UOL Notícias Internacional
 

25/04/2007

Escolha de candidato presidencial turco é sinal de ascensão da classe média muçulmana

The New York Times
Sabrina Tavernise*

Em Istambul
Nesta terça-feira (24/4) o partido governista da Turquia escolheu um candidato presidencial que tem um forte histórico muçulmano, uma medida que pela primeira vez ampliará o alcance do partido - e a emergente classe de muçulmanos devotos representada por ele - até o coração do establishment secular do país.

A seleção fez com que aumentassem as preocupações dos turcos seculares, que temem que a igualdade dos sexos, assim como o consumo de álcool e uso de minissaias possam ser ameaçados no futuro.

Abdullah Gul, 56, o primeiro-ministro, cuja mulher usa um véu muçulmano, e que é o mais próximo aliado político do primeiro-ministro Tayyip Erdogan, deverá ser confirmado como presidente pelo Parlamento em várias rodadas de votações que terão início na próxima sexta-feira. Isso fortalecerá a nova classe política da Turquia - modernizadores que têm um histórico religioso.

"Essas são as novas forças, os novos poderes sociais", disse Ali Bulac, um colunista do jornal conservador "Zaman", em Istambul. "Eles são muito devotos. Não bebem. Não jogam. Não folgam nos feriados. E estão carregados de uma grande energia. Essa energia vinha sendo bloqueada pelo Estado".

A Turquia é um país muçulmano, mas o seu Estado, fundado em 1923 por Mustafa Kemal Ataturk, é estritamente secular, e a presidência é o cargo mais importante.

Gul, um afável falante da língua inglesa que há muito tempo é a face pública do seu partido no exterior, procurou tranquilizar a elite secular em uma entrevista coletiva à imprensa em Ancara, logo após a sua nomeação, afirmando: "As nossas diferenças são a nossa riqueza". A sua candidatura foi uma concessão: a alternativa mais desagradável para o establishment secular seria o próprio Erdogan, que sai habilmente do cenário.

Mesmo assim, caso Gul seja confirmado, o seu partido ocuparia os cargos de presidente, primeiro-ministro e presidente do parlamento, um arranjo que o líder do partido de oposição, Deniz Baykal, definiu como "desfavorável". Mais tarde o seu partido anunciou que boicotaria a votação.

No Oriente Médio, onde a mistura de religião e governo tem sido vista como um veneno para a modernidade, a combinação bastante suave encontrada pela Turquia se destaca como incomum, ou até mesmo única.

"Este partido fez mais pela modernização da Turquia do que todos os partidos seculares nos anos anteriores", afirmou Joost Lagendijk, membro do Parlamento Europeu que lidera um comitê sobre questões turcas. "Ele se mostrou disposto a abrir o sistema, a desafiar a elite".

O partido que Gul ajudou a fundar, conhecido pelas suas iniciais turcas, AK, teve origem nos movimentos políticos islâmicos turcos da década de 1990, mas passou por significativa moderação após chegar ao poder em escala nacional em 2002. Desde então, ele vem aplicando as suas políticas pragmáticas para ajudar a criar um boom econômico sem precedentes e a abrir o Estado de formas nunca imaginadas pela rígida elite secular, em parte para que o país se qualifique para o ingresso na União Européia.

Embora a posição oficial do partido seja inflexível no sentido de manter a religião separada da política, e a agremiação se enfureça quando é descrita apressadamente como sendo pró-islâmica, o AK obtém grande parte do seu apoio no coração conservador religioso da Turquia. Antigamente restritos à periferia, esses turcos tradicionais estão agora emergindo como uma poderosa classe média que provocou o boom econômico turco. A economia quase dobrou de tamanho nos quatro anos que se seguiram à ascensão do AK ao poder, em grande parte porque o partido seguiu um programa econômico prescrito pelo Fundo Monetário Internacional.

A candidatura de Gul remete ao cerne do debate sobre o secular e o religioso, já que a presidência é um símbolo tão reverenciado e é dotada de poderes reais - o presidente é o comandante-em-chefe e tem poder de veto. No passado os líderes militares turcos frisaram que se recusariam a visitar o palácio presidencial caso este fosse habitado por uma mulher que usasse o véu muçulmano.

"Como é que ela agora pode se tornar a anfitriã de um palácio que representa exatamente os mesmos princípios?", questiona Necmi Yuzbasioglu, professor de direito constitucional da Universidade de Istambul.

Mehmet A. Kislali, colunista do jornal "Radikal", que tem fortes vínculos com as forças armadas, disse: "Os militares não devem ser subestimados. Milhares de oficiais estão acompanhando o desenrolar dos acontecimentos".

Mas a única aplicação real do islamismo pelo partido diz respeito a abordagens junto às bases eleitorais. Em práticas que soariam familiares aos muçulmanos xiitas no Líbano ou aos palestinos na Faixa de Gaza, grupos de mulheres vão de porta em porta oferecendo ajuda, centros comunitários oferecem às mulheres cursos de alfabetização e núcleos esportivos fornecem fisioterapia para as crianças portadoras de deficiências.

*Sebnem Arsu contribuiu para esta matéria UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h50

    0,04
    3,268
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h52

    1,81
    63.795,81
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host