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28/04/2007

Amor moderno: como meu encanador transformou água em vinho

The New York Times
De Alice Feiring*
Naquela noite eu subi as escadas até meu apartamento, levemente inebriada por um velho tinto italiano e por um tipo de centelha emocional que não sentia por um homem há muito tempo. Refletindo sobre se teria coragem de embarcar novamente no trem romântico, eu entrei no banheiro para descobrir, por cortesia de meus pés descalços, que meu tapete persa feito à mão estava ensopado.

Meu vaso sanitário - com uma antiga caixa de descarga ativada por cordão situada a 1,5 metro acima - se separou da parede naquela noite, fazendo com que os canos vazassem a cada descarga. Aquela não era uma situação com a qual poderia lidar às 2h30 da manhã, de forma que enxuguei tudo e resolvi não dar descarga até que o problema pudesse ser consertado.

Por volta das 11 horas da manhã, o sr. Encanador -um belo descendente de porto-riquenhos (como descobriria posteriormente) e provavelmente uma década mais novo- subiu a escadas.

"Meu salvador!" eu gritei.

Ele não ficou impressionado com minha recepção de herói.

Ele não fez contato com os olhos.

Ele pediu para ver o banheiro.

Eu o conduzi até lá, onde ele examinou os frágeis canos de cobre que, como o Vesúvio, esguichavam água para toda parte quando a descarga era dada.

"Nossa!" ele exclamou, colocando a palma de sua mão contra a parede.
Claramente, trabalhar em um banheiro digno de peça de museu não era sua idéia de diversão. "Moça, este é um banheiro velho."

"Sim, eu sei", eu disse. Eu não queria ouvir que ele me arrumaria um novo do Home Depot.

Olhando para cima, ele perguntou: "Quem fez o reservatório de água para você? Ele é bonito".

Eu olhei para o reservatório de água de pinho siberiano perfeitamente adaptado. "Meu antigo namorado."

Eu vi que ele registrou o "antigo" quando mencionei namorado. "Por que deixou ele ir embora?" ele perguntou. "Você tem que manter alguém que faz uma coisa destas para você."

Aquele era um sujeito acostumado a ter seu coração partido em vez do contrário, eu percebi. Eu moro em um apartamento em que os cômodos são enfileirados, todos abertos, de forma que toda minha vida fica exposta para qualquer um que entre. Prestes a sair para comprar materiais, ele viu minha estante de vinhos e se encolheu. "Dona, a senhora bebe muito?"

"Eu escrevo sobre vinhos", eu respondi.

Os olhos dele se arregalaram e deixou escapar uma leve gargalhada. "Eu sei que as pessoas bebem vinho", ele disse, "mas o que há para escrever a respeito?"

"Suas histórias", eu disse.

Ele balançou a cabeça desdenhosamente, mas eu pude sentir que ficou intrigado. Ele achou ainda mais engraçado quando lhe disse que minhas 170 garrafas não eram suficientes. Eu me sentiria à vontade com cerca de 1.500.

Ele então viu a desordem que marca minha sala de estar e escritório. "Você é uma espécie de artista?" ele perguntou. "Quero dizer, sabe como é, artistas costumam fazer suas próprias coisas, e olhando ao redor, os abajures, as cores, aquela mesa maluca na qual você trabalha. Você faz suas próprias coisas." Ele passou por algumas poucas aquarelas na parede. "Você as pintou?"

"Sim."

"Viu? Eu sabia." Ele parecia satisfeito consigo mesmo.

Ao longo das três horas seguintes, o encanador investigador soldou, fixou, xingou, conversou consigo mesmo, remendou, fez uma bagunça completa, arruinou minhas melhores toalhas e sujou de gesso meu piso e tapetes. Nas pausas do drama do banheiro, ele se aventurava para ver se eu estava digitando no computador, olhar novamente os vinhos e procurar outras evidências de obras deixadas pelo "antigo" namorado.

"Foi ele que fez sua mesa?"

"Sim."

Outro balançar pesaroso de cabeça. Eu sabia exatamente o que ele estava pensando.

"Veja só isto", ele disse, notando a forma curvilínea de uma das laterais da mesa. "Você precisa reconquistá-lo." Ele percorreu os cômodos, apontando.

"Ele fez isto?" ele perguntou, apontando para o ornamento de ferro soldado em uma janela.

"Sim."

"Foi ele que refez seu piso? Foi ele que montou a estante de vinhos?"

Eu confirmei com a cabeça.

"E você o deixou ir embora? Por que fez isso?"

O que dizer a ele? Finalmente eu disse: "Eu realmente não tive escolha no assunto".

Ele reagiu como se tivesse sido avisado de um óbito. "Sinto muito", ele disse.

Tanto ele quanto eu vimos o amor, atenção e cuidado empregado em cada peça da construção do meu apartamento. "Eu também sinto", eu disse.

"Dona, me desculpe por ter perguntado."

Eu retomou seu trabalho, fazendo uma pausa de vez em quando para conversar. Esta coisa de romance o estava incomodando. "Eu não tenho sorte com garotas", ele se queixou. "Tinha uma, ela era velha, cerca de 48 anos, em Porto Rico."

Nossa, eu pensei, quanto anos ele acha que eu tenho?

"Ela tinha dinheiro", ele disse. "Ela era professora. Nós estávamos conversando sobre o 11 de Setembro. 'Eu estava lá', eu disse para ela. 'Eu poderia ter morrido.' Sabe o que ela disse? Ela disse: 'Foi bem feito as torres terem caído. A América aprendeu uma lição'. Eu não consegui mais olhar para ela depois que ela disse aquilo. Eu não podia lidar com uma loucura daquela."

"Minha antiga namorada?" ele continuou. "Há poucos meses, ela tocou a campainha e disse: 'Faz tempo que não te vejo. Eu quero você'. Nós fizemos sexo. Depois, ela circulou pelo meu apartamento como se fosse a dona do lugar, me dizendo o que podia e não podia fazer e a forma como as coisas seriam. As mulheres gostam de controlar você. Foi a gota d´água. Eu a mandei embora. Bons ventos a levem." Então ele me deu um conselho: "Não controle seu homem".

Obrigada, eu pensei, vou me lembrar disto.

Ele substituiu o cano de cobre furado por um novo de metal reluzente. O cheiro da solda tomou o apartamento. Ele cimentou o vaso sanitário de porcelana de volta ao lugar, dizendo: "Ele não foi instalado direito".

"Sim, eu sei. Sempre vazava cheiro de esgoto."

"Com certeza", ele disse. "Fedia ali."

Era estranho quão poucas pessoas percebiam o cheiro. Foi meu primeiro namorado que primeiro percebeu o mau cheiro ocasional causado pela má instalação - uma das poucas coisas que ele não consertou antes de partir.

"O vaso sanitário está pronto!" disse o encanador. "Não vai cheirar mais nem se mover quando você se sentar. Tente. Pode tentar empurrar. Ele não vai sair do lugar."

Quando conheci meu ex, ele me desafiou em uma forma de flerte mais apropriada a um garoto de 16 anos do que a um homem de 32 anos. "Me dê um soco no estômago", ele me disse. "É como ferro. Tente. Bata forte. Você não vai me machucar. Tente."

Nós permanecemos apaixonados por 11 anos, mas o final foi rápido. Ao voltar para casa após visitar vinícolas na Sicília, eu passei horas chorando no avião. Eu estava preparada para dizer ao meu 'sr. faz-de-tudo' que havia algo terrivelmente errado entre nós e que eu queria endireitar as coisas. Nosso relacionamento precisava da atenção que ele dedicava ao apartamento. Na verdade ele sentia a mesma coisa, mas tinha outra solução.

Ele carregou minhas malas pelos cinco lances de escada e então, assim que entramos, me levou até o banco de pinho que fez para mim. Lá, como se eu já estivesse de luto, ele me disse que iria embora.

Ir embora? Mas eu tinha acabado de chegar. O que ele queria dizer com aquilo?

Ao longos dos anos, durante os quais ele transformou meu poleiro em um palácio, eu lhe disse: "Você parece um gato demarcando a propriedade. Se você partir, como outro homem poderá viver neste apartamento?"

O sr. Encanador sentiu isto. Eu me perguntei se ao reparar tão cuidadosamente meu banheiro ele estava tentando me mostrar que meu antigo amor não era o único capaz de consertar o que estava quebrado. Talvez
houvesse alguém capaz de consertar as coisas comigo e não para mim. Era uma lição que valia a pena escutar. Eu achei que lhe devia algo por aquilo e por consertar o vazamento. "Que tipo de vinho você gosta?", eu perguntei, tendo uma grande idéia.

"Eu não sei, mas gosto deles gelados. Quais você bebe gelados?"

"Branco ou rosé." Eu estava prestes a lhe dizer que alguns tintos leves podem ser resfriados, mas me parecia supérfluo.

Ele tinha tão pouco entendimento de vinho; será que ele realmente apreciaria os mais peculiares que eu tinha a oferecer? Ao mesmo tempo, eu me sentiria culpada se lhe desse algumas das amostras tediosas que as vinícolas costumam enviar para mim.

Eu tive aquela idéia maluca de que se lhe oferecesse os vinhos certos, eu poderia mudar sua sorte com as mulheres. Obviamente, eu tinha que lhe dar algo de qualidade.

Após três horas conhecendo aquele homem, vendo o quanto ele era observador, escutando seus comentários sobre raça, mulheres, política e o que significava ser porto-riquenho, assim sobre como ele realmente não sabia falar espanhol, só o suficiente para conquistar as garotas, eu já sabia o suficiente para fazer minhas escolhas.

Eu comecei com um chardonnay da Califórnia e lhe disse para beber com alguém que gostasse do óbvio, explicando que tal mulher no final não seria para ele.

Em seguida escolhi um albarino espanhol. "Abra este aqui com alguém que tenha potencial para um longo relacionamento", eu disse. "Se ela gostar, significa que ela é uma pensadora que não tentará controlar você. Você deve considerar um novo encontro com ela e talvez mais."

Finalmente, eu lhe dei uma meia garrafa de moscato d'Asti. "Este aqui é para quando quiser que ela se apaixone por você, ok?"

Ele era meu novo melhor amigo. "Este aqui?" ele perguntou. "O doce?"

"Sim! É doce sem ser doce demais." Eu estava começando a acreditar na minha própria propaganda.

"Dona, eu não acredito que esteja fazendo isto", ele disse, sorrindo. "Eles são amuletos da sorte."

Enquanto partia, eu finalmente perguntei o nome dele.

"Juan", ele disse, com um aperto de mão.

"Alice", eu disse.

"E o doce, é o especial? Até o formato da garrafa é sensual."

"Sim, é o especial."

"O que seu antigo namorado bebia, aquele que fez todo o trabalho?"

Eu lhe disse que teria que esperar até a próxima emergência de encanamento, porque era uma longa história. Mas depois que ele partiu, eu fui até o computador e mandei um e-mail para o homem com quem saí na noite anterior, com o qual bebi o piney e um Monsanto Chianti 1977 que perdeu um pouco de sua força.

Meu apartamento não seria mais uma peça de museu de um antigo amor perdido. Era hora de deixar uma pessoa nova entrar nele.

*Alice Feiring é uma blogueira e escritora de vinhos de Nova York. Seu livro, "The Battle for Wine and Love", será publicado no próximo ano pela Harcourt. George El Khouri Andolfato

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