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05/05/2007

O homem que as minorias da França adoram odiar é reavaliado

The New York Times
Craig S. Smith

Em Paris
O homem que poderá ser o próximo presidente da França é o filho de um imigrante com um nome nada francês e que fez tanto quanto qualquer outra autoridade francesa, se não mais, para melhorar a situação das minorias.

AFP 

Ele conhece a dor de ser um forasteiro e até mesmo defende uma ação afirmativa ao estilo americano, o que é uma heresia para muitas pessoas na França oficialmente igualitária, indiferente à cor.

Mas o lugar onde o candidato líder nas pesquisas, Nicolas Sarkozy, não ousou ir nos dias que antecedem a eleição de domingo são os voláteis bairros operários de filhos de imigrantes na França, onde ele é altamente detestado.

Sua oponente, Ségolène Royal do Partido Socialista, tem explorado os temores de que se Sarkozy for eleito, os jovens das minorias do país poderiam tomar as ruas como fizeram em 2005, incendiando carros e prédios.

Na sexta-feira, ela disse que se Sarkozy for eleito, "a democracia estará ameaçada", informou a agência de notícias "The Associated Press". Ela disse que sentiu a "responsabilidade de fazer o alerta sobre os riscos desta candidatura e a violência e brutalidade que serão deflagradas no país".

A integração dos alienados jovens filhos de imigrantes na sociedade francesa é um dos problemas mais espinhosos diante dos atuais políticos franceses e Sarkozy, como ministro do Interior, enfrentou o problema de frente, com uma forma direta mais típica de um político americano do que de um francês.

Mas sua campanha anticrime de tolerância zero, suas palavras francas, às vezes imprudentes (ajustadas para atrair os eleitores de extrema direita durante a primeira etapa de sua campanha), e seu estilo combativo o transformaram no inimigo para muitos jovens filhos de imigrantes. O temor de que um presidente Sarkozy causará cinco anos de maior tensão e violência é uma emoção que corre no centro da campanha presidencial.

"Nunca houve uma eleição presidencial na França na qual o principal candidato causasse tanto medo", disse Kamel Chibli, que cresceu em projetos habitacionais públicos nos arredores de Toulouse e atualmente atua como porta-voz de assuntos de minorias para Royal. "O futuro do país está em jogo."

Certamente, as vaias que o nome de Sarkozy provoca nos lotados blocos de apartamentos nos subúrbios de Paris sugerem que uma presidência de Sarkozy enfrentaria resistência, se não inquietação. Mesmo os principais simpatizantes de Sarkozy reconhecem que há a probabilidade de alguns carros serem incendiados caso ele vença a eleição no domingo.

Mas tais simpatizantes argumentam que, com o tempo, sua campanha anticrime e a promessa de treinamento e emprego para os jovens desempregados transformarão os tensos subúrbios de guetos cada vez mais estagnados a centros de esperança pacíficos.

"Se o único motivo para votar em Ségo é o temor de problemas nos subúrbios, então a democracia está em apuros", disse Yves Jégo, o prefeito de um subúrbio do norte cheio de imigrantes e um ferrenho defensor de Sarkozy. Ségo é o apelido de Royal.

O próprio Sarkozy enfrentou dificuldades como um forasteiro, descrevendo a si mesmo como o "pequenino francês de sangue mestiço" que ascendeu ao topo da política francesa sem passar pelos canais normais da École Nationale d'Administration de elite, como Royal.

Seu histórico inclui vários esforços para melhorar a condição das minorias do país, a maioria muçulmanos. Ele encorajou a criação do Conselho Francês da Fé Muçulmana, que deu ao Islã uma voz na França. Ele nomeou o primeiro prefeito na França que é tanto de origem estrangeira quanto muçulmano. Ele até mesmo argumentou em prol do relaxamento das regras que restringem o apoio do governo à construção de mesquitas.

E ele apóia a ação afirmativa, algo que enfrenta forte oposição dos socialistas. Ele prometeu arrumar empregos para 250 mil jovens em desvantagem antes do final do ano.

Royal promete reinstalar o policiamento de bairro e um programa de emprego para jovens financiado pelo Estado, ambos criados pelo ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin e encerrados por Sarkozy. Ela prometeu que nenhum jovem permanecerá desempregado por mais de seis meses após concluir os estudos.

Mesmo muitos críticos de Sarkozy reconhecem que suas propostas são mais amplas e profundas do que as de Royal.

"Ele é mais concreto, mais preciso do que a esquerda", disse Mohamed Hamidi, editor-chefe do "Bondy Blog", um nova revista online voltada para os subúrbios operários da França. "Mas ele está pronto para o confronto."

Os simpatizantes de Sarkozy dizem que o esforço pela lei e ordem e os programas sociais, com o tempo, terão um impacto mais profundo sobre a estagnação dos subúrbios, que eles atribuem a 20 anos de políticas do Partido Socialista.

"É preciso ser firme com as pessoas que interferem nas vidas de outras pessoas", disse Taymir Boungou-Pouaty, enquanto assistia a um punhado de policiais intervirem para acabar com uma briga do lado de fora do notório projeto habitacional "cidade de 4 mil" de La Courneuve, assim chamado por conter cerca de 4 mil apartamentos. "Não se pode ser brando com eles."

Boungou-Pouaty, um imigrante do Congo, foi um dos que se beneficiaram da visita de Sarkozy ao subúrbio, em 2005. Ele foi contratado por uma empresa francesa como parte do plano de ação afirmativa de Sarkozy e atualmente é um voluntário na campanha deste.

Ele disse que muitas pessoas nos projetos apóiam Sarkozy, apesar de relutarem em falar a respeito. "Elas falam pelos votos", ele disse, notando que apesar de Royal ter conquistado 41,1% dos votos em La Courneuve, Sarkozy recebeu respeitáveis 22,9%, mais do que o candidato centrista François Bayrou e melhor do que o presidente Jacques Chirac se saiu na eleição presidencial de 2002. "Há pessoas que querem um pouco de ordem, um pouco de rigor", disse Boungou-Pouaty.

Ele está tranqüilo porque o próprio Sarkozy é filho de um imigrante, um refugiado húngaro. "O nome Sarkozy não é francês como Royal ou Le Pen", disse Boungou-Pouaty, se referindo a Royal e o derrotado candidato da extrema direita, Jean-Marie Le Pen. "Ter um nome destes no topo da França, isto é algo."

Mas as acusações de racismo colaram. O astro nacional do futebol, Lilian Thuram, alega que Sarkozy lhe disse durante os tumultos de 2005 que "são os negros e árabes que criam problemas nos subúrbios". Apesar de Sarkozy ter dito que a história é falsa, Thuram a repetiu inúmeras vezes, se tornando uma voz popular do movimento antiSarkozy.

"Se Sarkozy vencer, estou certo que haverá problemas na noite da eleição", disse Hamidi, o editor do "Bondy Blog". "Com Ségo, as coisas permanecerão calmas por cinco anos."

De certa forma, o estilo confrontador de Sarkozy já mudou os subúrbios, onde a estagnação econômica aprofundou a apatia política. Muitos jovens das minorias se registraram para votar após os tumultos de 2005 e a abstenção nos subúrbios caiu pela metade, para cerca de 15%, no primeiro turno eleitoral.

Boungou-Pouaty alertou que Sarkozy só terá uma chance de cumprir suas promessas. "Nós veremos como ele formará seu governo, se incluirá negros e árabes", disse Boungou-Pouaty. "Se ele nos decepcionar, será o fim." George El Khouri Andolfato

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