UOL Notícias Internacional
 

01/05/2007

Visão panorâmica de uma aldeia lá em cima, perto do céu

The New York Times
Beth Greengield
Vista de longe, Marvão, a vila medieval portuguesa, parece uma miragem de conto de fadas, no aconchego de uma montanha a quase 1.000 metros de altura.

Michael Barrientos/The New York Times 
"De Marvão pode-se ver a terra inteira", disse José Saramago em "Viagem a Portugal"

Para chegar lá, é preciso seguir de carro por uma estrada íngreme e cheia de curvas - em ziguezagues radicais - que lhe levam a passar por árvores com frutos de cortiça e castanha e por minúsculos lugarejos com pequenos jardins floridos e muros baixos de pedra.

Ao longo do caminho, numa das tantas curvas e guinadas, pode-se observar os telhados em terracota e as paredes bem branquinhas de Marvão. Mas não há nada que lhe prepare o bastante para a chegada dramática - na entrada há um gigantesco muro, que chega a ter mais de três metros de largura em alguns trechos, circundando todo o perímetro da cidade como se fosse braços fortes e protetores, abraçando não somente o velho castelo de Marvão, mas também cada casa e cada rua, todas bem arrumadinhas.

Somente um carro de cada vez pode passar pelo pórtico principal da cidade. Você pode passar por ele dirigindo lentamente, desde que não esteja pilotando um possante Hummer (não que seja possível encontrar um carro desses por aquelas bandas). Mas é muito mais agradável estacionar do lado de fora do pórtico e atravessá-lo a pé, sentindo o cheiro da terra e o ar fresco da montanha.

Uma prazenteira caminhada ao redor da velha aldeia - que é melhor quando feita sobre o próprio cume dos largos muros de pedra - já vale a visita. Isso vai lhe situar acima das planícies pobres e cobertas de sol da região de Alentejo e lhe oferecer vistas esplêndidas em ângulo de 360 graus. Se você olhar na direção da Espanha, a uns 13 quilômetros ao leste, ou ao oeste na direção de Lisboa, vai contemplar campos infindos na cor do trigo que conduzem a vilas e montes em verde e granito.

"De Marvão pode-se ver a terra inteira", já disse José Saramago, vencedor em 1998 do prêmio Nobel de Literatura, em "Viagem a Portugal", seu livro de viagens escrito em 2001. "É bem compreensível que deste lugar, daqui do alto na segurança do castelo de Marvão, os visitantes possam respeitosamente murmurar... "como é grande o mundo".

MARVÃO É PERTINHO DO CÉU
Michael Barrientos/The New York Times
A muralha de 3 metros de largura cerca toda o vilarejo de Marvão
Michael Barrientos/The New York Times
A comunidade da vila tem apenas 20 crianças e é pacífica e unida
A maioria dos visitantes que passa pelo pórtico veio passar o dia e está hospedada ou em Lisboa ou na costa de Algarve ou então no oeste da Espanha. E enquanto os turistas estrangeiros descobrem a região de Alentejo, com suas cidades-fortalezas tão lindas no cartão postal como Évora e Monsaraz - atualmente tão cheias de museus e de lojas de bugigangas - Marvão até pode ser considerada a mais humilde da região.

A aldeia conseguiu, incrivelmente, manter sua idílica imagem de cidade pequena, apesar de toda a facilidade de acesso (fica a apenas duas horas e meia de Lisboa, vindo de carro) e da média de 20.000 visitantes por ano. É uma estatística impressionante, quando se leva em conta que Marvão tem somente 150 residentes.

"O que é maravilhoso é que fica nesta planície maravilhosamente vazia, e ao mesmo tempo está no centro do país- facilmente acessível tanto da costa como de Lisboa e de Madri", diz Chris Kellond, 57 anos, nascido em Donegal, na Irlanda, que vive em Marvão com seu marido desde 1992. Ela tem uma loja de souvenirs na vila, chamada Milflores.

O castelo do século 13 é a atração principal da cidade - com seus corredores em labirinto e uma cisterna assustadoramente escura e retumbante e torreões de defesa que se lançam sobre os penhascos como se fossem asas fixas e cheias de ângulos. Os torreões proporcionam vistas estelares das montanhas da Serra de Ossa e da Serra de São Mamede, além de quilômetros e mais quilômetros de chácaras arenosas que cobrem a terra quais remendos numa tresloucada colcha em vários tons de jade.

O castelo mantém a guarda por aqui desde 1299. Foi quando o rei Dom Diniz entrou num frenesi de construir várias fortalezas, erigindo cidades ao longo da fronteira com a Espanha para utilizá-las no triunfo militar sobre os mouros.

Hoje a cidade abriga uma comunidade pacífica e unida - misto de gente que passa o ano inteiro por lá e de gente de Lisboa que por lá tem a segunda residência, com apenas aproximadamente 20 crianças locais compondo a comunidade.

"Eu conheço todos por aqui", diz Felicidade Tavares, 48 anos, moradora filha da terceira geração, que gerencia o escritório local de turismo. "Basta eu fechar meus olhos para poder percorrer cada rua em minha mente, e daí poder lhe dizer quem vive aonde."
Se quiser ter uma perspectiva mais histórica, vá até o museu da cidade, abrigado em uma pequena igreja de pedras brancas.

O acervo do museu proporciona um olhar intrigante em direção ao passado do país e da cidade: lápides medievais, paredes coloridas de azulejos, estátuas de monges do século 15, cerâmica que foi desenterrada e uma sala dedicada à significativa tradição judaica da região. Muitos judeus foram perseguidos na Espanha durante as idades médias e se abrigaram em Marvão. (A cultura judaica é ainda mais evidente na vila-irmã de Marvão, Castelo de Vide, que vale conhecer, a pouco mais de seis quilômetros, morro abaixo).

Mas o maior atrativo de Marvão é mesmo andar por seu emaranhado de ruas em paralelepípedo (há somente uma dúzia delas), ouvindo apenas o som dos próprios pés explorando os cantos e recantos em pedra. Há alguns meses o silêncio era assustador, pouco antes do por do sol em uma tarde amena, com apenas poucos turistas vagando por lá. "É interessante ver como cabe tudo dentro dos muros de pedra", disse José Manuel Pallero, 25 anos, estudante que veio passar o dia vindo de Caceres, na Espanha.

É impressionante como as antigas estruturas e os corredores da cidade parecem estar novinhos em folha, tanto que a cidade chegou a se inscrever para ser reconhecida como patrimônio mundial junto à UNESCO. Mas quando Marvão não conseguiu cumprir uma primeira rodada de avaliações no ano passado, as autoridades da cidade - bem de acordo com a tímida personalidade da vila - retiraram sua candidatura para não correr o risco de uma rejeição final.

Talvez tenha sido uma benção, porque a honraria poderia trazer multidões, afastando a relativa solidão que dá um charme especial a Marvão.

Você pode se inebriar com essa silenciosa reclusão na Pousada de Santa Maria, pousada histórica com um refeitório elegante, com toalhas de renda branca. Se você estiver por lá imediatamente antes do por do sol, a pousada, incrustada num penhasco, apresenta vistas espetaculares do vale banhado em luz dourada.

O cardápio é igualmente espetacular, incluindo robustos vinhos regionais e pratos do Alentejo como a carne de porco refogada em moluscos, e uma sopa do pão (açorda) salpicada com coentro e alho.

Após o jantar, dê uma volta pelas esquinas da vila, com seus muros de pedra. O manto aveludado da escuridão é colossal, o silêncio imenso. E a terra lá abaixo, agora um fosso de obscuridade sem fundo, tem um poder que é simplesmente arrebatador.

SE VOCÊ FOR ATÉ LÁ

Como chegar

O jeito mais rápido de se chegar a Marvão é de carro. De Lisboa, a viagem leva aproximadamente umas duas horas e meia. Sevilha, a cidade grande espanhola mais próxima, fica a três horas e meia.

Onde ficar

As melhores instalações na cidade ficam na Pousada de Santa Maria (351-245-993-201; www.pousadas.pt), que integra a rede nacional de pousadas de Portugal. Os quartos duplos, muitos deles com vistas preciosas, custam 155 euros, ou aproximadamente U$ 215 (cerca de R$ 430) com o euro a U$ 1,38, até julho.

Também vale considerar a Casa D. Dinis (351-245-993-957; www.casaddinis.pa-net.pt), logo na saída da cidade, fora dos muros do castelo, onde os quartos duplos começam a 55 euros.

A Albergaria EL-Rei Dom Manuel (351-245-909-150; www.turisMarvão.pt), fica perto do pórtico principal da cidade, com quartos duplos a partir de 60 euros.

Onde comer

O restaurante da Pousada de Santa Maria apresenta a cuisine de Alentejo finamente preparada. O jantar para dois (com o vinho regional) sai por aproximadamente 70 euros.

A Casa D. Dinis conta com um pub e uma lanchonete, o Castelo, no outro lado da rua. É um lugar bem legal para se encontrar o povo local para uma cerveja, um porto ou para um sanduíche na chapa. Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h49

    -0,05
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host