UOL Notícias Internacional
 

01/05/2007

Para o cromossomo X materno, o sexo é apenas o começo

The New York Times
Natalie Angier
Com a aproximação do mês de maio, nós mães antecipamos com animação os cartões de dia das mães e os almoços superfaturados que, de alguma forma, vamos acabar pagando. A seguinte descrição do cargo pode parecer familiar:

The New York Times 

Deve ser excepcionalmente estável, mas ainda assim absurdamente responsiva às necessidades das pessoas a sua volta; deve estar disposta a seguir seus amados, limpando suas bagunças e compensando suas deficiências e egoísmos; deve trabalhar o dobro do que todo mundo; deve aceitar a culpa por uma longa lista de doenças do mundo; deve ter talento para moldar mentes jovens sem negligenciar os tecidos menos glamorosos do organismo abaixo; deve ter uma tolerância para conversa sem sentido e repetição; e, quando solicitada, deve concordar em, calar a boca, sumir no cenário e fingir que não existe.

Acontece que o resumo acima se refere não só à nobre profissão de mãe à qual todos nós devemos nossas vidas e nossos complexos de culpa. Também é uma boa descrição do cromossomo que permite um humano ou qualquer outro mamífero tornar-se mãe em primeiro lugar: o cromossomo X.

O cromossomo X, como seu colega mais curto e não menos conspícuo, o Y, é chamado de cromossomo sexual, um segmento de DNA que recebeu a tarefa crucial da determinação do sexo. Um embrião mamífero com um X e um Y se torna macho, enquanto um mamífero com um par de cromossomos X emerge do útero materno com possibilidades próprias de maternidade.

O cromossomo X, entretanto, faz muito mais do que ajudar a especificar os encanamentos reprodutivos de um animal. Os cientistas que estudam o cromossomo vêm descobrindo ultimamente que o X é um repositório rico de genes vitais ao desenvolvimento do cérebro e pode conter a chave da evolução de nosso córtex particularmente corrugado. Além disso, o cromossomo X comporta-se de forma diferente de qualquer outro cromossomo do corpo - com certeza é diferente do pequeno homem Y e ainda difere de nossos 22 outros pares de cromossomos - os autossomos, que constituem o resto de nosso genoma, o kit de DNA completo empacotado em cada célula que carregamos. O X é como uma boneca elástica flexível, que faz múltiplas tarefas no genoma; e quando mais você olha, mais Cirque du Soleil parece.

Apesar dos detalhes precisos de sua estrutura e operação estarem apenas emergindo, o cromossomo X há muito é famoso entre os geneticistas. Eles o batizaram de X não por seu formato, como se presume em geral -o cromossomo não sexual também se parece vagamente com um X durante a divisão celular- mas pela forma que se mantém distante dos outros pares de cromossomo. "Eles chamaram-no de X por ser desconhecido", disse Mark T. Ross, do Grupo Cromossomo X do Instituto Wellcome Trust Sanger, em Cambridge, Inglaterra.

(Quando seu colega masculino muito menor finalmente foi detectado, os pesquisadores simplesmente seguiram o alfabeto para batizá-lo) Muitas das primeiras doenças a serem reconhecidas como hereditárias estavam ligadas ao X pela razão paradoxal que tais condições se mostravam mais freqüentemente nos que tinham um único X, os homens.

Os cientistas eventualmente determinaram que herdamos duas cópias de nossos 23.000 genes, uma de cada pai, e que esses genes, essas diretrizes químicas de como construir e manter um humano, estão espalhados entre os 23 pares de cromossomos, junto com quantidades absurdas de conversa química sem sentido aparente.

Ter duas cópias de cada gene prova-se especialmente útil quando um gene apresenta defeito, ponto em que a versão funcional do gene pode ser ativada e especificar suficiente proteína essencial para o bom crescimento do bebê.

E por que o Y é pequeno? Porque abriga meros 50 genes aproximadamente, contra os 1.100 de seu colega. A vasta maioria dos genes do X não tem substituto potencial no Y. Um menino que herda da mãe um cromossomo X com um gene defeituoso para um fator coagulante, digamos, ou para uma proteína muscular, ou para um receptor de cor não encontrará socorro no cromossomo análogo dado pelo pai. Ele nascerá com hemofilia, distrofia muscular ou daltonismo. Mas será um menino, pois construir o sexo masculino é a tarefa à qual o cromossomo Y dedica-se exclusivamente.

De fato, é para compensar a monomania do Y que o cromossomo X tornou-se a mãe que executa várias tarefas. Durante os 300 milhões de anos de evolução, enquanto o cromossomo Y deixava suas responsabilidades genéticas em busca da especialização sexual, o X teve que assumir as tarefas. Ele também deixou genes para outros cromossomos. No entanto, para os genes pelos quais ainda é responsável, o X deve duplicar sua produção, para prover duas vezes a proteína de um gene ordinário e assim ser o equivalente único de pares de genes localizados em outros cromossomos não sexuais.

Ah, mas e as mulheres, que têm dois cromossomos X, duas cópias desses 1.100 genes, o que acontece com elas? Nas células das meninas, você não vê dois cromossomos X agradavelmente ativos funcionando, como dois cromossomos comuns não sexuais. Você vê um cromossomo X hiperativo, seus genes ocupados bombeando o dobro da quantidade de proteína, como nas células de um menino; e você vê um cromossomo X em grande parte desligado, disse Laura Carrel, geneticista do Colégio Estadual Penn de Medicina.

Por um processo elaborado chamado de inativação do X, o cromossomo é protegido com uma fita adesiva de acido nucléico. Em algumas células do corpo da mulher, o cromossomo do pai pode estar amordaçado, enquanto em outras, o da mãe.

Toda filha, portanto, é um mosaico ambulante de cromossomos barulhentos e silenciosos, de sermões paternos e conselhos maternos, enquanto todo filho tem apenas a voz da mãe para guiá-lo. Lembrem-se disso, rapazes: vocês são todos filhinhos da mamãe. Deborah Weinberg

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