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02/05/2007

Candidatos franceses minimizam política externa

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Paris
A mudança mais drástica na política externa da França na nova presidência poderá não ser a chegada de Nicolas Sarkozy ou Ségolène Royal, mas a partida do presidente Jacques Chirac.

Por doze anos, Chirac foi um chefe de Estado ativo, que viu o mundo por dois prismas: o da Guerra Fria e dos antigos laços coloniais da França.

O líder francês de 74 anos se absorveu nos assuntos mundiais, telefonava para seus presidentes e primeiros-ministros preferidos nas tardes de fim de semana e dava aos mais jovens, como o presidente Bush ou Tony Blair, longas lições de história.

Nem Sarkozy na direita, nem Royal na esquerda, apresentarão o mesmos relacionamentos pessoais ou referência ideológica. Nenhum é um especialista em política externa.

"Eles são de uma geração diferente e certamente haverá uma nova abordagem", disse o ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing, que apóia Sarkozy, em uma entrevista. "Mas eles não se envolveram em grandes debates em assuntos mundiais. Eles não participaram de encontros de cúpula. Ambos são inteligentes. Mas como qualquer um deles se sairá em política externa? É muito cedo para dizer."

O mundo fora das fronteiras da França tem importado pouco durante a campanha presidencial.

Em uma pesquisa de boca-de-urna CSA, após o primeiro turno da eleição presidencial em 22 de abril, apenas 9% dos 5 mil entrevistados disse que a política externa foi um fator que influenciou em sua escolha do presidente. Em comparação, 44% disseram que as propostas para criação de empregos influenciaram sua decisão.

Ambos os candidatos fizeram campanha com plataformas de mudanças rápidas -dentro da França. Profundamente cientes da preocupação dos franceses com a imigração e a globalização, ambos hesitaram em dizer aos franceses que não precisam temer o mundo exterior. Isto significa que espera-se que ambos promovam fortemente os interesses nacionais da França quando estiverem diante de um compromisso difícil.

"O mais importante é ter em mente que há um amplo consenso em relação à política externa na França desde De Gaulle -mais forte do que nos Estados Unidos- e tanto Ségolène quanto Sarkozy são parte dele", disse Justin Vaisse, um historiador francês. "Em questões distantes como Oriente Médio, África, multilateralismo, proliferação, você encontra bastante consenso. Ambos estarão dispostos a se oporem aos Estados Unidos para protegerem os interesses franceses."

De fato, os dois candidatos concordam em muitas questões. Ambos apoiaram e defenderam a decisão de Chirac de se opor à guerra liderada pelos americanos no Iraque, apesar de Sarkozy ter criticado seu governo de ter sido arrogante na forma como a decisão foi tomada.

Ambos são contrários a uma ação militar contra o Irã. Mas são favoráveis a sanções mais duras contra o país assim como contra o Sudão, prometem tornar os direitos humanos uma grande prioridade, são céticos da postura conciliatória da França em relação à Rússia e China e estão preocupados com os planos americanos para a instalação de um escudo antimísseis no Leste Europeu.

Sarkozy tem muito mais experiência no cenário global do que Royal. Como ministro do Interior, o terceiro cargo mais alto no governo francês depois do presidente e primeiro-ministro, ele foi responsável por questões envolvendo fronteira, incluindo terrorismo, imigração, narcotráfico, lavagem de dinheiro e redes do crime organizado.

Royal buscou compensar fazendo viagens estratégicas ao exterior. Tanto o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, também um socialista, quanto o primeiro-ministro da Itália, Romano Prodi, apoiaram sua candidatura.

O campo de Sarkozy atacou Royal por sua falta de substância em política externa e suas repetidas gafes. A França "não precisa de alguém que muda de idéia com a mesma freqüência com que muda de saia", disse a ministra da Defesa, Michèle Alliot-Marie, que apóia Sarkozy, em um comício no domingo.

Mas quando Sarkozy tropeça, ele tende a ser perdoado. Quando Royal errou o número de submarinos na marinha francesa, ela foi retratada como neófita em política externa; quando Sarkozy fez o mesmo, seu erro foi praticamente ignorado.

De forma semelhante, a aparente ignorância de Sarkozy em uma entrevista de televisão, em fevereiro, de que a Al Qaeda era um movimento sunita, foi pouco notada.

A franca admiração de Sarkozy por tudo o que é americano -de Hemingway ao empreendimento ao estilo Horatio Alger- está bem documentada e já lhe serviu bem na Casa Branca de Bush.

"O que chama a atenção de todos é quão forte ele é como pessoa e o líder forte que poderá ser", disse um alto funcionário do governo após Bush ter recebido Sarkozy na Casa Branca, em setembro passado. "Ele foi bastante impressionante, para dizer a verdade."

Sarkozy também garantiu suas apostas, também obtendo na mesma viagem o elogio do senador Barack Obama, um democrata de Illinois e pré-candidato presidencial. "Eu não deveria prever as eleições francesas", disse Obama após o encontro dos dois. "Mas eu sei que ele tem uma boa chance de liderar a França no futuro."

Mas pró-americanismo nunca foi popular na França e Sarkozy é sensível à opinião pública. Após sofrer fortes críticas de ter se curvado a Bush, Sarkozy ajustou sua mensagem, prometendo em um discurso sobre política externa, em fevereiro, que nunca seria "submisso" aos Estados Unidos.

Royal não fez nenhuma peregrinação aos Estados Unidos como Sarkozy. Ela prometeu em um recente discurso nunca se curvar diante de Bush -uma clara referência a Sarkozy.

Alguns de seus assessores são mais críticos dos Estados Unidos do que ela. "Os Estados Unidos agravam os problemas em vez de tentar resolvê-los", disse Arnaud Montebourg, o porta-voz de campanha de Royal, em uma entrevista por telefone. Ele acrescentou que Royal "não quer que a política externa francesa, nem mesmo a da União Européia, alinhada aos interesses dos Estados Unidos."

Sarkozy é abertamente pró-Israel. Ele recentemente surpreendeu os embaixadores árabes em Paris, ao iniciar seus comentários dizendo que sua prioridade como presidente em política externa seria forjar um relacionamento mais estreito com Israel. Ele também disse privativamente que a política francesa não tem sido dura o suficiente contra o Hizbollah, que ele, diferente de Chirac, considera uma organização terrorista.

Royal também alega querer relações mais calorosas com Israel, mas durante uma viagem ao Oriente Médio em dezembro passado, ela foi amplamente criticada por não ter se manifestado quando um representante do Hizbollah comparou Israel à Alemanha nazista.

Nenhum candidato levará ao Eliseu a mesma facilidade no inglês que Chirac, que fala a língua com falhas charmosas, mas com precisão suficiente para conceder uma longa entrevista de televisão.

O domínio do inglês de Royal, que foi au pair na Irlanda em meados de 1971, é fraco. Um breve vídeo de noticiário de data e origem não determinadas que está circulando no YouTube a mostra dizendo, em parte, "ou com este governo, investimento em pesquisa tem decrescendo muito, e isto é ruim. Eu posso ver, como presidência da região, que precisamos de dinheiro para investir em pesquisa e meio ambiente".

Quanto ao inglês de Sarkozy, é mais uma questão de força de vontade. Como ele disse ao comissário do corpo de bombeiros de Nova York, Nicholas Scoppetta, durante uma visita em setembro passado: "Eu corri. Esta manhã. No Central Park. Com camiseta de bombeiros." George El Khouri Andolfato

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