UOL Notícias Internacional
 

26/04/2007

Tentativas sauditas de reformas democráticas deixam a desejar

The New York Times
Hassan M. Fattah

Em Jidda, Arábia Saudita
Foi uma cena para animar qualquer democrata. Aqui neste reino autocrático conselheiros municipais eleitos prometiam defender os pescadores pobres e pedir ao governo para que uma grande área da costa, para a qual está prevista uma nova universidade, continuasse acessível aos moradores locais.

Após uma hora de discussão vigorosa, o Conselho Municipal de Jidda aprovou uma resolução pedindo que o trecho à beira-mar permanecesse aberto às pessoas. Mas havia um detalhe: a resolução é apenas simbólica; seus termos não se tornarão públicos e é improvável que tenha qualquer impacto sobre os planos do governo.

Há dois anos, em grande parte a pedido do governo Bush, foram realizadas as primeiras eleições da história saudita para os conselhos municipais em um pequeno número de cidades, incluindo Jidda, Riad e Meca. Apenas homens puderam votar e apenas metade dos membros do conselho foi eleita, mas ainda assim as eleições foram saudadas como sinais de mudança.

Mas cada vez mais os conselhos são considerados apenas como símbolos do oposto: estagnação política. "Nós achávamos que bastaria a convocação de eleições e pronto", lamentou Abdullah al Otaibi, um defensor de mudanças políticas que desistiu e se mudou para Dubai no ano passado, para ajudar a abrir um centro de pesquisa. "Agora nós sabemos que as coisas não funcionam tão facilmente."

Há muitos motivos para a mudança democrática ter sido abandonada, incluindo um boom econômico alimentado pelos altos preços do petróleo e uma política externa regional mais agressiva, disseram os defensores sauditas de mudanças.

"A maldição do dinheiro do petróleo é que ele deteve todas as reformas", disse Sulaiman al Hattlan, editor-chefe da "Forbes Arabia", com sede em Dubai, e um antigo defensor de mudanças saudita. "Quanto mais dinheiro você tem, mais arrogante você se torna, porque acha que pode implementar qualquer coisa ao seu modo."

Ao longo do último ano, o governo promoveu uma repressão aos defensores de mudanças, impôs restrições aos seus encontros e até mesmo abandonou iniciativas há muito prometidas. Os conselhos municipais provaram ser impotentes diante da entranhada burocracia governamental da Arábia Saudita e de um mandato decididamente vago. Segundo um membro do conselho, mais da metade das decisões tomadas pelos conselhos não foram atendidas. As demais eram em apoio ao governo central.

"As pessoas nos conselhos querem fazer você pensar que estão trabalhando, mas no final são impotentes", disse Bassim Alim, um proeminente advogado de Jidda e um defensor de mudanças. "O restante é apenas exibição", ele disse.

Não deveria ser desta forma.

Após 15 sauditas terem participado dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e da onda de terrorismo que atingiu o próprio reino de 2004 a 2005, muitos sauditas argumentaram que as rígidas condições políticas e econômicas daqui transformaram a Arábia Saudita em um solo fértil para o extremismo.

O rei Abdullah -na época o príncipe regente- promoveu uma campanha por mudanças, conduzindo diálogos nacionais, iniciando novos programas e popularizando a linguagem da reforma. O ambiente revigorou pessoas por todo o país, que começaram a pedir abertamente por mudanças políticas.

Em 2005, o governo realizou eleições para os novos conselhos municipais, permitindo que metade dos 14 membros de cada conselho fosse eleita pela população local e os demais fossem nomeados pelo governo.

Algumas mudanças ocorreram. A temida polícia religiosa do país foi forçada a se conter e as mulheres viram aliviadas algumas das restrições mais severas do dia-a-dia, apesar de ainda serem proibidas de fazer coisas que a maioria das mulheres considera normal, como dirigir. O rei Abdullah também implementou importantes mudanças constitucionais que permitem aos membros mais velhos da família real elegerem um príncipe entre os candidatos apontados para próximo rei.

Algumas leis voltadas para reuniões públicas e procedimentos criminais também foram mudadas, disse Alim. Enquanto isso, as eleições para os conselhos municipais provaram ser um passo simbólico que encorajou mais sauditas a se manifestarem e se queixarem, disseram membros do conselho.

Muitos sauditas abandonaram a agenda de mudanças, disseram analistas políticos, preferindo se concentrarem em metas sociais mais acessíveis, ou simplesmente aderindo ao discurso sectário que explora os temores da crescente influência do Irã na região.

Autoridades do governo ainda mencionam reformas e elogiam mudanças, mas freqüentemente enfatizam que elas devem ocorrer lentamente e de forma gradual. Enquanto isso, as autoridades de segurança se tornam menos tolerantes com pedidos por coisas como uma monarquia constitucional e eleições para o Conselho Shura. George El Khouri Andolfato

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