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24/04/2007

Pílula que elimina a menstruação recebe opiniões decididamente mistas

The New York Times
Stephane Saul
Para muitas mulheres, uma pílula anticoncepcional que elimina a menstruação mensal pode ser até uma conquista bem vinda. Mas muitas vêem seus períodos menstruais como símbolos fundamentais de fertilidade e saúde, concluíram os pesquisadores. Em vez de odiarem sua menstruação, as mulheres claramente têm relacionamentos complexos de amor e ódio com ela.

Ruth Fremson/The New York Times 
Documentário 'Period: The End of Menstruation' defende que as mulheres não estão doentes

Essa ambivalência é uma das razões que geraram controvérsia diante de uma decisão esperada para o mês que vem pelo Departamento de Alimentos e Drogas (FDA). A agência deve aprovar a primeira pílula anticoncepcional feita para eliminar a menstruação da mulher que a estiver tomando. Os médicos dizem não conhecer riscos extras, mas algumas mulheres não se sentem à vontade com a idéia.

"Minha preocupação é que o ciclo menstrual é um sinal externo de alguma coisa que está acontecendo hormonalmente no corpo", disse Christine L. Hitchcock, pesquisadora da Universidade da British Columbia. Hitchcock disse que se preocupa com a "idéia que você pode ligar e desligar seu corpo como se fosse uma torneira".

Esse ponto de vista é aparentemente uma das razões que explicam por que algumas pílulas que já estão à venda e permitem que as mulheres tenham apenas quatro menstruações por ano não conquistaram uma porção maior do mercado do contraceptivo oral. "Não é uma decisão fácil para uma mulher desistir de suas menstruações", disse Ronny Gal, analista da indústria de drogas da Sanford C. Bernstein & Co.

Entretanto, se a nova pílula, chamada Lybrel, for aprovada, Gal prevê uma grande campanha de propaganda para persuadir as mulheres exatamente disso. A fabricante da droga, Wyeth, disse na quinta-feira (19/4) que estava esperando aprovação do FDA em maio, mas recusou-se a discutir seus planos de marketing.

Em pesquisa da empresa, quase dois terços das mulheres entrevistadas expressaram interesse em parar de menstruar. Isso se encaixa com as conclusões de pesquisas similares conduzidas por Linda C. Andrist, professora do Instituto MGH de Profissões da Saúde em Boston. "Não queremos mais lidar com nossas funções corporais", disse Andrist. "Estamos ocupados demais."

Os médicos dizem que não conhecem razões médicas para as mulheres tomando pílulas anticoncepcionais precisarem da menstruação. O sangramento mensal que as mulheres sofrem quando estão tomando a pílula não é uma menstruação de verdade. Além disso, estudos revelaram que não há riscos à saúde associados com os programas que interrompem a menstruação, apesar de alguns médicos advertirem que há poucas pesquisas sobre seus efeitos de longo prazo.

O tópico, entretanto, gerou um documentário de uma hora por Giovanna Chesler: "Period: The End of Menstruation?" (período: o fim da menstruação?), atualmente em apresentação em universidades e grupos feministas. Chesler, que ensina produção de documentários na Universidade da Califórnia em San Diego, disse que ficou preocupada quando ouviu falar pela primeira vez dos esforços para eliminar a menstruação, há vários anos.

"As mulheres não estão doentes", disse ela. "Elas não precisam controlar seus períodos menstruais por 30 ou 40 anos." O assunto também gerou um debate dentro da Sociedade de Pesquisa do Ciclo Menstrual, organização científica que fornece dados médicos e sociais sobre a menstruação.

Em 2003, o grupo emitiu uma declaração dizendo que mais pesquisas eram necessárias antes de as mulheres poderem tomar uma decisão informada sobre o uso de pílulas que suprimem sua menstruação. Essa declaração poderá ser revisada na reunião do grupo marcada para junho em Vancouver, Columbia Britânica.

Hitchcock, diretora da organização, disse que, apesar de parte dos resultados até agora serem confortantes, ela ainda se preocupa com o fato de a medicina não compreender plenamente as implicações de longo prazo da interrupção do período menstrual. Os mesmos hormônios que funcionam nos ciclos menstruais agem no cérebro, nos ossos e na pele, disse ela. "É preciso pensar se há conseqüências que não conhecemos para o corpo todo", disse Hitchcock, que participa do Centro de Pesquisa do Ciclo Menstrual e da Ovulação.

Também houve uma reação entre grupos que celebram a menstruação como um processo espiritual ou natural, como a Fundação Red Web, da Califórnia (www.redwebfoundation.org). "O foco de nosso grupo é criar atitudes positivas em relação ao ciclo menstrual; a supressão dele não seria positiva", disse Anna C. Yang, enfermeira holística e diretora executiva da organização.

Eliminar a menstruação não é um conceito completamente novo. Mulheres que tomam qualquer tipo de contraceptivo oral não têm menstruações de fato. Como os hormônios nas pílulas interrompem a liberação mensal do óvulo e do crescimento do tecido que recobre o útero, não há necessidade de liberá-lo, como ocorre na menstruação de verdade.

Mas desde o advento dos contraceptivos orais, nos anos 60, as pílulas anticoncepcionais em geral foram formuladas para imitar o ciclo menstrual natural de 28 dias, de forma a garantir às mulheres tomando a pílula que seus corpos estavam funcionando normalmente. As pílulas, em geral, vêm em caixas de 21 dias de pílulas hormonais e sete dias de pílulas inativas. A interrupção da terapia hormonal durante a parte inativa do programa induz o sangramento, que se parece com uma menstruação leve, mas é, de fato, causado pela instabilidade nos níveis hormonais.

Nos últimos anos, a indústria farmacêutica criou novas pílulas que alteram ciclo de 28 dias, aumentando o número de pílulas com hormônios e criando um período de sangramento menor.

O laboratório Barr causou sensação em 2003, quando apresentou o programa Seasonale, com 84 pílulas hormonais e sete placebos. As usuárias têm "menstruações" apenas uma vez a cada três meses.

Carol Cox, porta-voz da Barr, disse que as vendas da Seasonale atingiram US$ 120 milhões (cerca de R$ 240 milhões) nos 12 meses anteriores a junho de 2006, antes do equivalente genérico da Watson entrar no mercado. Mas mesmo nesse período de pico, a Seasonale foi responsável pelo que Gal chamou de "pequeno segmento" do orçamento anual de US$ 1,7 bilhão (aproximadamente R$ 3,4 bilhões) do mercado americano de contraceptivos orais.

A Barr, entretanto, acredita que há um mercado maior para suas pílulas e está patrocinando um site, www.fewerperiods.com, que explica como funciona o produto. E a empresa planeja uma campanha de propaganda direta nos próximos meses de uma nova versão do anticoncepcional, a Seasonique, que também reduz os períodos a quatro ao ano.

Na apresentação de Wyeth aos investidores e analistas em Nova York, em outubro, a diretora terapêutica da saúde da mulher, Ginger D. Constantine, apresentou dados prevendo que as vendas anuais da Lybrel poderiam atingir US$ 250 milhões (em torno de R$ 500 milhões). A empresa não disse quanto espera cobrar pela Lybrel, mas as pílulas anticoncepcionais em geral custam entre US$ 18 e US$ 50 por mês (entre R$ 36 e R$ 100), dependendo da marca.

Constantine citou pesquisas patrocinadas pela empresa indicando que as mulheres freqüentemente sentem-se menos eficazes no trabalho e nos estudos durante seus períodos menstruais. Elas limitam sua atividade sexual e exercícios, usam roupas escuras e ficam mais em casa, resultando em faltas, disse ela.

A supressão menstrual pode ser particularmente atraente para mulheres que sofrem de dores severas, sangramento pesado ou problemas emocionais durante a menstruação. Um estudo canadense revelou que mulheres com sangramento menstrual pesado perdem US$ 1.692 (cerca de R$ 3.400) por ano em salários.

Uma mulher que hoje usa a Seasonale disse que antes achava suas menstruações debilitantes. "Tinha meses em que eu não conseguia sair da cama, a não ser que tomasse 600 mg de Motrin", disse Marcella O'Neal, gerente de departamento da Nordstrom em Atlanta. O'Neal, 36, disse que a Seasonale tinha eliminado muitos de seus sintomas - câimbras, ondas de calor e depressão. "De fato, adoro", disse ela.

As opiniões sobre a menstruação sempre foram conflitantes. Algumas culturas proibiam as mulheres no período menstrual de entrarem em certos recintos ou exigiam banhos especiais no final da menstruação. Outras acreditavam que as mulheres tinham poderes especiais nesse período.

No diário de Anne Frank em seu esconderijo, ela fala sobre a menstruação: "Tenho a sensação que, apesar de toda a dor, desconforto e dificuldade, tenho um doce segredo", escreveu.

A pesquisa de Wyeth indica que a ambivalência em relação ao período menstrual continua até hoje. Metade das mulheres disseram que encontravam conforto na menstruação como indicação de que não estavam grávidas. Quase um quarto das mulheres entrevistadas disseram que estavam ligadas aos seus períodos, que entendiam como parte natural da mulher.

A pesquisa médica atualmente disponível mostra que os efeitos colaterais da pílula que suprime a menstruação são os mesmos das pílulas anticoncepcionais comuns. Os riscos são geralmente baixos, sendo o mais significativo o de problemas cardiovasculares em mulheres que fumam, e por isso as pílulas vêm com uma advertência contra fumar.

Alguns médicos advertem que não há dados sobre o que acontece quando a menstruação é suprimida por um período muito longo. "Não temos estudos de longo prazo para o que acontece se você interrompe suas menstruações por anos e anos e anos", disse Maria Bustillo, endocrinologista em Miami. Bustillo disse que provavelmente não havia maior risco do que os programas anticoncepcionais comuns, mas acrescentou que "ainda não se sabe ao certo" se pode aumentar o risco de câncer de mama.

Apesar de os estudos serem conflitantes, alguns mostraram que a pílula anticoncepcional pode aumentar esse risco. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, a pesquisa indica que a pílula aumenta o risco de câncer de fígado em mulheres de baixo risco, enquanto diminui o risco de câncer de ovário e endométrio - o tecido que recobre o útero.

Com a Seasonale e a Seasonique da Barr, o maior problema médico até agora - que também tem aparecido nos testes da Lybrel da Wyeth - é que as usuárias podem ter sangramentos irregulares imprevisíveis, pior do que com pílulas anticoncepcionais comuns.

Para algumas mulheres que vêem sua menstruação como a ordem natural das coisas, as preocupações vão além de preocupações puramente médicas.

Na livraria alternativa Bluestockings Bookstore www.bluestockings.com no Lower East Side de Manhattan, no início do mês, dezenas de mulheres reuniram-se para a estréia do documentário de Chesler de uma hora: "The End of Menstruation?". O filme explora a idéia da supressão do período menstrual, mas deixa o telespectador tomar sua própria decisão.

Uma das pessoas presentes, Aviva Bergman, estudante de 22 anos do Colégio Goucher em Maryland, disse que não usaria produtos que suprimem sua menstruação pois seria pouco natural. "Sinto que há uma razão para termos isso todo mês", disse ela. Deborah Weinberg

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