a entrevista com a mãe biológica, e na verdade foi uma intermediária sancionada pelo estado no que sempre havia sido para nós um assunto anônimo.

Mas os tempos estavam mudando. As portas da informação sobre adoção, antes trancadas, estavam se abrindo, e o que havia sido considerado um segredo vergonhoso por muitos era cada vez mais visto como uma opção de amor.

Foi assim que a assistente social um dia me perguntou se eu tinha desejado conhecer alguma das mães de meus filhos. "Oh, Deus, sim!", eu disse. "Bem", ela continuou, "esta mãe está interessada em conhecê-la. Você quer que eu arranje um encontro?"

Eu fiquei chocada, num silêncio atípico. Conhecer a mãe biológica nunca havia sido uma possibilidade em nossas outras adoções. Mas eu sempre havia pensado nelas, me preocupado com elas, imaginado conversas com elas. Eu sabia que eram jovens, entre 15 e 19 anos, e solteiras.

Imaginava que estivessem tão assustadas e indecisas sobre o futuro quanto eu estaria em sua situação.

Numa sexta-feira de manhã, em meados de setembro, a assistente social me telefonou para dizer que tinha marcado um encontro para a próxima quarta-feira em um café numa cidadezinha a uma hora de distância de carro.
Quando dei a notícia para meu marido, ele não se entusiasmou. Apoiava minha decisão de conhecer a mulher, mas não queria participar do encontro. "É emoção demais", disse. Mesmo falar sobre isso o deixava inquieto.

Eu, por outro lado, estava cheia de antecipação. Meus filhos tinham 8, 6 e 3 anos, e suas personalidades estavam surgindo diante dos meus olhos como fotografias que se revelam rapidamente. Observando essas transformações, eu havia começado a ter uma percepção de suas mães biológicas, como tenho das personagens de meus livros favoritos, que nunca são vistas realmente, mas têm particularidades inconfundíveis.

De onde se originavam essas surpresas de disposição e estilo? Onde estava a versão adulta do sorriso daquele, da confiança do outro com estranhos, o tom de voz dele, o dom dela para a mímica? Haveria outras crianças, irmãos e irmãs com os mesmos traços queridos e hábitos incômodos? E conhecer as respostas seria uma bênção ou uma maldição?

No dia de nosso encontro, escolhi minha roupa cuidadosamente, como se fosse um encontro amoroso. Enquanto dirigia, deixei meus pensamentos voarem para aquelas outras três mulheres. Elas estavam com freqüência em minha mente, sobretudo nos momentos marcantes das vidas de meus filhos: o primeiro corte de cabelo, os primeiros passos, as primeiras palavras; quando tirávamos as rodinhas de suas bicicletas e colocávamos aparelhos em seus dentes; em cada primeiro dia de escola, em cada jogo de futebol e cada recital de piano. Nas festas de aniversário eu sentia uma vaga inquietação, como se tivesse esquecido de convidar um parente próximo.

Lembrei exatamente onde eu estava e o que estava fazendo no momento em que recebi cada telefonema com a notícia do nascimento. Certamente suas lembranças dessas horas seriam mais intensas que as minhas. Mas elas observariam esses aniversários? Eu só podia imaginar.

Quando avistei o café, resisti à vontade de seguir em frente, e precisei respirar fundo para manter a compostura enquanto estacionava. Saindo do carro, olhei-me no espelho lateral e vi fios de cabelo fora do lugar e minha maquiagem borrada, mas era tarde demais para consertar.

Lá dentro, uma mulher muito grávida sentada sozinha levantou-se e apertou minha mão. Ela perguntou se eu tinha feito boa viagem e riu nervosamente quando pronunciei seu nome errado. Quando a garçonete havia reabastecido nossas xícaras de café, a estranheza tinha passado e estávamos nos interrompendo mutuamente, ávidas para contar e saber tudo.

Ela estava no final da casa dos 20, era divorciada e criava dois filhos sozinha. Uma católica não-praticante, afirmou que ainda estava sob a influência do que lhe haviam ensinado.

Percebendo que eu era a favor do direito ao aborto, ela olhou diretamente para mim e disse: "Eu realmente sou a favor da opção, e minha opção é ter este bebê". Então, com convicção e remorso, ela acrescentou: "Mas não posso criá-lo. Não posso ter mais um filho sozinha. É impossível".

Nós mostramos fotos e contamos histórias de nossos filhos. Eu disse a ela como me sentia feliz por ter segurado meus três filhos em suas primeiras 24 horas. Sobre o parto de seu filho e sua filha, ela disse: "Os primeiros minutos depois que eles nascem são incríveis. Eles olham fixamente para você, como se já a conhecessem".

Quando nos levantamos para sair, ela apertou minha mão. "Minha mãe e minha irmã estarão lá para me ajudar e tudo isso, mas acho que eu não estarei lá para este bebê, não como eu estive com os outros." Ela parecia prestes a chorar, mas continuou: "Quero que ele tenha alguém desde o início".

Finalmente nos despedimos e eu voltei para casa numa rica névoa sensorial, pelo bebê e por esse novo relacionamento.

Três meses depois ela me telefonou, não para anunciar o nascimento, mas para explicar que um teste de estresse fetal satisfatório havia dado o OK para um parto induzido. Os feriados de fim de ano se aproximavam rapidamente, e nenhuma de nós queria que o parto caísse num dia ideal para comemorar com nossos outros filhos, os dela e os meus. Meu marido mais uma vez não quis me acompanhar, prometendo chegar no dia seguinte para trazer nosso novo bebê e eu para casa.

Cheguei ao hospital no meio da tarde, prevendo que passaria a noite toda lá. Levei revistas, um travesseiro e a pequena meia bordada que eu queria terminar antes do Natal. Eu tinha acabado de desenrolar uma meada de linha quando ouvi alguém me chamar. Olhei e vi o rosto de uma jovem que era claramente a irmã da mãe biológica.

"Você gostaria de vir à sala de parto?", ela perguntou.

Eu não tinha pensado que seria chamada antes do nascimento, mas a acompanhei pelo corredor até a sala de iluminação fraca. Lá encontrei a mãe recostada em travesseiros, sorridente, mas já em trabalho de parto avançado. Seu cabelo ruivo escuro estava despenteado e ela tinha suor na testa e sobre os lábios.

Sua mãe estava ao lado da cama com uma toalha e uma bacia prontas. Foi ela quem fez um gesto para eu me aproximar. Esperamos uma forte contração passar, depois nós quatro nos demos as mãos e em poucos minutos nossos limites pareceram se dissolver e começamos o trabalho para o qual estávamos ali.

Minha memória das três horas seguintes é muito clara, e tão sobrenatural quanto se fosse um sonho. O parto e os minutos que se seguiram ficaram em minha mente mais como impressões do que imagens claras. Lembro-me de cortar o cordão umbilical, e depois eu estava segurando o bebê e ele olhava para os meus olhos, como ela prometera.

Alguém chorava, depois todo mundo estava chorando, e minha atenção foi mais uma vez atraída para a mulher na cama. Uma enfermeira tirou a criança dos meus braços, explicando que ele precisava ser pesado no berçário e passar pelos exames de sangue de rotina para recém-nascidos. Ela deixou o quarto e eu voltei para meu lugar, como um membro integral desse grupo de mulheres que sorriam e choravam.

"Você não é católica, é?", perguntou a avó timidamente.

"Não, sou presbiteriana."

"Mas você não é uma daquelas, você sabe, que esperam até eles serem adolescentes para batizá-los?"

"Não", eu a tranqüilizei. "Sou a favor do batismo quando ainda são bebês."

Ela suspirou aliviada.

"Um mês no máximo, logo depois do Natal", eu disse. "Não se preocupe, ele está em segurança."

Uma tensão que eu não havia percebido pareceu se evaporar, e todas rimos e começamos a falar ao mesmo tempo, sobre o Natal, presentes e comidas, tudo menos bebês.

Depois de algum tempo a mãe biológica pegou meu braço e eu a ajudei a levantar da cama. Ela foi até o banheiro, apoiando-se um pouco em mim, e quando se virou apertou minha mão. "Eu estou bem", ela afirmou, e fechou a porta.

Quando saiu estava completamente vestida. Tinha penteado o cabelo e passado batom, e só seus olhos vermelhos e a voz um pouco rouca a denunciavam. "Acho que quero ir para casa agora", ela disse, olhando para sua mãe e sua irmã.

"Você vai embora?" Até eu pude sentir a apreensão em minhas palavras.

"Tem certeza?"

Ela balançou a cabeça.

Minha mente disparou com perguntas não pronunciadas. De repente eu precisava saber tudo, não apenas sobre sua família e sua história, mas as histórias das outras três mães biológicas que eu nunca conheci. De alguma forma, na intensidade de nossa experiência compartilhada, eu as havia combinado e feito dela o repositório dos segredos de todas as suas vidas.

Por mais tolo que parecesse, eu queria que ela me dissesse que todas elas estariam bem.

Enquanto seguimos pelo corredor, tentamos preencher o espaço com despedidas genéricas. Não houve declarações sobre mantermos contato.

Sabíamos que não faríamos isso. Quando as portas do elevador estavam fechando, pensei no bebê e meu pulso se acelerou, mas eu sabia que era mais que a emoção da nova maternidade.

Agora havia uma pessoa e um passado onde antes só houvera fantasia, e nos anos seguintes eu passaria a apreciar a importância dessa conexão. Eu observaria a intensa reação do meu filho à música, me encantaria com seu sorriso, admiraria sua determinação e saberia a origem dessas características.

E poderia decidir, quando chegasse a hora, contar para ele essa história, a sua história. Por enquanto, porém, foi com um "obrigada" silencioso para a mãe que eu conhecia e para as que eu não conhecia que voltei para o berçário e para meu filho. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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