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03/05/2007

Candidatos presidenciais franceses trocam fogo enquanto eleição se aproxima

The New York Times
Elaine Sciolino*

Em Paris
Ela a acusou de perder a calma. Ela o acusou de não ter compaixão.

Nicolas Sarkozy, à direita, e Ségolène Royal, à esquerda, atacaram um ao outro na noite de quarta-feira, em um tipo de confronto cara a cara que desapareceu da cena política presidencial americana, onde os candidatos evitam um ao outro o máximo possível.

Reuters 

O debate ao vivo de duas horas e meia, transmitido pela televisão, poderá determinar o resultado da eleição presidencial francesa de domingo.

Às vezes os dois candidatos pareciam estar mais em uma disputa local do que buscando a presidência do país com a sexta maior economia do mundo - e uma potência nuclear.

A guerra no Iraque e o relacionamento da França com os Estados Unidos, por exemplo, nunca vieram à tona. Assuntos domésticos, como a duração da semana de trabalho, os gastos públicos com a polícia e hospitais e como coibir o crime ocuparam mais tempo do que como moldar a futura identidade da França.

Tanto Sarkozy, 52 anos, filho de um imigrante húngaro com pequenas raízes aristocráticas, e Royal, 53 anos, filha de um oficial de carreira do Exército, enfrentavam desafios diferentes ao entrarem no debate. Sarkozy tinha que evitar parecer um valentão sexista; Royal tinha que provar ser presidencial.

Sarkozy, o ex-ministro do Interior e das Finanças, tinha que afastar o demônio que o atormentou por toda a campanha: sua imagem de figura autoritária com temperamento volátil.

Para Royal, o debate de quarta-feira era sua última chance de uma virada nas pesquisas, que consistentemente apontam Sarkozy na liderança.

Ségolène, ciente de esta era sua chance de superar a desvantagem de votos e de provar que é uma pessoa de maior substância do que seus críticos a pintam, partiu para a ofensiva desde o início, interrompendo Sarkozy repetidamente com a frase: "Me deixe terminar".

Sarkozy manteve seu famoso temperamento sob controle, falando mais pausadamente e com uma voz mais modulada do que o habitual. Ele descreveu sua oponente como "presa em uma lógica socialista de trabalho compartilhado".


Perto do fim do debate, "Madame" ou "Madame Royal", como seu adversário a chamava, ficou agitada durante uma discussão sobre a educação para crianças deficientes. Ela argumentou que a direita desfez o bom trabalho que a esquerda vinha tentando fazer e descreveu a posição de Sarkozy como "o auge da imoralidade política".

Royal o acusou de usar a carta da compaixão apesar de seu governo não ter oferecido os serviços necessários, dizendo a ele de forma indignada que ele descreveu as dificuldades das crianças deficientes "com uma lágrima no olho".

Sarkozy aproveitou a oportunidade para reforçar seu argumento de que ela não podia liderar a França de tal forma temperamental.

"Acalme-se", ele lhe disse.

"Não, não vou me acalmar", ela respondeu.

"Não me aponte este dedo, com isto", ele disse.

"Não. Sim", ela disse.

"Com este dedo indicador apontado, porque francamente...", ele começou.

"Não, não vou me acalmar", ela disse. "Não, não vou me acalmar. Não vou me acalmar."

"...para ser presidente da república, você precisa ter calma", ele concluiu.

Ela respondeu: "Não quando há injustiças. Há irritações que são perfeitamente saudáveis porque elas correspondem ao sofrimento das pessoas. Há irritações que terei".

Ele disse: "Madame Royal, você me permitiria dizer uma palavra?"

Ela concluiu sua sentença: "Mesmo quando for presidente da república".

Ele disse: "Bem, será engraçado. Será engraçado".

Sua voz assumiu um tom condescendente. "Eu não sei por que a geralmente calma madame Royal se descontrolou", ele disse.

Sarkozy tentou repetidas vezes pintar Royal como desinformada. Ela tentou pintá-lo como autoritário. Houve interrupção igual de tempo.

Tornando esta disputa envolvente ainda mais envolvente, os analistas políticos ficaram divididos sobre quem venceu - Ségo ou Sarko, como costumam chamá-los aqui. O líder nas pesquisas, Sarkozy, ganhou pontos por não perder a calma. Mas a perda da calma por parte de Royal causou reações diferentes.

Alguns consideraram estimulante, um sinal de que a esquerda não seria complacente. Outros consideraram enervante. Ninguém considerou um tédio.

"Sarkozy perdeu", disse Dominique Reynié, um professor de ciência política do Institut d'Études Politiques em Paris. "Ele não dominou o debate mesmo sendo o superfavorito desde o início."

Nicole Bacharan, uma analista política do mesmo instituto, disse: "Para mim, o vencedor foi Sarkozy. Está claro. Ségolène era a desafiadora; ela tinha mais a provar. Ela foi forte, mas Sarkozy citou fatos precisos, de forma mais pragmática e menos ideológica".

Royal interrompeu Sarkozy repetidas vezes para que deixasse de interrompê-la, dizendo: "Me deixe terminar", e coisas como, "Por favor, pare de me interromper, porque eu conheço muito bem sua estratégia".

Mas Sarkozy também foi interrompido repetidas vezes. "Você me deixará terminar?" ele perguntou a certa altura.

"Não", disse Royal.

"Ah", respondeu Sarkozy.

Na metade do debate, o sorriso perpétuo de Royal tinha desaparecido de seu rosto. O tom deles lembrava o de um casal brigando à mesa do café da manhã, com o marido mal contendo seu senso de superioridade e a esposa o atacando por não a escutar.

"Você me entende perfeitamente mas finge que não entende", Royal disse ao seu adversário.

Apesar de ter uma reputação de ser condescendente em reuniões, ela o acusou de ser condescendente. Apesar de ele ter a reputação de perder a calma, foi ela quem a perdeu durante o debate.

Durante uma discussão sobre energia nuclear, Royal fez o papel de professora escolar, perguntando a Sarkozy: "Você sabe quanto consumo de eletricidade na França vem de energia nuclear?"

Quando Sarkozy disse que era 50%, Royal o corrigiu, dizendo que era 17%. Então Sarkozy respondeu: "Não, senhora, isto está incorreto".

Ela o repreendeu: "Vá fazer sua lição de casa".

Ele respondeu: "Eu posso não ser bem informado sobre o assunto, mas sou consistente".

Na verdade, ambos estavam errados: a resposta é próximo de 80%.

Enquanto falavam sobre economia, ela resumiu sua filosofia de liderança, dizendo, em parte, com um pequeno sorriso: "Eu serei a presidente do que funciona".

Sarkozy respondeu, de forma mordaz: "As pessoas não votam em nós para complicar o que funciona, mas para o contrário, para consertar o que não funciona".

*Maïa de la Baume contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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