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05/05/2007

Amor moderno: Um final tradicional para meu divórcio do século 21

The New York Times
De Cindy Chupack*
Finalmente eu ia me casar. É o que eu dizia a todo mundo. Não dizia que finalmente ia me casar "de novo", porque mencionar um primeiro casamento durante o planejamento do segundo é um grande corta-barato para todos os envolvidos.

The New York Times 


Lembra à noiva e ao noivo, num momento em que sua maior preocupação deveria ser o tipo de cobertura do bolo, que nem sempre o amor tudo vence. E eu não queria colocar essa nuvem sobre meu noivo, Ian, porque esse era o primeiro casamento dele (outro termo de que eu não gostava porque implicava que ele poderia ter um segundo). Então tentamos não falar sobre primeiros e segundos nada, até que nos encontramos com o rabino.

Ou melhor, a rabina, que Ian chamava de "a rabina gostosa" porque ela era jovem, moderna e, bem... gostosa. Eu não me importava que ele a chamasse de gostosa. Na verdade achava tranqüilizador, porque era mais um indício de que Ian não era gay. Acima de tudo, eu queria evitar declarar publicamente meu amor por alguém e mais tarde perceber que ele era gay. De novo.

Sim, foi isso que aconteceu na primeira vez, e foi o que eu contei à rabina gostosa quando ela perguntou se algum de nós já tinha sido casado antes.

Ela piscou os olhos e balançou a cabeça - adequadamente sem se chocar. Então perguntou: "Ele era judeu?"

Isso me pareceu um detalhe sem importância, mas eu disse: "Sim, era".
Lembro como meus pais ficaram felizes porque me casei com um médico judeu.

Era como ganhar na loteria judia, até que ele revelou que era gay. Depois disso, meus pais se importaram menos com a religião do meu namorado do que com sua capacidade de citar pelo menos três jogadores de beisebol profissionais.

Portanto, era bom, mas não essencial, que Ian fosse judeu. Ele era um advogado/poeta/cozinheiro "bad-boy" tatuado motociclista e me propôs casamento durante um pôr-do-sol na praia, montado num cavalo branco e vestido de cavaleiro medieval. O fato de ser judeu era uma das coisas menos notáveis nele.

Uma das coisas mais notáveis nele é que depois de ouvir minha história continuou sendo hétero.

Durante meu processo de divórcio eu brincava de fazer esquetes humorísticos, e meu amigo e colega comediante Rob ficou fascinado pela minha história e perguntou: "Quais foram os sinais? Como ele lhe contou?"
Um ano depois Rob se declarou gay, obrigando-me a ver, em retrospectiva, que para ele o herói da minha história era meu marido.

Em uma festa em Hollywood, contei minha história para um belo rapaz que eu pensei que estivesse me paquerando, e mais tarde soube que ele era casado - com um homem. Ele explicou que nunca tinha saído com homens até que conheceu seu marido, numa viagem ao exterior. Então contei essa história para meu amigo que era o anfitrião e ele confessou que era bissexual, o que, segundo ele, muitas vezes era difícil seus parceiros potenciais entenderem. Por exemplo, ele perguntou, o que eu acharia de namorá-lo?

Quando percebi que sua pergunta não era retórica, enrubesci e declinei.
Então contei essa história para um amigo que eu sabia que era hétero, e ele também confessou que estava pensando em namorar homens, mas depois de se revelar para seus pais atônitos e experimentar alguns relacionamentos gays decidiu que estava mais interessado em mulheres, e hoje está casado com uma que antes se considerava lésbica.

A essa altura, quando a sexualidade de todo mundo parecia estar em fluxo, meu sentimento foi simplesmente: Escolha um lado! Para mim, tudo bem! Apenas declare uma preferência!

Agora, com a rabina gostosa, eu pensava que era um alívio finalmente poder contar minha história sem expor ninguém, quando ela anunciou que eu devia "obter um 'get'".

Um quê?

Um "get", ela explicou, é um certificado de divórcio judeu, e, embora Ian e eu tecnicamente não precisássemos de um para nos casar, sem ele, pela lei judaica nossos filhos seriam basicamente considerados ilegítimos. Ela também achava que o processo poderia ser um bom encerramento.

Para mim parecia o oposto do encerramento. Exigiria reabrir as linhas de comunicação que meu ex-marido e eu finalmente tínhamos fechado depois de anos tentando provar que éramos amigos.

Nós éramos amigos. Queríamos o bem um do outro. Mas eu achava mais fácil desejar o bem do outro à distância.

E nós também já tínhamos uma versão de encerramento. Quando os pais dele estavam tendo dificuldades para aceitar que ele era gay, cortaram sua mesada. Ele ainda estava na faculdade de medicina e precisava de dinheiro, e a única coisa que realmente queria era comprar uma casa. Então o ajudei com a entrada, devolvendo-lhe o extravagante anel de noivado de esmeralda que ele, por culpa, tinha me dito para guardar. Eu o havia colocado em um cofre no banco, sem vontade de usá-lo, nem disposta a vendê-lo ou mandar reformá-lo.

De vez em quando eu visitava o anel, visitava meu antigo ser casado, mas mesmo sem ninguém ali eu tinha consciência de como parecia patética sentada num cubículo de banco usando meu anel de noivado. Por isso, quando tive a oportunidade de devolvê-lo, aproveitei. Eu disse: "Com este anel você não se casa comigo?" E nós tivemos um pequeno momento simpático, ele comprou a casa e foi isso. Até agora.

Quando telefonei para meu ex-marido em Los Angeles, ele ficou surpreso por me escutar, feliz porque eu ia me casar e um pouco em dúvida sobre o que eu estava pedindo. Eu garanti que iria até lá, pagaria a taxa e faria toda a burocracia; sua única responsabilidade seria comparecer. Quando ele sugeriu que tivéssemos uma reunião "pós-get" para que eu conhecesse seus filhos, comecei a pensar que talvez fosse um bom encerramento, afinal.

Nosso estranho encontro ocorreu na frente de um edifício industrial que servia de escritório para o rabino ortodoxo cujo nome encontrei por meio de uma organização que facilita os gets. Tivemos uma conversa rápida enquanto eu apertava a campainha ("Você está bem." "Você também." "Como vão seus pais?"), até que ficou claro que ninguém atendia à campainha. Ligamos para o telefone da casa do rabino, ele atendeu e então percebemos que houvera uma confusão sobre o horário e teríamos de remarcar. Quando explicamos que levamos dez anos para marcar esse encontro, o rabino disse que tentaria encontrar duas testemunhas.

Assim, tínhamos uma hora para matar, e meu ex-marido disse que seu parceiro e os filhos estavam fazendo compras ali perto, então devíamos aproveitar para nos conhecermos.

Não é muito comum uma garota ter a oportunidade de almoçar com o homem com quem ela pensava que teria filhos e o homem com quem ele os teve, mas a verdade é que eles eram uma família perfeita sem mim. Eu tinha conhecido o parceiro do meu ex-marido em uma festa de Natal anos antes e gostara dele imediatamente. Era bonito, inteligente, educado e divertido, e, fosse verdade ou não, eu achava lisonjeiro imaginar que ele era minha versão masculina. Eles tinham adotado dois lindos meninos. Enquanto eu via meu ex-marido lidar com embalagens de suco, lápis de cor e cardápios infantis, ele sorriu e advertiu: "Prepare-se".

Quando chegamos ao escritório do rabino, ele explicou que o processo poderia levar uma hora, por isso meu ex-marido disse a sua família que ligaria para eles quando tivesse terminado.

O rabino era velho e suas duas testemunhas masculinas, mais ainda. Eles sentaram-se de um lado da mesa e nós do outro, e observamos num silêncio respeitoso enquanto o rabino escrevia lentamente nosso documento de divórcio com caneta e tinta, em hebraico.

Quando meu ex-marido saiu para colocar moedas no parquímetro, o rabino me olhou fixamente e fez a pergunta que claramente o importunava desde que chegamos: "Quem era o outro homem que veio com vocês?"

Como eu não tinha certeza sobre a posição ortodoxa oficial quanto ao homossexualismo, eu disse que era um amigo do meu ex-marido.

"E de quem eram aquelas crianças?"

Eu não estava gostando do rumo que a conversa tomava. Perguntei se isso afetaria o processo de get. Ele disse que não, então admiti que meu ex-marido era gay, o outro homem era seu parceiro e as crianças eram seus filhos.

As duas testemunhas idosas se entreolharam. Então o rabino disse diretamente: "Acho isso doentio".
"Não é doentio", eu disse. "Eles são muito felizes."

Numa tentativa nada original de piada, o rabino disse: "Qual deles é o homem?"

"Os dois são homens", eu disse. "São dois homens muito bons."

Quando meu ex-marido voltou para a sala, eu estava enjoada. Tinha cruzado o país de avião e pagara 500 dólares para que três homens santos se reunissem para julgá-lo. E a ironia era que ele era o judeu praticante, e não eu.

Eu estava furiosa, pensando se devíamos esquecer o get e ir embora enquanto era tempo, quando fomos informados de que nosso documento estava pronto.

Fomos solicitados a nos levantar e ficar um de frente para o outro. Então meu ex-marido foi solicitado a olhar nos meus olhos e repetir algumas frases que basicamente significavam: "Com este documento eu a liberto".

Enquanto estávamos ali de pé, exatamente como no dia do nosso casamento, ele pareceu ainda mais bonito. E adulto. E feliz. E eu pensei por que ele havia se casado comigo. Sim, ele me amava, mas provavelmente também tinha medo de que nunca poderia ter uma família se não casasse com uma mulher.

Agora ele tinha essa família, sem precisar deixar de ser quem ele era. Eu pensei no que ele me deu anos atrás quando me libertou oficiosamente. Por mais que eu tenha detestado a tristeza e a saudade, minha nova vida de solteira tornou-se a base de minha carreira de escritora, que me levou a um emprego como autora e produtora de "Sex and the City", que me levou a Nova York, que me levou a Ian.

E então pensei que esse ridículo tribunal é o que meu ex-marido enfrenta todos os dias, muitas vezes quando menos espera, e como deve ter sido difícil para ele superar esse julgamento para ser honesto consigo mesmo e comigo. Então, quando ele colocou o get nas minhas mãos, o que o tornou legalmente efetivo, senti orgulho dele e orgulho de nós, por nos libertarmos para nossos destinos.

"Estou feliz porque você vai se casar", ele disse. "Agora finalmente posso parar de me sentir culpado."

Eu lhe disse que não tinha motivos para sentir culpa. Mas ele disse que era inevitável. Algumas coisas, acredito, simplesmente nascem com a gente.

*Cindy Chupack é autora de "The Between Boyfriends Book". Este ensaio é adaptado da antologia "Girls Who Like Boys Who Like Boys", a ser lançado este mês pela editora Dutton. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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