UOL Notícias Internacional
 

27/04/2007

Condenação de terrorismo repercute em comunidade de imigrantes

The New York Times
Neil MacFarquhar

Em Lodi, Califórnia
Khalid Farooq tem evitado o bangalô amarelo que serve como mesquita da comunidade paquistanesa aqui há quase dois anos, desde que um pai e filho que adoravam lá foram presos sob suspeita de serem soldados da Al Qaeda.

Sempre que vai a algum lugar como o Wal-Mart, longe das bem cuidadas ruas margeadas por árvores que formam o centro do bairro paquistanês de Lodi, Farooq troca suas roupas tradicionais por trajes americanos comuns, segundo ele até quatro vezes por dia.

"Algo mudou no ar, são tempos assustadores", disse Farooq, que veio para cá há 25 anos para trabalhar nos campos pretos e planos que cercam esta cidade. "Nós não queremos conversar, nós todos estamos com medo."

A maré de medo avançou e nunca recuou após um informante ter incriminado dois homens de Lodi, Umer Hayat, um motorista de caminhão de sorvete, e seu filho Hamid, que foram presos em junho de 2005. O julgamento deles foi concluído há um ano, com o Hayat mais jovem, 24 anos, condenado por fornecer material de apoio para o terrorismo ao freqüentar um campo de treinamento no Paquistão. Seus advogados impetraram recentemente um pedido de novo julgamento sob o argumento de parcialidade do júri.

Os membros da comunidade desconfiam uns dos outros quase tanto quanto de estranhos. Mesmo agora, moradores com sinais repentinos de riqueza, como um novo carro ou móveis, são imediatamente envolvidos em rumores de que estão na folha de pagamento do FBI. Qualquer coisa ligada ao governo fica automaticamente sob suspeita.

Algumas pessoas suspenderam as visitas domésticas de agências de serviço social, outras não escrevem seus números do Seguro Social em documentos do governo. Alguns moradores que voltam para casa após visitarem o Paquistão evitam incluir seus endereços de Lodi em seus formulários americanos de imigração e alfândega.

"Você não diz a palavra 'terrorista', você não diz a palavra 'bomba', porque as orelhas das pessoas ficam em pé instantaneamente", disse Taj Khan, um engenheiro aposentado e um candidato fracassado à Câmara dos Vereadores de Lodi. "As pessoas olham umas para as outras com suspeita, para ver quem é informante do FBI, quem acusará quem?"

Todas as acusações de terrorismo foram retiradas contra Umer Hayat, 48 anos, que foi condenado ao tempo já cumprido de prisão após se declarar culpado de mentir sobre o dinheiro que tirou do país.

O caso contra Hamid Hayat foi construído com base em suas confissões assim como no depoimento do informante, que recebeu US$ 225 mil após contar ao FBI a história um tanto improvável de que o vice de Osama Bin Laden, Ayman al Zawahri, já visitou a mesquita de Lodi.

Ninguém na comunidade paquistanesa daqui parece acreditar que os Hayats, ambos cidadãos americanos, são culpados de algo além de uma decisão ruim. Mesmo o promotor no caso, McGregor W. Scott, o procurador-geral federal do Distrito Leste da Califórnia, apesar de apoiar a condenação, expressou arrependimento de ter usado o rótulo da Al Qaeda.

Mas isto não ajuda a diluir o senso de medo e isolamento. A população paquistanesa de Lodi, uma cidade de 62 mil habitantes a 116 km a leste de San Francisco, é uma espécie de anomalia. A maioria dos imigrantes paquistaneses vem para os Estados Unidos para buscar uma carreira profissional, para se tornarem doutores ou acadêmicos em grandes cidades. Mas muitos camponeses rurais passaram a vir para Lodi por volta de 1920, e os moradores dizem que 80% dos 2.500 muçulmanos da cidade são paquistaneses.

Eles chegam como trabalhadores rurais e nunca realmente são assimilados, preservando seus modos tradicionais ao enviarem os jovens de volta ao Paquistão para casamentos arranjados.

"Nossos pais nos casam rápido demais - você se casa, não vai para a escola e não aprende nada", disse Usama Ismail, 21 anos, o primo mais jovem de Hayat e que às vezes tropeça nas palavras enquanto traduz as gírias de rua para o inglês. "Se você tiver um filho ou filha que está noivo no Paquistão, pelo menos um dos pais será analfabeto, e se o homem for analfabeto, ele certamente manterá isto entre as pessoas de casa."

Robina Asghar foi uma noiva adolescente e às vezes fica nostálgica com o cheiro dos bosques de laranjeiras em sua aldeia natal. Mas ela tem diploma universitário aqui e se tornou uma assistente social.

"Nós somos tão temerosos em preservar a cultura que não construímos pontes para aprender a sobreviver em uma comunidade maior", disse Asghar. "Nós nos isolamos."

Um dos elementos mais fortes de tal cultura é que homens e mulheres não se misturam em público. Muitas meninas paquistanesas em Lodi são tiradas da escola e ensinadas em casa assim que atingem a puberdade, disseram autoridades escolares. Não há restaurantes paquistaneses e apenas duas lojas, uma que vende tecidos e uma mercearia especializada em itens como farinha branca de trigo metade normal, metade integral, necessária para fazer o pão naan.

Razia Farooq, a esposa de Farooq, vende rolos de tecido rosa, laranja e alfazema. As brincadeiras de cidade pequena dos outros moradores de Lodi desapareceram após as prisões, disse Razia, com qualquer mulher caminhando pela rua em roupas tradicionais provavelmente ouvindo "Por que você não volta para seu próprio país!", acompanhados de palavrões, dos veículos em trânsito.

Sua loja não tem placas, e após as prisões ela instalou persianas porque os clientes temiam que qualquer um de passagem poderia notar os paquistaneses e fazer algo violento.

A tensão cresceu até mesmo em uma divisão profunda pelo controle da mesquita - de fato, muitos suspeitam que uma facção pode ter trazido o FBI para manchar seus rivais. Dois imãs importados do Paquistão, os alvos iniciais da investigação federal envolvendo os Hayats, foram expulsos do país sob acusações de infrações de imigração. Uma facção os acusou de desenvolverem uma escola e centro islâmico que ensinariam o Islã radical. A outra facção acredita que o grupo que controla a mesquita tinha ciúmes do centro social, de forma que inventou a história e poderia igualmente denunciar outros.

"Há um monte de mentiras", disse Nick Qayyum, o secretário da mesquita. "As pessoas estão usando para seus próprios fins."

O tumulto na mesquita toda sexta-feira levou ao seu abandono por vários fiéis há alguns meses, e eles agora realizam reuniões congregacionais de oração em uma igreja. Umer Hayat está entre eles.

Outros preferiram se mudar, vendo a perspectiva de viver com parentes na Carolina do Norte e Texas como melhor do que serem manchados pelo que consideram uma reputação não merecida de Lodi.

"Assim que seu nome é manchado, eu não sei como é possível limpá-lo", disse Shakila Khan, que dirige programas sociais aqui. George El Khouri Andolfato

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